4. OS REQUISITOS E PODERES PROCESSUAIS DO AMICUS CURIAE
4.4 AMICI CURIAE – PLURALIDADE DE MEMORIAIS
É plenamente admissível que uma mesma demanda poderá contar com a intervenção de mais de um amicus. Um como assistente de uma parte e outro em favor da parte contrária.
Porém, a lei nada diz a respeito da possibilidade de serem admitidos mais de um
amicus para cada parte. Deduz-se daí que, não havendo proibição, a presença é permitida.
Ademais, além de não existir proibição, deve ser lembrado que a participação desse terceiro qualificado tem por objetivo ampliar o debate do tema constitucional, democratizando-o. Assim, apenas pessoas representativas são habilitadas para participar do processo de controle concentrado de constitucionalidade, o que contribui para fortificar a corrente que entende admissível a presença de vários amici curiae. Aliás, nos ensinamentos de Bueno (2006, p. 219), essa corrente encontra espeque, uma vez que:
Nos Estados Unidos, provável fonte de inspiração, a novidade da presença dos amici é bem-vinda. É o que se observou na disputa judicial em que se transformou a última eleição presidencial nos Estados Unidos. No processo denominado Florida Election Case n. 00.949, memoriais de nove amici foram oferecidos. Dentre os assistentes estavam o Estado do Albama, um Centro de Estudos da New York University, a Assembléia Legislativa da Flórida, a American Bar Association e diversas pessoas físicas. Assim, se diante de um debate sobre a inconstitucionalidade ou constitucionalidade de lei ou ato normativo federal ou estadual em face da Constituição Federal, a decisão que vier a ser proferida for de relevante interesse para mais de uma entidade ou órgão [...].
Nesse contexto, possível concluir que as diferentes entidades ou órgãos poderão trazer à colação aos autos suas manifestações de forma a pluralizar o debate constitucional,
disponibilizando o máximo de elementos informativos possíveis e necessários à formação da decisão final.
Ainda assim, é necessário enfatizar que a Lei 9.868/99 não prevê expressamente a figura do amici curiae, porém, se o objetivo é ampliar a discussão, torna-se viável a admissão desse importante instrumento de aperfeiçoamento do processo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa realizada demonstra que o instituto do amicus curiae surge no direito brasileiro, especificamente no sistema de controle concentrado de constitucionalidade, por meio da Lei 9.868/99, artigo 7º, §2º, e funciona como um instrumento de abertura democrática para o debate constitucional e, dessa forma, possibilita que as decisões da jurisdição constitucional resultem mais legítimas e alinhadas aos interesses da sociedade, a qual é a real destinatária da Constituição.
É possível dizer que o fruto da jurisdição constitucional, com a participação do
amicus curiae, atinge com maior precisão os interesses sociais, pois amplia o leque dos
intérpretes constitucionais, que são parcelas importantes do corpo social. Isso porque, conforme a teoria sociológica e o sistema aberto da hermenêutica constitucional, o texto da Constituição não deve ser compreendido com fim em si mesmo, pois não existe norma jurídica que não necessite de interpretação e a melhor interpretação se faz com a participação de intérpretes, dotados de princípios e valores e não dissociados da realidade do povo em que a norma constitucional se aplica.
Respeitados os requisitos de admissibilidade, ou seja, a representatividade do postulante e a relevância da matéria, o amicus curiae participará nos processos de controle de constitucionalidade como intérprete auxiliar do Supremo Tribunal Federal, com a capacidade de esclarecer ao juízo determinada matéria, bem como indicar os possíveis efeitos da decisão na sociedade, sendo que sua admissão deve ocorrer na ação direta de inconstitucionalidade, na ação declaratória de constitucionalidade e na arguição de descumprimento de preceito fundamental, tendo em vista os efeitos das decisões destes processos no controle concentrado de constitucionalidade e aplicação analógica da previsão da Lei 9.868/99, artigo 7º, §2º.
Assim, a abertura da interpretação constitucional oportunizada pela intervenção do
amicus curiae nos processos do controle concentrado de constitucionalidade deve ser
ser produzida pela interpretação da norma em discussão. Por essa razão, este instituto processual tem o condão de agregar mais qualidade e legitimidade aos julgados proferidos num ambiente classicamente fechado aos membros do Poder Judiciário. Portanto, um maior conhecimento acerca das funções da figura jurídica estudada neste trabalho, com a ampliação de sua aplicação no sistema de controle de constitucionalidade brasileiro, permite, com a sua gradativa atuação, a realização de um Direito mais próximo e correspondente à sociedade para a qual foi criado e para a qual deve ser interpretado.
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