2 BREVE HISTÓRICO DA PROTEÇÃO E DOS DIREITOS DAS CRIANÇAS E
4.3 O CUMPRIMENTO DAS NORMAS DOS ARTS 123 E 124 DO ECA NAS
CONSELHO NACIONAL DO MINISTÉRIO PÚBLICO
Atualmente funcionam no Brasil 321 Instituições Educacionais de Internação, divididas nas cinco regiões do país. Desse total, 287 foram Inspecionadas pelo Ministério Público entre março de 2012 e março de 2013, com o objetivo de elaborar um estudo detalhado intitulado “Um olhar mais atento às Unidades de Semiliberdade e Internação para Adolescente”.
O relatório elaborado pelo Ministério Público avaliou o cumprimento da norma estatutária e das diretrizes do SINASE no âmbito das Unidades Educacionais instaladas em todo o Brasil, trazendo informações estatísticas sobre classificação, instalações físicas, atividades pedagógicas e profissionalizantes, ou seja, buscou-se averiguar se há, nesses estabelecimentos, a necessária observância aos diretos fundamentais dos internos.
Com base nos dados fornecidos pelo supracitado relatório, serão apresentadas a seguir aspectos pertinentes da pesquisa quanto à aplicação dos arts. 123 e 124 nas instituições avaliadas, com vistas a elucidar o contraste entre o modelo definido pela legislação e a realidade das Unidades Educacionais de Internação, para tanto utilizar-se-á elementos gráficos elaborados a partir da releitura crítica das informações fornecidas pelo Conselho Nacional do Ministério Público.
O não atendimento à regra do art.123 do ECA que determina cuidadosos critérios de separação dos internos, por idade, compleição física e infração cometida, foi constatado em todo país. O que compromete a prevenção de atos de violência entre os adolescentes. Duas décadas após o advento do Estatuto, ainda é possível verificar que não se atingiram o padrões satisfatórios de triagem.
Fonte: Dados extraídos do CNMP, 2013.
Percebe-se que há violação do quesito idade em mais de 80% das instituições do Sul e Sudeste e Centro-Oeste do país, ou seja, 4 em cada 5 instituições dessas regiões não separam seus internos por idade. As regiões Norte e Nordeste apesar de apresentarem melhores percentuais, 67% e 66% respectivamente, ainda estão bem distantes de níveis considerados aceitáveis pelo SINASE, já que nem metade das unidades obedecem ao critério de separação por idade.
Nota-se uma tímida melhora quando o critério separação é por compleição física, há uma diminuição de cerca de 10% em relação ao critério idade nas regiões Sul (68,9%) e Sudeste (69,8%,). No Centro-Oeste, 80% das unidades de internação visitadas não mantém os socioeducandos separados segundo o seu porte físico. Os melhores índices são, novamente, das regiões Norte, com 47,5%, e Nordeste, com 52 % de não cumprimento a regra.
A grande preocupação está na separação por infração, que pode gerar uma enorme dificuldade na tentativa de recuperação do interno, já que proporciona a interação entre adolescentes que cometeram infrações de maior gravidade com aqueles que estão internos em virtude da reincidência em ato infracional de menor potencial ofensivo, o que abre margem para um possível compartilhamento de conhecimento criminoso entre os internos.
A separação por tipo de infração somente foi constatada em apenas 14% das unidades de internação visitadas na região Sudeste; em 13,3% nos estados da
região Sul e somente em 8% das unidades do Centro-Oeste. No Norte e Nordeste, os percentuais foram de 32,5% e 30%.
O Ministério Público questionou se os internos das Unidades fiscalizadas pelo CNMP estavam na entidade mais próxima de suas residências habituais, atendendo a regra do art. 124, inciso VI, que dispõe sobre esta necessidade de proximidade da internação com a residência do menor, o qual esta a cumprir a medida socioeducativa.
Contudo, a investigação não mensura o grau de distância entre a instituição de cumprimento da medida de meio fechado e outras que necessitam de Entidades de Atendimento; e o local em que habitam os pais ou representantes legais do socioeducando, avaliando tão somente a efetividade da regionalização do programa socioeducativo.
