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2.2 O CONCEITO DE CULTURA

2.2.1 Cultura e Ideologia

O termo ideologia foi criado no século XIX por Destutt de Tracy, filósofo que atribuiu à palavra o sentido de “ciência das ideias”, tratando o significado de maneira que salientasse a relação do homem, enquanto organismo vivo, com o meio em que vive (CHAUÍ, 1980). Entretanto, de antemão, é importante esclarecer que o conceito de ideologia tem duas concepções: a neutra e a crítica. A primeira, aborda a ideologia como um conjunto de ideias, doutrinas, visões de mundo que influenciam as ações sociais e políticas de um indivíduo. A segunda concepção traz o termo como instrumento de dominação que aliena a consciência humana, por meio de ideias de persuasão. Aferindo-se que esta última traz em si uma abordagem mais completa e funcional do que é a ideologia, este, pois, será o conceito adotado nesse estudo.

Karl Marx, mentor da Teoria Crítica e da Escola de Frankfurt16, teve papel fundamental sobre o esclarecimento do conceito de ideologia, sob a perspectiva crítica. O intelectual atribuía à ideologia a noção de ilusão da realidade e defendia o caráter dissimulado incumbido ao conceito, para o qual apenas a aparência de um estado era revelada, mas não a real intenção do sistema. Seguindo o pensamento de Marx17, pode-se dizer que a ideologia, enquanto sistema cultural, ludibria o verdadeiro teor das ações, valores, crenças, costumes, revelando apenas o interessante para a classe dominante se manter estabelecida, não deixando brecha para dúvidas, contestações ou confusão do que é ou deveria ser por parte dos dominados e, principalmente, quando o que é funciona a favor de uma minoria dominante.

Na intenção de ampliar o pensamento crítico de Marx sobre o conceito de ideologia, Karl Mannheim (1954) e sua Sociologia do Conhecimento, defende a ideologia sob duas perspectivas: a ideologia particular e a ideologia total. A ideologia particular compreende ilusões individuais, ocultação da realidade, o poder de convencimento e a persuasão a partir de um nível puramente psicológico, que atua com a sobreposição dos interesses de um grupo em detrimento de outro. Entretanto, a ideologia total, analisada por Mannheim como uma crítica a de Marx, refere-se à visão de mundo de uma classe social ou de uma época, a partir da reprodução dessas ideias e da compreensão das diferenças estruturais das mentes que operam em contextos sociais diferentes (MANNHEIM, 1954).

Grosso modo, Mannheim (1954) não renega a ideia marxista sobre o conceito de ideologia, mas realça características e pontos de vista interessantes para uma melhor compreensão acerca do termo. Os contextos sociais distintos são indiscutíveis para a existência ideológica, visto que ela tem uma função de propagar e garantir a aceitação de uma ideia a outrem, e é justamente o grupo pertencente a esse contexto, deliberado como o percursor ideológico, que a cultura se consolida, por décadas, perpetuando um modelo

16 A Teoria Crítica tem por objetivo entender a cultura como elemento de transformação social e se utiliza de pressupostos do Marxismo para explicar e alertar a necessidade do

esclarecimento da sociedade. Os filósofos adeptos desse pensamento constituem a Escola de Frankfurt.

17 KARL, M. ENGELS, F. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. (Coleção Marx e Engels).

de sociedade e, consequentemente, a tentativa de evitar conflitos e desvios de padrões ideologicamente distintos aos “naturalmente” conhecidos e incorporados pela classe dominada. Tolera-se, nesse contexto, a alienação, a submissão e a omissão como alicerce ao controle, o que retarda o combate a essa conjuntura.

Alinhado a esse raciocínio sobre contextos distintos e grupos sociais hierarquicamente separados entre dominantes e dominados, Mannheim (2008), como defensor de uma ideologia com gênese na estrutura, também pontua em seus estudos o conceito de distância social. Ele trata o termo “distância” com o sentido das relações sociais, considerando os atos criadores de distância, quando uma coisa é afastada da outra. “A distância enquanto fenômeno social é produzida por agentes interessados em manter distância social entre si e os outros, precisamente quando vivem unidos no sentido espacial” (MANNHEIM, 2008, p. 173).

Esse ponto de vista etnocêntrico sobre a distância entre contextos distintos traz à tona o porquê de haver sobreposição de uma cultura à outra, por ser considerada modelo perante as demais. O etnocentrismo cultural, conceito discutido nos estudos sobre cultura, evidencia determinados grupo como os que regem as regras e ditam comportamentos e é esse pensamento que resulta em conflitos ideológicos e sociais. “Práticas de outros sistemas culturais são catalogadas como absurdas, deprimentes e imorais” (LARAIA, 2003, p. 74).

Desse modo, as assimetrias convergentes ao etnocentrismo cultural são mais uma forma de elevar grupos hegemônicos, como aqueles que impõem à sociedade as regras e a ideologia que devem prevalecer. Lévi-Strauss (2008) afirma que, quando o indivíduo é colocado diante de uma situação inesperada, a tendência é repudiar todas as formas culturais com as quais não se identifica. Na intenção, portanto, de não ser vítima desse olhar de negação, os indivíduos tendem a criar costumes para não se sentirem “atrasados” e isolados, com relação às culturas majoritárias ideologicamente.

Na contramão do etnocentrismo, que significa a discriminação de toda cultura divergente aos olhos de quem observa, o relativismo cultural se sobressai como uma tentativa de repensar e desfazer o impasse, com ênfase

nas diferenças culturais. A relativização da cultura defende uma postura de aproximação da cultura do outro, buscando entender seus valores e costumes sem confrontá-los com os que representam o contexto do observador. Dessa maneira, o relativismo cultural pode ser entendido como um modo de enxergar e respeitar a cultura do outro, sem fazer julgamentos, considerando o contexto cultural no qual determinado grupo está inserido, pois é nesse espaço que o indivíduo reconhece a sua identidade.

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