2. A CONSTRUÇÃO DE UMA CULTURA DE RISCO DE DESASTRE
2.2. Sobre a Cultura de Desastre na Sociedade de Risco
Conforme comentamos na apresentação da pesquisa, entendemos que os desastres não são definidos em si mesmos, como produtos estritamente naturais. Os tomamos como construções formatadas nas relações interpessoais, vindo a adquirir força no Brasil apenas recentemente. Assim, a expressão adotada nesta pesquisa está relacionada com os diferentes discursos, técnicas, saberes, estratégias de enfrentamento e de prevenção relativas aos acontecimentos considerados como desastre na atualidade.
No caso desses acontecimentos específicos, partimos do pressuposto de que as pessoas sempre conviveram com enchentes, ciclones e terremotos, entre outros fenômenos, e que o entendimento de que esses acontecimentos são considerados como desastre de acordo com os diversos fatores já comentados. Assim, a cultura de desastre é por nós definida como o conjunto de percepções, sentidos, tecnologias, informações e modos de lidar com os desastres.
De acordo com a Universidade Federal de Santa Catarina (2012), há uma distinção entre cultura de desastre e cultura de risco de desastre. Por cultura de desastre compreendem-se as construções para enfrentamento de desastre após a ocorrência, mais focado na ação posterior ao desastre. Já a noção de cultura de risco de desastre emerge no contexto de reflexões principalmente sobre Sociedade de Riscos, buscando com isso ações preventivas que visam a minimização de riscos de desastres. O que se coloca como questão nessa conceituação é como o risco é percebido de modo a minimizar seus impactos, enquanto que a ideia de cultura de desastre se dá pelo fatalismo, pelo inevitável.
O que gostaríamos de esclarecer com esse pressuposto é que a cultura de risco de desastre se constrói, sendo alvo de ações de governos e ações decorrentes de mobilizações locais e tomada enquanto objeto de políticas públicas num contexto de Estado governamentalizado, bem como numa sociedade de risco. Ou seja, essa construção de cultura de risco de desastre se dá apenas em uma sociedade de risco.
Cabe esclarecer também que, ao priorizarmos a cultura de risco de desastre na contemporaneidade, entendemos que as construções culturais ocorrem também por meio da comunicação social. Essa cultura de risco de desastre abarca tanto os sentidos construídos sobre estes acontecimentos quanto as estratégias para enfrentá-los, tais como desenvolvimento tecnológico para construção de represas, construção de móveis que possam ser removidos em caso de inundação, modos de prevenção por meio da comunicação sobre áreas de risco,
incluindo a ocupação territorial em áreas que apresentam riscos menores, e o acesso a informações, entre outros.
Especificamente, tomaremos a comunicação ocorrida pelo jornal impresso de circulação local, Jornal de Santa Catarina (popularmente chamado de Santa), como principal fonte de informações. O objetivo é entender como essa cultura de risco de desastre se construiu na cidade de Blumenau nas duas últimas enchentes ali ocorridas. Esse será um dos aspectos trabalhados no decorrer desta pesquisa.
Continuando nossas conceituações, cabe fundamentar o que chamamos de sociedade de risco.
2.2.1. SOCIEDADE DE RISCO
A definição de sociedade de risco se dá, conforme breve explicação na apresentação desta pesquisa, pautada nas reflexões de Ulrich Beck. Nessa conceituação os riscos são entendidos como imponderáveis, questionando-se a sua previsibilidade, uma vez que, caso ocorra, por exemplo, a contaminação de água/ar/terra por desastres nucleares, alguma medida oficial dificilmente resolveria o problema.
Segundo Beck (1986[2010]), a questão dos riscos na atualidade faz com que todos se sintam sujeitos às mesmas ameaças, de forma que não existem classes mais vulneráveis que outras. Assim, o destino a que as pessoas estão envolvidas se refere mais ao conceito de perigo, colocando a todos no período de uma “moderna Idade Média do perigo” (BECK, 18986[2010], p. 8).
O autor entende que, no século XIX, a natureza passou a ser pensada como controlável e ao mesmo tempo como ignorada, por via da contradição entre natureza e sociedade. No século XX, a natureza passou a ser explorada e subjugada, deixando de ser considerada como um fenômeno externo para ser dada como algo interno à sociedade.
