Acimar da Costa Magalhães1
Introdução
O filósofo alemão do século XIX, Karl Marx, o fundador e principal teórico do marxismo, tinha uma atitude antitética e complexa em relação à religião, encarando-a principalmente como “a alma das condições sem alma”, o “ ópio do povo “ que havia sido útil para as classes dominantes, uma vez que dava às classes trabalhadoras falsas esperanças por milênios (ARAÚJO, 2016).
Ao mesmo tempo, Marx via a religião como uma forma de protesto das classes trabalhadoras contra suas pobres condições econômicas e sua aliena-ção. Na interpretação marxista-leninista da teoria marxista, desenvolvida prin-cipalmente pelos revolucionários e soviéticos da Geórgia. Líder Joseph Stalin, a religião é vista como dificultando o desenvolvimento humano. Devido a isso, vários governos marxistas-leninistas no século 20, como a União Soviéti-ca depois de Vladimir Lenin e da RepúbliSoviéti-ca Popular da China sob Mao Zedong, implementaram regras introduzindo o ateísmo do Estado (ARAÚJO, 2016).
Nesse panorama, é preciso recorrer aos teóricos políticos e revolucionári-os especialmente revolucionári-os de matrizes marxistas que tratam sobre religião. Karl Marx, por exemplo, via o sofrimento religioso e dizia que é, ao mesmo tempo, a expressão do sofrimento real e um protesto contra o sofrimento real. A reli-gião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração e a alma de condições sem alma. É o ópio do povo (RODRIGUES et. Al, 2018).
A abolição da religião como a felicidade ilusória do povo é a demanda por sua verdadeira felicidade. Chamá-los de desistir de suas ilusões sobre sua condição é pedir que abandonem uma condição que requer ilusões. A crítica da religião é, portanto, em embrião, a crítica daquele vale de lágrimas cuja
1 Mestrando do PPGECCO/UFMT, graduado em filosofia, teologia e letras.
religião é o halo (RODRIGUES et all, 2018).
A crítica arrancou as flores imaginárias na corrente não para que o ho-mem continue a carregar essa corrente sem fantasia ou consolação, mas para que ele solte a corrente e arranque a flor viva. A crítica da religião desilude o homem, para que ele pense, aja e modele sua realidade como um homem que descartou suas ilusões e recuperou seus sentidos, de modo que ele se movesse em torno de si mesmo como seu verdadeiro Sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira em torno do homem desde que ele não gire em torno de si mesmo (BATISTA, 2017).
De acordo com Howard Zinn, Marx “viu a religião, não apenas negati-vamente como ‘o ópio do povo’, mas positinegati-vamente como o ‘suspiro’ da cria-tura oprimida, o coração de um mundo sem coração, a alma de condições desalmadas. Isso nos ajuda a entender o apelo de massa dos charlatões religio-sos da tela da televisão, bem como o trabalho da Teologia da Libertação em unir a alma da religião à energia dos movimentos revolucionários em países miseravelmente pobres. Alguns estudos recentes sugerem que o “ópio do povo”
é em si mesmo uma metáfora dialética, um “protesto” e uma “expressão” do sofrimento.
Certamente, Marx não se opôs a uma vida espiritual. Em vez disso, ele achava que era necessário. Em “Salários do Trabalho” (1844), Marx escreveu:
“Para se desenvolver em maior liberdade espiritual, um povo deve quebrar sua escravidão às suas necessidades corporais - eles devem deixar de ser os escravos do corpo. Eles devem, acima de tudo, ter tempo à sua disposição para a ativi-dade criativa espiritual e o desfrute espiritual “.
Por sua vez, Vladimir Lenin foi altamente crítico da religião, dizendo em seu livro Religião: “O ateísmo é uma parte natural e inseparável do marxismo, da teoria e prática do socialismo científico” (BENJAMIN, 2015).
Em The Attitude of Workers ‘Party to Religion, ele escreveu (CHAGAS, 2017):
[...] a religião é o ópio do povo: este dito de Marx é a pedra angular de toda a ideologia do marxismo sobre religião. Todas as religiões e igrejas modernas, todo e qualquer tipo de organização religiosa são sempre con-sideradas pelo marxismo como os órgãos da reação burguesa, usados para a proteção da exploração e a estupefação da classe trabalhadora.
