No cerne de construção de quaisquer sociedades, a diversidade de situações e fenômenos ocorridos e registrados, ao longo desse processo, eclode o surgimento de um interacionismo simbólico que representa toda uma estrutura de significados atribuída a certas ações que levam ao entendimento de uma determinada cultura. Sua amplitude de implicações reveste-se de uma especificidade que agrega elementos cunhados à existência real de cada civilização. Os estudos acerca desse substrato tão subjetivo e específico se modelam juntamente com a elaboração de conteúdos que chegam a se caracterizar como uma espécie de bricolagem, isto por envolver elementos teóricos e empíricos que ajudam no desvendar de qualquer cultura.
O parâmetro que nos norteia, como pano de fundo para o desvendar da palavra cultura, segue por caminhos diversificados que procuram explicar o surgimento de um substrato que tem toda uma relação com o estudo do homem e com a informação, em conjunto com o ambiente e com as particularidades de uma comunidade social/organizacional.
Segundo Morgan (2007), a palavra cultura derivou-se metaforicamente da ideia de cultivo, sendo este o processo de preparar e desenvolver a terra. Normalmente, utiliza-se ela quando se refere ao padrão de desenvolvimento que se reflete nos sistemas sociais de atitudes, modos de agir, valores e costumes de um povo. Estudos realizados no final do século XIX e no início do século XX revelaram o quanto esse substrato tinha sentido amplo e holístico sobre as sociedades primitivas, transmitindo de uma geração para a seguinte seus padrões de comportamentos, artes, crenças e valores característicos de uma comunidade ou população.
Laraia (2009) expõe o conceito de cultura utilizado atualmente, definindo como um todo complexo, com conhecimentos, crenças, moral, arte, costume, leis ou quaisquer outros hábitos adquiridos pelas pessoas. Este foi apresentado pela primeira vez por Edward Tylor, em (1832-1917). Nota-se que a autora frisa questões de ordem
subjetiva que transcorrem no corpo social pertencente a cada indivíduo enquanto um corpo de conhecimento.
Para Fleury (1996), a cultura deve ser estudada com o auxílio de vários ramos do conhecimento, implicando, a priori, a investigação a partir de uma postura antropológica, sociológica e clínica ou terapeuta (psicológica). Estas posturas são motivadas a discernir sobre o estudo da cultura, a partir de aspectos relacionados ao comportamento humano, assim como a formação de algumas características da cultura, tais como crenças, valores, costumes e redes de comunicação.
No labor científico da antropologia, o estudo da cultura parte do próprio objetivo desta ciência, conforme expressão dada por Marconi e Presotto (1989, p. 21) nos seguintes termos: “como ciência da humanidade, ela se preocupa em conhecer cientificamente o ser humano na sua totalidade”.
O fato do construir, do desvendar, do considerar, do relacionar é certamente um rótulo de algum modo pretensioso e instigante ao estudo do homem no decorrer da história da humanidade. As investigações acerca da natureza humana, do determinismo, das relações, do trabalho manual são pontos mais ou menos legendários em disciplinas como: a história, a filosofia, a teologia e a própria antropologia.
A partir desse ensaio, Malinowski (1970) entende que o “Estudo do homem” está, na realidade, relacionado com a formação da cultura; isto pelo fato de a natureza humana impor determinações sobre todas as formas de comportamento, organização e estrutura. A forma determinística, imposta pelo homem, consiste numa série de sequências vitais que são indispensáveis ao funcionamento sadio do organismo e da comunidade como um todo.
Ao se discorrer sobre o estudo científico desse constructo, o tocante está na forma mais primitiva de sobrevivência do homem, quando se começou a arte de criar, de construir e desenvolver os mecanismos elementares como o fogo, os utensílios de madeira ou pedra, de erguer abrigos rudimentares ou de usar cavernas para sobreviver. O fato de se buscar ou de articular os meios de necessidade e sobrevivência, nessas condições de origem, codifica a arte de desenvolver, construir e criar uma cultura atrelada ao comportamento racional do homem.
