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3.3 Pressupostos da responsabilidade civil

3.3.4 Culpa lato sensu

Para Carlos Roberto Gonçalves (2007), agir com culpa significa atuar o agente de forma a merecer, pessoalmente, censura ou reprovação do direito. Nesse sentido, só pode o agente ser pessoalmente censurado ou reprovado na sua conduta, quando, diante das circunstâncias concretas da situação, for certo que ele podia e devia ter agido de outro modo.

A culpa civil lato sensu abrange não somente o ato ou conduta intencional, o dolo, mas também os atos ou condutas eivados de negligência, imprudência ou imperícia, qual seja, a culpa stricto sensu. (VENOSA, 2012).

Dolo pode ser definido como sendo a vontade consciente de violar um direito, dirigida à produção de um resultado ilícito. Pode se caracterizado pela ação ou omissão do agente que, prevendo o dano que sua atividade vai causar, deliberadamente prossegue, com o propósito de alcançar resultado danoso. (CAVALIERI FILHO, 2003).

A culpa stricto sensu ou aquiliana engloba a imprudência, negligência e imperícia. Imprudência é conduta positiva, consistente em uma ação da qual o agente deveria abster-se, ou em uma conduta precipitada. Negligência é inobservância de normas que ordenam agir com atenção, capacidade, solicitude e discernimento. E imperícia é a falta de habilidade técnica ou inaptidão para praticar certo ato. (DINIZ, 2011; GONÇALVES, 2007).

A responsabilidade civil pode, no entanto, ser independente da culpa. Ela poderá ou não existir, mas sua prova sempre será irrelevante para a configuração do dever de indenizar. É o que define o parágrafo único do art. 927 do Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002):

Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem.

Salvo, portanto, disposições legais expressas, não haverá responsabilidade sem culpa. Nesses casos, o agente será obrigado a ressarcir o prejuízo causado, mesmo que isento de culpa, porque sua responsabilidade é imposta por lei independentemente de culpa e mesmo sem necessidade de apelo ao recurso da presunção. Apurado o dano, o ofensor ou seu proponente deve indenizar a vítima. Essa responsabilidade fundamenta-se no vínculo

existente entre o agente ou responsável ou, ainda, na atividade exercida pelo agente, pelo perigo que pode causar dano à vida, à saúde ou a outros bem, criando risco de dano para terceiros. (DINIZ, 2011).

Nas hipóteses previstas no art. 932 do Código Civil, uma pessoa pode vir a responder pelo fato de outrem, ainda que não tenha contribuído para a efetivação do dano. Isso não ocorre de maneira arbitrária. Para que a responsabilidade atinja alguém que não concorreu diretamente para o dano, é necessário que essa pessoa tenha algum vínculo jurídico que a ligue ao autor do ato ilícito, de maneira que lhe resulte um dever de guarda, vigilância ou custódia.

Nesse contexto, a responsabilidade por fato de outrem não representa afastamento ao princípio da personalidade de culpa, pois o responsável é legalmente considerado em culpa pelo menos em razão da imprudência ou negligência expressa na fata de vigilância sobre o agente do dano. (CAVALIERI FILHO, 2003). É o que preceitua o art. 933, do Código Civil: “as pessoas indicadas nos inciso I a V do artigo antecedente, ainda que não haja culpa de sua parte, responderão pelos atos praticados pelos terceiros ali referidos.” (BRASIL, 2002).

De acordo com Sílvio de Salvo Venosa (2012), modernamente, a distinção entre dolo e culpa stricto sensu não ganha grande relevância no campo da responsabilidade civil. Para fins de indenização, importa verificar se o agente agiu com culpa civil, em sentido lato, pois, como regra, a intensidade do dolo ou da culpa não deve graduar o montante da indenização. O objetivo nesta seara é indenizar a vítima e não punir o agente culpado, medindo-se a indenização pela extensão do efetivo prejuízo e não pelo grau de culpa do agente.

O entendimento de que o grau de culpa do agente não deve influenciar na reparação do dano é adotado pela grande maioria dos juristas. Todavia, depreende-se do art. 944, parágrafo único, do Código Civil, autorização para que o magistrado decida por equidade, em casos de culpa leve ou levíssima: “Se houver excessiva desproporção entre a gravidade da culpa e o dano, poderá o juiz reduzir, equitativamente, a indenização”. (BRASIL, 2002).

Sobre o tema, dispõem o seguinte acórdão:

ADMINISTRATIVO E PROCESSUAL CIVIL. PEDIDO. INTERPRETAÇÃO LÓGICO-SISTEMÁTICA. PETIÇÃO APTA. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. DANO MORAL. NEXO CAUSAL. FALTA DO SERVIÇO. GRAU DE

CULPA. PROPORCIONALIDADE DA CONDENAÇÃO. SÚMULAS 7/STJ E

126/STJ. […]. 3. Não houve também afronta ao art. 944, parágrafo único, do CC, pois o quantum indenizatório arbitrado no valor de R$ 100.000,00 (cem mil reais),

que representa aproximadamente 160 salários mínimos, não se mostra nada excessivo diante do dano causado - morte do irmão da agravada -, bem como da gravidade do defeito na prestação de serviço evidenciado no caso concreto. 4. Em

primeiro lugar, apenas poder-se-ia concluir pela violação do art. 944, parágrafo único, do CC, se houvesse extrema desproporção entre a gravidade da culpa e o dano. Isso porque, a regra, no nosso ordenamento, é a da reparação integral do dano, independentemente do grau de culpa. Tal regra, repita-se, só é excepcionada em casos raros, onde há flagrante desproporcionalidade. […]

Agravo regimental improvido. (STJ. AgRg no AREsp 156.155/RS, Rel. Ministro HUMBERTO MARTINS, julgado em 05-06-2012). (grifo nosso).

Para Maria Helena Diniz (2011), a culpa grave será evidente quando, dolosamente, houver negligência extrema do agente, não prevendo aquilo que é previsível ao homem comum. A culpa leve ocorrerá quando o dano puder ser evitado com o emprego de atenção ordinária. A culpa levíssima terá lugar se a lesão for evitável por uma atenção extraordinária, ou especial habilidade e conhecimento singular, não comum ao homem ordinário.