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4. LUGARES QUE MORAM NA GENTE

4.4 CULTO EVANGÉLICO NO LAR MEIMEI

Mesmo os espíritas dizendo que não havia ensinamentos doutrinal nas Escolas confessionais espíritas, a evangelização com as crianças assistidas acontecia “através de orações, durante as refeições e quando iam dormir, além das aulas de religiões, porém durante as aulas não se falava na doutrina espírita e sim na figura de Jesus Cristo”. (BEZERRA, 2009). Encontrou-se, de forma sutil, a realização de práticas que indicavam os ensinamentos espíritas por meio da evangelização às crianças assistidas pela Casa do Pequenino, principalmente às do Lar “Meimei”. Embora a oração fosse sempre antes das refeições havia um momento dentro daquela estrutura em que era utilizado o Evangelho Segundo o Espiritismo: “era realizado o Culto do Evangelho um dia na semana”.

(ANUNCIAÇÃO, 2016). O Culto do Evangelho acontecia sempre às quartas – feiras e não havia a presença de nenhum membro da União Espírita; os próprios internos, juntamente com as guardiãs conduziam esse momento, “não vinha ninguém da União, não! Era de lá mesmo, sempre Maria coordenando essa parte, porque Maria já era evangelizadora, ela já tinha passado por tudo, aí ela já orientava”. (CRUZ, 2009). Em um determinado período foi conduzido pelas guardiãs, mas como possuíam pouca leitura, com o passar do tempo Maria da Anunciação, interna da instituição, assumiu a condução da ação.

Assim, a pesquisa revelou que a oração dentro do Lar “Meimei” não era apenas desenvolvida, durante as refeições. Por mais que os seguidores da doutrina espírita dissessem que dentro dessas Instituições não havia lugar para o proselitismo, existiam nas pequenas ações as simbologias dos ensinamentos espírita; “as orações eram dentro da Doutrina Espírita, nós fomos criados com a Doutrina Espírita”. (SOUZA, 2013). O hábito da realização da mesma no Lar, mostra-nos que fazia parte de uma rotina e que os internos participavam: “a oração acontecia em todos os momentos das refeições, mas tinha um dia específico [...] Era lá dentro da Instituição que acontecia o que se chamava o Dia do Culto do Evangelho no Lar. (CRUZ, 2009). Normalmente acontecia às sete horas da noite, com a participação dos internos e “tinha que todos está ali”. (CRUZ, 2009). Na oportunidade era lida uma passagem do Evangelho Segundo o Espiritismo, e depois era disponibilizado um período de meia hora para os comentários.

O fato de ser utilizado o Evangelho Segundo o Espiritismo deixa evidente que havia ensinamentos com referência à doutrina espírita: “no Lar sim! Na escola não! E acontecia porque era um Lar Espírita”. (SANTOS, 2014). Apesar de na nomenclatura da Casa do Pequenino não existir o nome espírita, foi uma instituição construída e mantida pela União Espírita do Estado de Sergipe. Será que realmente não havia os ensinamentos doutrinais? Internos afirmaram que quando criança:

A oração praticada era sempre falar na figura de Deus, porque era mais fácil da criança entender, embora quando íamos ficando jovem os Diretores eles já oravam diferente, mas o que era ensinado a criança era o significado de Deus, os valores morais, o respeito ao ser humano e sobre a caridade. (CRUZ, 2009).

Alguns internos, entraram na instituição ainda criança, mas saíram na adolescência ou já adultos. Viveram os ensinamentos religiosos nas duas fases. Por mais que as fontes

pesquisadas, em nenhum momento, tenham sinalizado que dentro do Lar “Meimei” era dito aos internos, sigam a doutrina espírita; mas uma prática realizada diariamente, semanalmente e mensalmente, acaba por ter uma representação para os envolvidos no ritual. No pensamento de Divaldo Franco seria paradoxal se as Escolas Espíritas não realizassem tais práticas, que só por meio delas os internos “acompanhando o nosso dia-a-dia sentem todos eles a qualidade superior da fé que nos norteiam os passos e compreendem que foi essa abençoada Doutrina que a todos nos convocou ao trabalho de amor junto aos seus corações”. (FRANCO. 1970, 62). Então, essa prática era estrategicamente aplicada com a intenção que os ex-internos se tornassem seguidores da doutrina, porque a maioria das crianças que ali estava não vinham de famílias que professavam a fé espírita.

4.4.1 Escola de Evangelização

Mesmo havendo a prática da oração dentro do Lar Meimei todos os domingos pela manhã, os internos praticavam outro ritual dentro dos princípios religiosos. Iam à Escola de Evangelização “Lindolfo Campos”, localizada na antiga sede da União Espírita de Sergipe, situada à rua Santa Luzia, nº 164 na área central de Aracaju, “A evangelização era em uma casa na rua Santa Luzia que hoje está alugada e a renda e para a Casa do Pequenino.” (SOUZA, 2013). A ida à Escola de Evangelização aos domingos, talvez fosse a única distração dos internos fora do Lar: “era o melhor dia da gente, porque saíamos do orfanato, íamos em filinha, de três em três, todo mundo da rua já via a gente e já sabia. (SOUZA, 2013). Mesmo sabendo que a Escola de Evangelização, exercia também a função de disciplinar, “lá aprendíamos a maneira de sentar, que não deveríamos cuspir no chão, que não devíamos ir ao banheiro toda hora, tinha que chegar e já ter feito suas necessidades; que quando alguém estivesse falando era preciso prestar atenção”. (SANTOS, 2014). Esses ensinamentos eram passados pensando nos bons frutos que as crianças colheriam no futuro, se fossem bem disciplinadas.