Gráfico 4: A Unidade é a mais Próxima dos Pais/Responsáveis
Fonte: Dados extraídos do CNMP, 2013.
Em pelo menos 20% das Unidades Educacionais avaliadas há internos que não estão na entidade mais próxima de sua residência habitual, o maior percentual é da região Norte, onde 40% das instituições possuem socioeducandos que poderiam estar locados em outra entidade mais próxima de seus familiares.
Em se tratando de medida socioeducativa restritiva de liberdade, a interação entre o adolescente e seus entes fraternos se faz essencial para que este não seja acometido pela solidão e sentimento de abandono inerentes a vivência em meio
estranho ao habitual, nessa vereda, a longiquindade representa empecilho ao recebimento de suporte familiar, tão necessário à reabilitação do interno.
O Estatuto determina que as Unidades Educacionais ofereçam infraestrutura com condições dignas de higiene e salubridade. Dentre as instituições fiscalizadas pelo Ministério Público nos estados das regiões Centro-Oeste, Nordeste e Norte, mais da metade delas apresentaram instalações inadequadas nos quesitos higiene, conservação, iluminação e ventilação, conforme se verifica com os dados do quadro abaixo exposto.
Gráfico 5: Salubridade nas Unidades de Internação
Fonte: Dados extraídos do CNMP, 2013.
No Sul do país 40% das Unidades foram consideradas insalubres, melhor quadro só foi encontrado no Sudeste, onde quase 80% das entidades visitadas foram consideradas apropriadas. No entanto, o cenário geral é bastante desanimador, já que ambientação digna é o mínimo que deve ser oferecido ao adolescente incorporado à um projeto pedagógico de reinserção social, uma vez que a falência estrutural atrapalha toda a execução do programa socioeducacional.
Em todas as regiões foram encontradas salas de aulas consideradas como incompatíveis com o caráter pedagógico da medida de internação, na avaliação, verificou-se se os recintos onde se desenvolvem as atividades escolares ofereciam suporte técnico e material aos alunos. Observe-se, ainda, que a quesitação não abordou a capacidade das salas de aulas para atender a todos os internos, ainda
assim os números apontam para um déficit na capacidade desses centros em atender a função educacional.
Gráfico 6: Unidades Inadequadas para Prática de Atividades
Fonte: Dados extraídos do CNMP, 2013
Os critérios utilizados na avaliação foram: disponibilidade de equipamentos, iluminação e suporte de biblioteca. As regiões com resultados menos satisfatórios, tiveram seu percentual de instituições inadequadas para o oferecimento de atividades educacionais na faixa dos 40 % (Centro-Oeste, Nordeste e Sul). Mais animadora é a situação do Norte e Sudeste, onde foram encontradas ambientações adequadas em 78% e 76% das entidades visitadas pelo MP, respectivamente.
Quando o assunto é profissionalização, a situação é ainda mais preocupante, das instituições avaliadas, apenas 40% no Centro-Oeste; 30% no Nordeste, 37,5% no Norte e 35,6% no Sul, foram consideradas aptas a promover a profissionalização do interno, apenas no Sudeste o percentual, de 77,5%, pôde ser considerado aceitável.
Novamente a região Sudeste é a única que constitui exceção a negligência no cumprimento das normas dos incisos XI e XII do art. 124 do ECA, já que apenas 12% das Unidades Educacionais não disponibilizam espaços necessários para a prática de esporte, cultura e lazer. Em contrapartida, seguindo a tendência encontradas nas demais avaliações, o Centro-Oeste teve o pior índice, com mais da metade das instituições sendo consideradas inaptas para a prática de tais atividades.
O panorama traçado pela pesquisa confirma as premissas sob as quais se funda este trabalho, evidenciando a grande distância a ser percorrida para que as unidades de internação correspondam à sua finalidade precípua, qual seja a ressocialização através do método pedagógico, considerando às muitas irregularidades encontradas pelo CNMP em todo o país.
4.4 BREVE ANÁLISE SOBRE O NÃO CUMPRIMENTO DA NORMA ESTATUTÁRIA