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CUIDAR DAS CRIANÇAS, DOS JOVENS E DOS IDOSOS

No documento O Brasil que queremos web (páginas 170-173)

Alexandre Padilha*

CUIDAR DAS CRIANÇAS, DOS JOVENS E DOS IDOSOS

Foi feito um primeiro estudo com idosos no Brasil, de acompanha- mento até o desfecho negativo (morte). No começo do estudo, apenas 6% não tinham doença crônica; 81% tinham de uma a quatro doenças crô- nicas; e 15% tinham cinco ou mais doenças crônicas. O mais importante é quando se acompanha longitudinalmente os desfechos negativos, não há relação com a quantidade de doenças no início do acompanhamento, mas sim se tinham algum problema de saúde mental, se tinham acom- panhantes na vida cotidiana (família ou cuidadores), se haviam sofrido queda (doméstica ou se deslocando na cidade) e a quantidade de tempo que ficavam em um hospital. No tocante a doenças, o que influenciava não era o número, mas a existência de doença que levava a algum tipo de incapacidade. Além da saúde mental, já apontada em relatório da OMS como uma das maiores causas de incapacidade, acometimentos visuais (catarata, retinopatia do diabetes), auditiva ou pulmonar que o deixasse acamado. Isso, por um lado, gera uma transformação nos indicadores que devemos seguir, sobretudo aqueles que nos mostrem traços de qua- lidade de vida, convivência social, número de quedas e hospitalização sem indicação.

O segundo impacto foram estudos qualitativos que mostram o quanto a capacidade de observação das equipes de agentes comunitários de saúde e profissionais da estratégia de saúde da família sobre a relação mãe-filho-núcleo familiar desde o parto até o final da primeira infân- cia impactam diretamente na vida desse futuro adulto, desde os seus hábitos alimentares, o seu desempenho escolar até, muitas vezes, para driblar o caminho da violência urbana.

O terceiro impacto foram as medidas intersetoriais, tais como as de controle da velocidade máxima nas grandes cidades, a ampliação

dos espaços públicos de cultura e lazer e a iluminação pública, que já tiveram redução de mortalidade; do uso abusivo de drogas, de interna- ções e na aquisição de deficiência física na população de jovens adultos das grandes cidades, como, por exemplo, em São Paulo, com as políticas de Fernando Haddad.

Já começamos a enfrentar esta nova realidade com Lula e Dilma quando garantimos acesso a medicamentos para as principais doenças crônicas, com a Rede Cegonha e seus esforços em mudar o modelo de assistência ao parto; quando iniciamos a construção de uma rede de saúde mental substituindo gradativamente a lógica manicomial; quan- do criamos o Melhor em Casa, como programa de acompanhamento de internados domiciliares, levando a desospitalização mais precoce; quando permitimos novos arranjos nas equipes de saúde da família para garantir maior vínculo com seus pacientes; quando transformamos em obrigatórios os dados de atendimento à violência, orientando novas políticas de trânsito, segurança e uso do espaço urbano; e quando inicia- mos uma aliança com os jovens para o enfrentamento dos seus riscos e agravos à saúde, entre outras iniciativas.

Mas a intensidade desta mudança exige da nossa parte também apro- fundarmos as políticas de saúde e intersetoriais que possam ter impacto decisivo nesta nova realidade:

a) uma agenda intersetorial de promoção à saúde só será possível quan- do assumida como prioridade da pauta política que ultrapasse o setor saúde. Com ela, enfrentaremos os padrões de estímulo ao consumo alimentar, em especial a publicidade voltada para crianças, teremos políticas urbanas que protejamos a vida na mobilidade, na ocupação do solo urbano, na segurança pública, no fomento a espaços públicos de convivência-lazer-cultura para todas as faixas etárias, e teremos políti- cas de desenvolvimento amparadas na sustentabilidade ambiental;

b) superar definitivamente dois modelos que fracassaram em lidar com os problemas da saúde mental. O manicomial-medicalizante e as políticas de enfrentamento às drogas pautadas nas diretrizes da Guer- ra às Drogas. O primeiro colecionou, de um lado, uma profusão de