A ideia emancipatória que se formatou no período da Modernidade Tardia – pelo entendimento sobre as “individualidades” – é posta em xeque diante dos problemas que os riscos colocam a todos. Dessa maneira, as pessoas não conseguem alcançar o ideal de viver sob as “próprias escolhas”.
Para este autor, quando se vivencia uma catástrofe em que as ações preventivas ou mesmo de enfrentamento não são suficientes, a ameaça passa a ser entendida como algo mais danoso do que de fato é, o que aumenta a sensação de suscetibilidade generalizada. Sendo
assim, o fato de o risco ser inconcebível ou mesmo imperceptível se coloca como conceito que se alia à ideia de um risco residual.
Beck (1986[2010]) afirma que o que se esboça com o fim da chamada sociedade industrial clássica é uma formação social orientada pela ideia da destruição a si mesma, motivo pelo qual o autor denomina este período como “sociedade (industrial) de risco” (p.
12).
No século XIX, a modernização se consumou contra o pano de fundo de seu contrário: um mundo tradicional e uma natureza que cabia conhecer e controlar.
Hoje, na virada do século XXI, a modernização consumiu e perdeu seu contrário, encontrando-se afinal a si mesma em meio a premissas e princípios funcionais socioindustriais (BECK, 1986[2010], p.13).
Em suma, podemos entender que, no início do século XXI, o que se coloca como questionável para a sociedade é o conhecimento científico e tecnológico, relacionado amplamente com as ideias acerca do risco que vão se delineando nesse contexto.
A constatação da imponderabilidade dos riscos e do descrédito na ciência está atrelada aos repertórios sobre a modernidade. Quando ocorre o rompimento com o período clássico, em que os conceitos sobre papéis sociais eram predefinidos, na modernidade reflexiva esses papéis passam a ser nãodefinidos, de forma que os conceitos sobre riscos ou mesmo sobre o papel da ciência também passam a ser repensados. Nesse período, convive-se com construções paradoxais em que se entende que as coisas e as relações podem mudar, ao mesmo tempo que se tem a sensação de que nada está mudando. Por isso, entendemos que se faz necessário construir novos repertórios para tentar dar conta dessas complexas construções.
Nessa vertente teórica, entende-se que a produção social de riquezas na modernidade tardia se dá com a produção social de riscos. Esse conceito de modernidade diz respeito às transformações tecnológicas, de racionalização e transformações em relação ao trabalho e à organização social. Essas mudanças, decorrentes da modernização social, estão atreladas ao desenvolvimento de riscos, produzindo inclusive autoameaças imponderáveis. É nessa acepção que este processo se torna reflexivo, na medida em que retorna contra si mesmo em forma de problema.
A produção de uma série de efeitos colaterais latentes – utilizando a expressão cunhada por Beck (1986[2010]) – há de ser administrada em relação à segurança, de forma que não comprometa o desenvolvimento industrial e a modernização. Assim, constroem-se intervenções que precisam dar conta desses diversos fatores na modernidade tardia, mas que nem sempre são efetivos.
A questão da escassez que é produzida no contexto da governamentalidade se configura como algo a ser superado, quando se pensa em uma sociedade (moderna) individualizada. Cria-se então uma discrepância em relação à crença na minimização das diferenças sociais, da pobreza, em relação aos efeitos danosos a que todos os indivíduos estão submetidos. As forças consideradas destrutivas são desencadeadas no processo de modernização, de tal forma que as pessoas não conseguem mais imaginar o que lhes pode acontecer.
Segundo Beck (1986[2010]), desde a década de 1970 dá-se seguimento à construção do conflito entre uma sociedade de risco e uma sociedade de escassez. Esses conflitos possibilitam construções sociais sobre pensamento e ação diferenciadas das tradicionais. A questão dos riscos, que muitas vezes foi atrelada a riscos pessoais, passou a se configurar como riscos globais, processo identificado como diretamente relacionado com a industrialização das sociedades.
A questão da industrialização é colocada no sentido de que, se há séculos os riscos eram assumidos em relação à falta de conhecimento científico-tecnológico, atualmente tem-se que são produtos do excesso desses conhecimentos.
