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Cuidar de um avô O papel das netas nos cuidados

No documento tese são final repositório Rosalia Guerra (páginas 94-96)

Francisca tem 22 anos e cuidou do seu avô. Tendo o mesmo já falecido, a experiência dos cuidados durou três anos. O seu agregado familiar era composto pelos seus pais, irmã e o avô. Francisca é psicóloga e numa fase do período da experiência de cuidados realizou uma

Instituto Politécnico de Portalegre – Escola Superior de Educação e Ciências Socias e Escola Superior de

da neuropsicologia.

Quando olha para a sua história de vida, Francisca vai à procura das aprendizagens que fez no seio da sua família e que contribuíram para a sua experiência de cuidadora. Francisca aprendeu com a sua mãe e com a sua tia que é preciso cuidar dos familiares:

…também tive uma tia avó minha, irmã do meu avô materno que ela para mim sempre fez papel de avó porque a minha avó materna também tinha doença de alzheimer e era um bocadinho difícil construir uma relação e a minha avó paterna já tinha morrido então com esta minha tia avó, irmã do meu avô materno é que eu tinha uma relação de avó, lembro-me quando ela adoeceu… eu via as pessoas da minha família a correr para o hospital, a tratarem de todos os passos, lembro me de se falar se ela precisava ou não de cuidados paliativos e foi óbvio para toda a gente que se tinha que tratar dessas coisas e portanto eu ver essas coisas…pensava que quando chegasse a minha altura eu também tinha que cuidar daquela pessoa...aprendi também muito isto sempre com a minha mãe…a minha mãe não chora sobre o leite derramado…mas está sempre na linha da frente, a atuar…há coisas para fazer, então vamos fazer. Sei que fiz uma aprendizagem, implícita, por ver a minha mãe, a minha tia a tratarem da minha avó, da minha tia-avó também…quando foi a situação do meu avô: eu disse para mim mesma: “ok é isto que tenho que fazer”, não questionei.

Francisca encontrou no seu passado, na vivência da doença da sua avó materna, uma aprendizagem muito significativa para a sua experiência de cuidadora. Esta experiência prévia permitiu-lhe «ver como se fazia» como a própria refere:

Mesmo que eu não viesse da área da psicologia, que isso ajudou-me muito, eu cresci com a minha avó sempre a vê-la a perder mais faculdades: começou por alguma desorientação, depois perdeu a fala, a minha avó foi daquelas pessoas com doença de alzheimer que perdeu a fala, alterações comportamentais e ao longo dos anos, a minha avó sempre foi perdendo mais capacidades. A convivência com a doença da minha avó, embora eu ainda fosse nova, durou tanto tempo, que me ajudou a aprender a lidar com a doença do meu avô. Houve coisas que eu já tinha adquirido pela experiência que tive com a minha avó, por ver como a minha mãe fazia…

Por outro lado, aquando da experiência dos cuidados, Francisca recorre aos conhecimentos adquiridos na sua formação para mobilizá-los para a compreensão da doença do avô e para a tomada de decisões enquanto cuidadora:

A minha formação facilitou para compreender a doença e porque eu também conhecia pessoas da área…mesmo médicos neurologistas, terapeutas ocupacionais, da fala…e então eu fazia já perguntas muito específicas, porque eu estava a trabalhar, a estudar na área e esse conhecimento ajudava… o conhecimento teórico da faculdade ajudou-me muito.

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em que o meu avô começou a ficar doente, eu estava no 4º. Ano, depois passei para o 5º. Ano, nessa altura tinha já feito as cadeiras teóricas e depois fui para o estágio mesmo em neuropsicologia, portanto, tinha alguns conhecimentos de neurociências ainda que numa fase inicial…

No seu relato, Francisca descreve a morte da avó materna como um acontecimento catalisador de uma mudança na sua forma de ver a vida. A perda de um familiar significou um ponto de inflexão no rumo da sua própria vida39, tendo-a ajudado a crescer e a assumir o papel de cuidadora (principal) do seu avô.

e quando ela morreu [avó materna] , aí eu tive um grande choque e foi das perdas que me custou mais, foi a minha grande primeira perda…isso fez-me ver a vida de uma forma diferente e ganhar uma consciência maior sobre o papel dos meus avós…estava o meu avô paterno muito no início da doença…Tinha mesmo de me dedicar a ele porque percebi que eles um dia partem…Senti que cresci bastante com esta situação e que não podia ser mais espetadora sem assumir papéis principais.

Quando Francisca reflete sobre a qualidade da relação com o avô, recorda momentos do passado que demonstram a estabilidade da relação pautada por encontros frequentes e, por isso, próxima:

Eu lembro-me de ser pequenina e nós íamos acampar com o meu avô, ele foi GNR e era um homem aventureiro. Lembro-me de irmos para a praia, eu a minha irmã e a minha avó…nós sempre tivemos uma relação muito próxima. Lembro-me que sempre passávamos o Natal na casa dos meus avós maternos mas quando vínhamos à meia noite de dia 24, passávamos sempre em casa dos meus avós paternos e estávamos uma parte da noite de Natal também com eles, lembro-me quando eles me iam buscar ao colégio e da minha avó sorrateiramente nos ir dando bombons, lembro-me dos lanches, sempre tive uma relação de proximidade com eles.

No documento tese são final repositório Rosalia Guerra (páginas 94-96)