Posto isto, Malinowski (1970) assinala que a cultura é o mais amplo contexto de comportamento humano. Ou seja, a incessante utilização de meios necessários para sua própria sobrevivência, estando atrelados às precisões técnicas e fidedignas de teorias e métodos que foram desenvolvidos pelo objetivo desejado de atender às suas atividades primárias.
As condições elementares que devem ser atendidas são mantidas em funcionamento num sistema que obriga a formação de um novo ambiente, seja ele secundário ou artificial, repleto de uma bagagem de artefatos que não é mais ou menos do que a cultura propriamente dita. Certos inventos, novos padrões de vida cultural, novas formas de organização, costumes ou ideias abarcam o horizonte das potencialidades humanas; o que significa dizer que novas necessidades se impõem e novos imperativos são arrematados ao comportamento humano.
No decorrer do processo evolutivo, novas necessidades culturais são surgidas, construídas a partir de outro sistema de realidades advindas de um processo de organização entre imperativos instrumentais, emergentes de todo tipo de atividades, tais como: político, econômico, educacional, normativo. São estas necessidades secundárias que determinam a geração de leis gerais sobre uma série de organismos vivos que se situam em relação definida uns com os outros em ambientes naturais e artificiais, imprimindo uma marca de cultura a todo grupo organizado.
A cultura é um substrato que permeia e determina o modo de construção de qualquer civilização. Toda sociedade se forma a partir de um processo conjuntural que envolve valores, crenças, artefatos e ritos, dentro de uma dinâmica social que exige organização e poder como meio de dominação do indivíduo em sociedade. Costumes, ideologias, normas, entre outros são elementos que compõem a identidade verdadeira daquilo que se fundou e se massificou por períodos seculares da história da humanidade. Toda cultura se forma em virtude de parâmetros relacionados às condições de sobrevivência, às exigências do ambiente, às necessidades primárias e secundárias que são determinantes imperativos ao comportamento humano.
determina que esta é representada pelo conjunto de símbolos que são partilhados pelos indivíduos de uma sociedade. Tais símbolos determinam o comportamento individual e do grupo, e assumem características únicas para uma sociedade, não importando o nível de abstração que esta consegue fazer da realidade. Neste sentido, variando com a capacidade de abstração, cada sociedade irá determinar seus símbolos de forma mais objetiva (ferramentas, utensílios, decorações, etc) ou mais subjetiva (palavras, ritos, cerimônias, etc). A partilha sistematizada e estruturada dos símbolos comuns é que aglutina a sociedade em torno de seus valores, crenças e princípios.
Já Carvalho e Ronchi (2005) acreditam que a Antropologia a interpreta como uma composição de pressupostos e artefatos formadores de um conjunto de simbologias que devem ser partilhadas pelos seus membros.
Especialmente sobre essas visões, e a título de observação, a cultura informacional na CI parece seguir semelhante uso no que os autores estão se posicionando no processo de entendimento desse constructo; isso porque o mosaico conceitual formado se relaciona, também, na formação de padrões e pressupostos relativos ao uso da informação em um espaço organizacional (DAVENPORT; PRUSAK, 1998). Fato este que se começa a perpetuar uma visão parcial e embrionária sobre o tema, como já observado.
Partindo para linha da Sociologia, o seu objeto de estudo está voltado para as relações sociais entre os indivíduos de um mesmo grupo ou de grupos diferentes. Segundo Lakatos (1997), a Sociologia está fundamentada no estudo sistemático dessas relações sociais, sendo evidenciados os caracteres gerais comuns às classes sociais existentes, ao seu ambiente, às inter-relações entre os indivíduos. São, portanto, os estudos relacionados às estruturas sociais.
No tocante à cultura, essa ciência estuda os relacionamentos sociais para entender a formação da identidade do indivíduo e da coletividade.
