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Culturas Pecuniárias e as Classes Dominantes

A deflexão, a deformação, e a perversão dos fins ostensivos das coisas e da plenitude da vida, que configuram as culturas pecuniárias ou competitivas, são estimuladas, disseminadas e mantidas por uma classe ociosa dominante (aquisitiva e mercantil), que, por basear-se na instituição da propriedade privada, no auto interesse, na competição invejosa e hostil, e na acumulação e exposição conspícua de riquezas, impõe seus hábitos, seus valores e seus comportamentos para todas as demais classes sociais da comunidade.

A base sobre a qual a boa reputação em qualquer comunidade industrial altamente organizada repousa, em última instância, é a força pecuniária; e os meios de demonstrar força pecuniária, e mercê disso, obter ou conservar o bom nome, são o ócio conspícuo e um consumo conspícuo de bens.

Nas modernas comunidades civilizadas, as linhas de demarcação entre as classes sociais se tornaram vagas e transitórias, e, onde quer que isso ocorra, a norma da boa reputação imposta pela classe superior estende a sua influência coercitiva, com ligeiros entraves, por toda a estrutura social, até atingir as camadas mais baixas. O resultado é os membros de cada camada aceitarem como ideal de decência o esquema de vida em voga na camada mais alta logo acima dela, ou dirigirem as suas energias a fim de viverem segundo aquele ideal. ...

Nenhuma classe social, nem mesmo a mais abjetamente pobre, abre mão da totalidade do consumo conspícuo costumeiro. (Veblen 1899a, 41-42)

―Os ricos são diferentes de nós”. (F.Fitzgerald Scott); ... ―É verdade, ... eles têm mais dinheiro”. (Ernst Hemingway). (Diggins 1978, vii)

Assim, a classe ociosa dominante impõe, no plano visível do consumo de bens, produtos, serviços e ideias, um padrão pecuniário de reputação e decência, i.e., um padrão calcado no que Veblen designou por norma do desperdício conspícuo.

Para o homem ocioso, o consumo conspícuo de bens valiosos é um instrumento de respeitabilidade. ...

Por ser o consumo dos bens de maior excelência prova da riqueza (ou da eficiência na obtenção de riqueza - mc), ele se torna honorífico; e reciprocamente, a incapacidade de consumir na devida quantidade e qualidade se torna uma marca de inferioridade e de demérito (e de ineficiência). Do anterior exame acerca do crescimento do ócio e do consumo conspícuos, parece que a utilidade de ambos, para fins de boa reputação, repousa no elemento de desperdício, a ambos comum. Num caso, o desperdício é de tempo e esforço; no outro, de bens. Ambos são métodos de demonstrar a posse da riqueza (ou seja, demonstrar a eficiência e o sucesso nestas culturas predatórias ou competitivas - mc). (Veblen 1899a, 38-37-42)

... Para ser reputável é necessário ser desperdiçador (perdulário). Nenhum mérito se lhe acrescentaria mediante o consumo das simples coisas necessárias à vida, ... (Veblen, 1899a [1957], 77)

Logo, se designarmos cap^ por valor comercial, o

cap^ de um indivíduo = função da (quantidade de bens valiosos que porta, carrega, comanda ou possui; e não a quantidade ou a qualidade dos serviços prestados pelos mesmos itens que porta,

carrega ou possui)

E é interessante observar que esta norma pecuniária de reputação e decência [Para ser reputável é necessário ser desperdiçador ou perdulário], por ser um hábito de pensamento generalizado, i.e., uma instituição, infecciona e contamina todas as demais opiniões, pontos de vista e instituições da comunidade; inclusive as concepções do gosto, do feio e do belo, do simpático e do antipático, do certo e do errado.

Esta norma de reputação e decência pecuniária modifica o próprio julgamento moral da maioria dos indivíduos destas sociedades; por exemplo, um grande crime de roubo ou de corrupção tende a ser bem mais tolerado, (e em muitos casos até mesmo invejado), do que um pequeno crime de roubo de poucas moedas ou bens. Este último comportamento (um pequeno delito de roubo) tende a ser até mesmo bem criticado e penalizado pelas sociedades pecuniárias e competitivas, ao passo que o primeiro (um grande açambarcamento ilegal de moedas ou bens dos outros), como dito, acaba, em grande parte dos casos, como mero detalhe de aquisições monetárias especiais, ou, em alguns outros casos, são explicados e justificados como mera ―perseguição política‖ de adversários invejosos; e os grandes criminosos, se estiverem também pecuniariamente bem trajados e bem relacionados (o que é prática corrente), tendem até mesmo conseguir grande respeito e estima social ao término do desacerto ou do ―mal entendido‖.