Os riscos e ameaças atuais diferenciam-se, portanto, de seus equivalentes medievais, com frequência semelhantes por fora, fundamentalmente por conta da globalidde de seu alcance (ser humano, fauna, flora) e de suas causas modernas. São riscos da modernização. São um produto de série do maquinário industrial do progresso, sendo sistematicamente agravados com seu desenvolvimento ulterior (BECK, 1986[2010], p. 26).
Já no que se refere aos danos dos riscos a que a sociedade se expõe – químicos, climáticos, ambientais – estes não estão apenas relacionados ao lugar de produção, que poderia ser a fábrica ou mesmo uma região limitada. Atualmente, relacionam-se os riscos à questão da vida na Terra. Esta é uma mudança considerável quando se trata do tema dos riscos na atualidade.
Beck (1986[2010]) apresenta cinco argumentos em relação aos riscos da modernidade tardia:
1) Riscos em relação às forças produtivas, em especial, à radioatividade, não estão atrelados a conceitos de riquezas. São produções de danos consideradas irreversíveis, ficando, de certa forma, invisíveis, e têm como base explicações causais. São tipos de danos diretamente relacionados às definições de
conhecimento (científico ou anticientífico) e dependem, assim, de processos de definição que servem para que se tomem posições em termos sociopolíticos.
2) A questão dos riscos afeta inclusive aqueles que os produzem, de forma que se tem um efeito bumerangue. Portanto, não estão restritos a camadas populacionais pura e simplesmente, mas afetam a todos, das mais diversas sociedades, direta ou indiretamente.
3) A expansão dos riscos de modo algum abala a produção capitalista; ao contrário, ele se tornam também uma questão de negócios. “A fome pode ser saciada, necessidades podem ser satisfeitas, mas os riscos civilizatórios são um barril de necessidades sem fundo, interminável, infinito, autoproduzível” (p.28). A produção dos riscos se relaciona então com o desenvolvimento industrial, assim como torna-se um potencial político nessa Sociedade de Riscos.
4) Os riscos produzem uma relação de afetação nos indivíduos. Dessa forma, a necessidade de conhecimento em relação aos riscos coloca-se premente, uma vez que para lidar com todos os riscos faz-se necessária a produção de conhecimento, buscando garantir um lugar de “existência” para os indivíduos. Diferentemente de produzir bens ou adquirir bens, a questão do conhecimento sobre os riscos torna-se fundamental.
5) Com o reconhecimento social dos riscos vemos emergir um potencial político relacionado a eles. As questões de mercado, os efeitos econômicos, sociais e políticos são tomados como problema a ser dimensionado na esfera política. Desse modo, a prevenção e o manejo dos riscos envolvem a reorganização do poder e da responsabilidade pela sociedade, principalmente pela via da política.
As questões decorrentes da modernização na sociedade são tomadas, segundo essa perspectiva, como altamente relacionadas à produção de riscos. O entendimento de que os riscos devem ser controlados e dimensionados técnica e cientificamente coloca-os no lugar de algo natural, de um dispositivo orgânico pura e simplesmente. Assim, a sociedade passa a ser entendida muito mais como uma vítima do que como atuante no processo de produção de riscos e ocorre uma retomada de modos de racionalização científicos para tentar dar conta desses acontecimentos. Ao mesmo tempo em que se entende que os riscos são “naturais”, são
“orgânicos”, “climáticos” e “ambientais”, passando assim a utilizar o aparato científico para
entender esses fenômenos “naturais”, tem-se que os riscos são imponderáveis, incalculáveis, na medida em que estão evidenciados nas mais diferentes sociedades.
Com base nessas considerações podemos entender que os riscos deixaram a esfera do local para se tornarem objetos de governos. Essa transformação no trato com os acontecimentos “catastróficos” faz com que os governos assumam o problema em detrimento das organizações das comunidades locais. Todavia, essa transformação não ocorre por sobreposição, de forma que entendemos que as ações estruturadas comunitariamente nos locais continuam ocorrendo, porém com menos força que as ações dos governos oficiais.
Dessa forma, passaremos a abordar a questão da gestão dos riscos como objeto de governo na contemporaneidade.