Contudo, embora Lênin criticasse a religião, ele também fez questão
específica de não incluí-la no Nosso Programa ou em seus objetivos ideológi-cos dizendo:
Mas sob nenhuma circunstância deve-se cair no erro de colocar a ques-tão religiosa de uma maneira abstrata e idealista, como uma quesques-tão “intelec-tual” sem conexão com a luta de classes, como não é raramente feito pelos radicais-democratas do meio da burguesia. Seria estúpido pensar que, numa sociedade baseada na interminável opressão e aglomeração das massas traba-lhadoras, os preconceitos religiosos poderiam ser dissipados por métodos pu-ramente de propaganda (MARX, 2015).
Seria uma estreiteza burguesa esquecer que o jugo da religião que pesa sobre a humanidade é apenas um produto e reflexo do jugo econômico dentro da sociedade. Nenhum número de panfletos e nenhuma quantidade de prega-ção pode iluminar o proletariado, se não for iluminado por sua própria luta contra as forças obscuras do capitalismo.
Outros pensadores, Nikolai Bukharin e Evgenii Preobrazhensky mani-festaram-se fortemente contra a religião. “O comunismo é incompatível com a fé religiosa”, escreveram eles (MARX, 2015).
No entanto, foi dada importância ao secularismo e à não-violência em relação aos religiosos: Mas a campanha contra o atraso das massas nessa ques-tão de religião deve ser conduzida com paciência e consideração, bem como com energia e perseverança. A multidão crédula é extremamente sensível a qualquer coisa que fira seus sentimentos. Investir no ateísmo sobre as massas, e em conjunto com elas interferir com as práticas religiosas e zombar dos objetos de reverência popular, não ajudaria, mas impediria a campanha contra a religião. Se a igreja fosse perseguida, ganharia simpatia entre as massas, pois a perseguição os lembraria dos dias quase esquecidos em que havia uma asso-ciação entre a religião e a defesa da liberdade nacional; fortaleceria o movi-mento antissemita.
Religião na União Soviética
A União Soviética era um estado ateu em que a religião era em grande parte desencorajada e às vezes fortemente perseguida. De acordo com várias fontes soviéticas e ocidentais, mais de um terço do povo do país ainda profes-sava crenças religiosas (o cristianismo e o islamismo eram os que mais acredi-tavam) (BATISTA, 2017).
Os cristãos pertenciam a várias igrejas: ortodoxas, que possuíam o maior número de seguidores; católico; e batista e outras denominações protestantes.
A maioria dos fiéis islâmicos foram sunita (com uma notável Shiaminoria, principalmente no Azerbaijão), enquanto o judaísmo também teve muitos seguidores. Outras religiões, que eram praticadas por um número relativa-mente pequeno de crentes, incluíam o budismo e o xamanismo.
No entanto, após 1941, na era de Stalin, a perseguição religiosa foi bas-tante reduzida. Para obter apoio das massas durante a Segunda Guerra Mun-dial, o governo de Stalin reabriu milhares de templos e extinguiu a liga de ateus militantes. A propaganda ateísta retornou em menor grau durante o governo Khruschev e continuou de maneira menos rigorosa durante os anos de Breszhnev (BATISTA, 2017).
O papel da religião na vida cotidiana dos cidadãos soviéticos variava muito, mas dois terços da população soviética eram irreligiosos. Cerca de metade das pessoas, incluindo membros do Partido Comunista e altos funcionários do governo, professavam o ateísmo. Para a maioria dos cidadãos soviéticos, a re-ligião parecia irrelevante. Antes de seu colapso no final de 1991, os dados oficiais sobre religião na União Soviética não estavam disponíveis. O ateísmo estatal na União Soviética era conhecido como gosateizm.
Por sua vez, na Albânia foi declarada estado ateu por Enver Hoxha. A religião na Albânia foi subordinada ao interesse do nacionalismo durante pe-ríodos de renascimento nacional, quando foi identificada como predação es-trangeira à cultura albanesa. Durante o final do século XIX e também quando a Albânia se tornou um estado, as religiões foram suprimidas para unificar melhor os albaneses (CHAGAS, 2017).
Esse nacionalismo também foi usado para justificar a posição comunista do ateísmo do Estado entre 1967 e 1991. Essa política foi aplicada principal-mente e se sentiu dentro das fronteiras do atual estado albanês, produzindo assim uma maioria não - religiosa na população.
É importante incluir no rol de informações a República Popular da Chi-na, fundada em 1949 e, durante grande parte de sua história inicial, manteve uma atitude hostil em relação à religião, que era vista como emblemática do feudalismo e do colonialismo estrangeiro. Casas de culto, incluindo templos, mesquitas e igrejas, foram convertidas em edifícios não religiosos para uso secular. No entanto, essa atitude relaxou consideravelmente no final dos anos 1970, com o fim da Revolução Cultural (CHAGAS, 2017).