No caso da contaminação pecuniária do senso de beleza somática, parece, igualmente, que indivíduos pecuniariamente dotados, portanto, reputados, tendem a ser considerados mais simpáticos e até mesmo, em muitos casos, mais ―belos‖, na exata proporção de suas riquezas conspicuamente expostas, mesmo sendo possuidores de deformações somáticas e/ou psíquicas irrefutáveis ou insofismáveis. O inverso também é bastante comum. Em geral, um trabalhador braçal pecuniariamente indecente, mas belo somaticamente, acaba sendo considerado ―não tão belo assim como parece‖. Do ponto de vista evolucionário ou sociobiológico, esta vantagem competitiva de possuidores de beleza pecuniária, mesmo ao preço de uma deformação irrefutável, desde que esta deformação seja inconscientemente percebida como inócua para a reprodução, encontra bastante respaldo científico. Nos casos dos grandes crimes de roubos e corrupções, como visto acima, também conseguimos claramente encontrar uma explicação científica evolucionária, pois a capacidade reprodutiva e de manutenção de uma prole decente aos padrões institucionais vigentes fornecem vantagens pessoais aos grandes corruptos ou ladrões. O inverso não joga papel positivo (evolucionariamente), pois poucas moedas não são suficientes para uma prole pecuniariamente decente em sociedades competitivas e predatórias modernas.

Veblen demonstrou em sua obra, exaustivamente, a contaminação e os efeitos da decência pecuniária sobre as demais instituições e configurações materiais; em especial, dedicou atenção à influência e à contaminação desta norma do desperdício conspícuo sobre o gosto e a beleza, deixando-nos, neste aspecto, como legado, uma teoria estética das mais criativas e inconfundíveis. Pois, como vimos rapidamente acima, nas sociedades predatórias ou pecuniárias, como as nossas:

... Achamos belas as coisas, assim como úteis, proporcionalmente a seu preço caro ... (Veblen 1899a, 78)

Conforme apontado anteriormente, o capítulo seis (Pecuniary Canons of Taste) de The Theory of the Leisure Class (1899), de Veblen, contém uma das passagens mais paradigmáticas acerca da maestria com que Veblen explicava fenômenos sociais, econômicos e estéticos de grande complexidade, através de objetos relativamente simples e desprovidos de energia explicativa.

… As exigências da decência pecuniária [e reputação] influenciaram ... o sentido [popular] da beleza e da utilidade dos artigos de uso ou de beleza. [Os bens] ... são vistos como prestativos ou de serventia quase na mesma proporção em que contenham grandes quantidades de desperdício e sejam mal adaptados a seus usos ostensivos ...

A utilidade dos artigos valorizados pela sua beleza depende estreitamente da sua dispendiosidade. Uma ilustração comum bastará para mostrar essa dependência. Uma colher de prata cinzelada a mão, de valor comercial de uns dez ou vinte dólares, não é ordinariamente mais útil – no primeiro sentido da palavra (...) do que uma colher de um material mais básico (ou vil), como o alumínio, feita a máquina, cujo valor não passa de dez ou doze centavos. O primeiro dos dois utensílios é com efeito um objeto comumente menos efetivo do que o último para o seu fim ostensivo. ... vendo a matéria por esse prisma, ... um dos usos principais, senão o principal, da colher mais cara não é levado em consideração; a colher cinzelada a mão lisonjeia-nos o gosto e o sentido da beleza, ao passo que aquela feita a máquina e em vil metal, não tem outro ofício além de uma bruta eficiência ...

Figura 3.5

O Modelo da Colher de Prata Cinzelada a Mão

T.Veblen (Pecuniary Canons of Taste, Cap.VI - The Theory of the Leisure Class)

... A satisfação superior que deriva do uso e da contemplação de produtos caros e considerados belos é, comumente ... uma satisfação do nosso sentido do seu preço elevado que se mascara sob o nome de ―beleza‖. ... O requisito do desperdício conspícuo não está em geral presente, conscientemente, em nossas regras de gosto, mas encontra-se ... presente como uma norma a constranger seletivamente ... o nosso senso do que deve ser legitimamente aprovado como belo e o que não deve. ...

É neste ponto, onde o belo e o honorífico se mesclam e se confundem, que a discriminação entre o que seja de serventia e o que seja perdulário é mais difícil em qualquer caso concreto. (Veblen, 1899a, 60-61) (ver Figura 3.5)

Portanto, e conforme veremos com mais detalhes adiante, todos os produtos e objetos nas culturas pecuniárias ou predatórias B# possuem uma configuração simbólica semelhante à exposta na Figura 3.6: o conjunto de elementos de serventia e funcionalidade (A  a) encontra-se encoberto, subordinado ou sequestrado pelo conjunto significativo - dominante e expansivo por força da competição - de elementos de desperdício conspícuo (Bp  b); e quanto mais itens preciosos no objeto, maior reputação, maior valor comercial e maior beleza institucional. (ver capítulo 5)

A “Contenção Consciente da Eficiência” da Economia por Parte dos Homens

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