Habermas (1983) caracteriza um modelo cultural na visão sociológica comparando a humanidade com um indivíduo, composto por três fases:
a) Conhecimento: percepção da realidade, do mundo que o cerca; b) Linguagem: busca a comunicação com a realidade;
Todas essas fases se desenvolvem no ambiente social, cujo componente dinâmico é o relacionamento entre as pessoas e os grupos. Os modos de agir, a forma de pensar e produzir dos indivíduos constitui recursos principais que refletem diretamente na formação cultural. Toda sociedade, sujeita à transformação, acarreta mudanças de relação social entre grupos de indivíduos, gerando novas maneiras de pensar e novas atitudes como formadoras de bases culturais inovadoras. Nesse sentido, o homem passa a ser o principal agente responsável pelas alterações sociais no decorrer da história das sociedades.
Para Pires e Macedo (2006, p. 84), “a cultura pode ser concebida na complexidade e multidimensionalidade do conjunto o qual constitui a vida em comum dos grupos sociais, ou seja, os fatores relacionados ao modo de pensar, agir e sentir compartilhado por um grupo de pessoas em sua coletividade”.
Assim, nesses termos, a cultura da informação também pode ser caracterizada por um conjunto de significados construídos a partir de práticas orientadas em relação à informação por integrantes de uma organização.
À luz da Psicoantropologia, a psicologia contribui para o entendimento da cultura quando se relaciona ao comportamento humano. Tal afirmação é constatada, segundo Vigotski (2003, p. 39), ao discernir que
[...] o comportamento do ser humano se desenvolve no complexo contexto do ambiente social. O ser humano só entra em contato com a natureza através desse ambiente e, por isso, esse meio é o fator mais importante que determina e organiza o comportamento humano. A psicologia estuda o comportamento do homem social e as leis conforme as quais esse comportamento se modifica.
Tal afirmação permite compreender a legitimação consistente do comportamento humano em relação à cultura por causa do modo de transformação do homem em relação à sociedade e ao comportamento humano perante cada cultura específica, incorporado no seu modo de vida. Aqui, identifica-se a cultura a partir da visualização do indivíduo e de sua história de vida no relacionamento com outros indivíduos.
Crozatti (1998b) revela que esta ciência parte do “eu” e olha em direção ao “nós”. Ou seja, os dados, as lembranças registradas na memória de cada pessoa são a base sustentável para a formação da cultura. A história das relações, o entrelaçamento de sentimentos e os seus registros na mente de forma permanente estabelecem conceitos
apurados que estruturam a visão da cultura de cada indivíduo. O conhecimento ensinado, as tradições passadas por pessoas que representam autoridade, como pais, avós, tios, chefes e outros superiores são, a priori, absorvidos e internalizados como regras inquestionáveis, em virtude de expressarem condições de sobrevivência no grupo. Dessa forma, estes comportamentos são condicionantes do comportamento. Há um poder de influência grande que move toda uma gama de sentimentos que refletem no modo comportamental do ser humano, no sentido determinante de buscar adaptação e padrões de aceitação no grupo.
Nessa visão, percebe-se que a cultura pode ser expressa por um conjunto de dados, lembranças resultantes da vivência interativa durante a história de vida de uma pessoa que estão guardadas no “eu” individual, por meio de registro de memória, determinando seu comportamento. Esses dados podem ser mudados de acordo com as realidades vividas ou a partir de novas interações que venham implicar em novos registros e, consequentemente, em nova cultura internalizada.
Ao discutir as propostas brevemente acima, os fenômenos aqui, pré-arranjados, fazem correspondência, também, à vida dinâmica das organizações por legitimarem um processo de ordem institucional que tem, portanto, elementos cognitivos e normativos que dão origem ao seu universo simbólico e de significados. Para compreender o conceito de cultura no âmbito das organizações, Barbosa (1999) discute-o a partir de regras de interpretações da realidade, de sistemas de classificação que permeiam os grupos sociais e instauram normatizações das quais são absorvidas por estes, ganhando significados específicos.
Se a ideia de cultura organizacional nasce também a partir de conotações específicas advindas do quadro antropológico, sociológico e psicológico, então sua emergência reveste-se de uma gama de especificidades que agrega diversos elementos dos contextos sociais, políticos, psicológicos e tecnológicos que configuram o perfil cultural de cada organização.