desrespeito aos direitos humanos, a estigmatização dos transtornos mentais que levaram à exclusão das pessoas e ao uso irracional abusivo de antidepressivos, ansiolíticos e antipsicóticos. O segundo, a Guerra às Drogas e seus derivados urbanos higienistas, revelou-se em uma verda- deira guerra aos pobres: são os pobres que sofrem com a reclusão, com a desestruturação familiar, com o encarceramento em massa recaindo sobre os pobres, jovens e mulheres, com a desestabilização de atividades realizadas por profissionais de saúde nas cenas urbanas de uso abusivo de drogas. Não pode haver retrocesso nas diretrizes da Política Nacio- nal da Saúde Mental e precisamos concluir a implementação de toda a Rede de Atenção Psicossocial com seus CAPS, leitos em hospital geral, residências terapêuticas, unidades de acolhimento, núcleos de estímulo à criatividade, convivência e economia solidária com os usuários; todo apoio aos modelos de redução de danos e ação intersetorial com mora- dia social, segurança alimentar e segurança pública que respeite a vida, como na experiência do Programa de Braços Abertos, em São Paulo, e diretrizes nacionais ou locais do uso de medicamentos para os agravos no campo da saúde mental;

c) assumir uma prioridade para a reorganização do SUS para lidar com o envelhecimento ativo, o cuidado contínuo e a desospitalização dos idosos. Esta prioridade inicia-se na atenção básica com equipes multi- profissionais apropriadas, com o estímulo à atividade física e às práticas corporais integrativas, a ampliação da rede de cuidadores/apoiadores (qualificar inclusive indivíduos que não sejam profissionais de saúde) e ação intersetorial com a rede de assistência social. Uma forte ampliação dos programas de atenção domiciliar, iniciado pelo Governo Federal com o Melhor em Casa. Um compromisso nacional com metas específicas de garantir acesso absoluto à cirurgia e a terapias que possam reverter situ- ações que levam à incapacidade do idoso, sobretudo problemas visuais, auditivos, saúde mental e prevenção a acidentes. Iniciar a estruturação de uma rede integral de atendimento especializado ao idoso, tanto ambu- latorial e hospitalar, extremamente articulada com a atenção básica e o atendimento domiciliar. Esse atendimento não pode se fragmentar nos serviços a partir das especialidades, perdendo a dimensão dos cuidados em relação ao envelhecimento ativo e aos aspectos principais que levam a um desfecho negativo aos idosos, como já visto;

d) aprofundar o enfrentamento em relação à indústria de cesáreas do Brasil. Por um lado, ampliar a presença de elementos que afirmam a possibilidade de um modelo que estimule o parto humanizado: qualificar o pré-natal e a orientação quanto aos direitos reprodutivos das mulheres, ampliar centros de parto normal, incluir fortemente obstetras e doulas na rede, modelos de financiamento e regulação do privado que não estimulem a cesariana.

e) apostar no acompanhamento do desenvolvimento das crianças de for- ma intersetorial, como o exemplo do São Paulo Carinhosa, a partir das equipes de atenção básica que assistem ao pré-natal e ao início do acom- panhamento do desenvolvimento infantil, obrigatoriamente com uma articulação intersetorial no território, com educação, assistência social e identificação de situações de vulnerabilidade e violência doméstica;

f) investir em uma rede de prevenção, cuidados, reabilitação para as pessoas com deficiência, inspirada na experiência inicial do Viver sem Limites do Governo Dilma. Esse será um tema cada vez presente no cotidiano do SUS e das famílias brasileiras. Pelo lado positivo, é que felizmente as crianças que nasciam com alguma deficiência vivem cada vez mais, muitas chegando à idade adulta, e pessoas que morriam por eventos agudos, como acidente vascular cerebral, felizmente sobrevi- vem mais, ficando anos com alguma deficiência adquirida. Pelo lado negativo, é o crescimento entre pessoas do segmento adulto jovem de pessoas que adquirem uma deficiência por conta de acidentes no trân- sito e pela violência urbana. A acessibilidade como política intersetorial e o investimento tecnológico em tecnologia assistiva serão iniciativas fundamentais para a expansão dessa rede.

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No documento O Brasil que queremos web (páginas 170-173)