Mas mesmo com tanta disciplina os internos acordavam, tomavam banho, faziam a refeição do café da manhã e começavam a se arrumar, o dia de domingo tinha um ar diferente para as crianças. Na Escola de Evangelização eles também participavam de dramatizações e brincadeiras, e o fato de sair da instituição já dava aos pequenos um ar de felicidade; viveriam no curto espaço de três a quatro horas uma determinada autonomia.

Os internos de certa maneira, ao saírem da instituição para irem a escola de evangelização, que acontecia das oito as dez horas da manhã, desfrutavam de um pequeno momento de liberdade. “Dia de domingo o catecismo, a gente ia lá! Eu, Lourdes (guardiã) e outros maiores, pegávamos nas mãos dos pequenos. Saíamos dali, lá para a rua de Santa Luzia, pegava ali na praça, passava pela Av. Barão de Maruim e pegava a rua direto”. (ANUNCIAÇÃO, 2016). No início Maria da Anunciação era evangelizada, depois passou a evangelizadora, e com isso assumiu a responsabilidade de levar as crianças, todos os domingos. “Eu fazia esse percurso com eles, ia levando, os internos maiores também ajudavam, e antes de sairmos já combinávamos: você segura na mão de fulano e fulano(sic)”. (ANUNCIAÇÃO, 2016). A partida das crianças à escola de evangelização, requeria uma atenção redobrada; o interessante é que nenhum diretor do Lar “Meimei” acompanhavam as crianças, essa responsabilidade ficava a cargo de uma guardiã e dos internos mais velhos. “Graças a Deus nunca aconteceu nenhum acidente, e as pessoas assim, quando viam o batalhão, paravam e a gente só passava no sinal vermelho. Às vezes, no retorno, levávamos eles para a pracinha pra brincar um pouco na praça, ali na Tobias Barreto que era perto”. (ANUNCIAÇÃO, 2016).

Apesar da distância, e de fazer o percurso a pé, os internos não reclamavam: “eu preferia as aulas de evangelização do que as da Escola “Amélie Boudet”. Na evangelização contavam histórias, de uma forma que eu entrava na história [...].Tinha um homem que tocava violão, parecia Jesus, tinha barba e o cabelão”. (SOUZA, 2013). Os internos acabavam se apropriado de maneira mais aprazível dos ensinamentos, por conta das práticas utilizadas na Escola de Evangelização. Os seguidores da Doutrina Espírita ao pensar nas aulas de evangelização, imaginavam formas criativas, acreditavam segundo Ramos (2011) que “as crianças evangelizadas, seriam homens de bem” e assim as práticas utilizadas na Escola de Evangelização “Lindolfo Campos”, deveriam servir de encantamento aos internos, e a forma para que isso acontecesse era justamente por meio da arte, no formato de poesia, música e história.

Ah! Contar histórias, principalmente histórias referente ao Evangelho de Jesus. Todas as histórias, mesmo as de La Fontaine. Contava uma história, aí na recapitulação dizia assim Jesus abraçou a criança. Aí tinha três quadros, era perguntado as crianças: Qual da figuras representava à cena? A outra forma era contar a história e ir colocando as personagens naquelas pregas. Contavam histórias, fazia teatro (sic) e cantavam músicas. (RAMOS, 2011).

Mas, na escola de Evangelização também usavam “fichinhas, cartazes para ilustrar, e tinha as chamadas em um papelzinho de cartolina e lá tinha pregas o quadro de pregas. O evangelizador chamava e as crianças iam colocando o nome nas pregas”. (RAMOS, 2011). Essa prática leva ao entendimento que métodos são munidos de um propósito e:

A tarefa de Evangelização Espírita infanto-juvenil é um dos mais altos significados dentre as atividades desenvolvidas pelas Instituições Espíritas, na sua ampla e valiosa programação de apoio à obra educativa do homem. Não fosse a evangelização, o Espiritismo, diante de sua função evangélica, perderia sua missão de Consolador, retendo-se com as diversidades das escolas religiosas no mundo que, embora úteis e oportunas, estiolaram-se no tempo absorvendo posições de determinalidade e dogmatismo. (MENEZES, 1986, Pp.10-11).

O da Escola de Evangelização “Lindolfo Campos”, não diferente das outras, era ensinar às crianças, para mais tarde passar de evangelizando a evangelizador: “aconteceu comigo, eu aprendi e comecei a evangelizar os pequenos”. (RAMOS, 2013). Maria da Anunciação, foi um desses casos, a Escola de Evangelização fez da pequena interna uma evangelizadora e multiplicadora da doutrina espírita dentro do Lar “Meimei”.