3 O CURRÍCULO
3.1 Currículo: um conceito historicamente construído
O conceito de currículo foi construído influenciado por várias concepções e significados no decorrer da história da educação. Etimologicamente, a palavra currículo deriva do termo latino "curreres", que significa trajetória, percurso, carreira. Metaforicamente, em educação, seria a busca de um caminho, uma direção, que orientaria o percurso para atingir certas finalidades. O conceito pode referir-se também à ordem como sequência, como também à ordem como estrutura, apontando a gama de práticas educacionais expandidas no século XVI, nas escolas e universidades, baseadas no contexto da reforma protestante do calvinismo.
O termo currículo merece destaque primordial, emergindo como conceito em termos de escolarização. Na época em que a escolarização passava por transformações, voltada à atividade das massas, evidenciou-se mais profundamente os termos currículo/classe (GOODSON, 1995, p. 31).
O Oxford English Dictionary, segundo Goodson, situa que, em 1633, na Universidade
da Escócia Glasgow, encontra-se a fonte de currículo mais antiga. Entretanto, a origem encontra-se numa época anterior, em níveis educacionais mais elevados. Em 1509, na França, no College of Montaign, encontra-se a divisão clara e precisa dos grupos de alunos (aprendizes) em diferentes ambientes, denominadas classes. Na concepção de Mir:
É nos programas de 1509 de Montaign que se encontra pela primeira vez em Paris uma divisão clara e precisa de alunos em classes... Isto é, divisões graduadas por estágios ou níveis de complexidade crescente, de acordo com a idade e o conhecimento exigido dos alunos (GOODSON, 1995, p. 31).
Segundo o autor, o College of Montaign foi o precursor do sistema de classes da época; entretanto, a ligação principal está na maneira como essa organização de classes foi integrada “ao currículo prescrito e sequenciado em estágios e níveis” (GOODSON, 1995, p. 32).
O currículo apresenta além das classes, segundo Hamilton, o senso de ordem estrutural ou de disciplina, enraizados pelas ideias de John Calvin, afirmando que:
À medida que, no final do século XVI na Suíça, Escócia e Holanda os discípulos de Calvino conquistavam uma ascendência política a também teológica. A ideia de disciplina – “essência mesma do Calvinismo” – começava a detonar os princípios internos e o aparato externo do governo civil e da conduta pessoal. Dentro desta perspectiva percebe-se uma relação homóloga entre currículo e disciplina: o currículo era para a prática educacional calvinista o que era a disciplina para a prática social calvinista (apud GOODSON, 1995, p. 32).
Desse modo, evidencia-se que o currículo, desde seu surgimento no contexto educacional, sustenta a estreita relação com os padrões de controle social e organização. Pode-se constatar tal afirmação nas ideias de Hamilton (apud GOODSON, 1995, p. 33):
O conceito de classes ganhou proeminência com o surgimento de programas sequenciais de estudo que, por seu turno, refletiam diversos sentimentos de mobilidade ascendente da Renascença e da Reforma. Nos países calvinistas (como a Escócia), essas ideias encontraram sua expressão, teoricamente, na doutrina da predestinação (crença de que apenas uma minoria predestinada podia obter a salvação) e, educacionalmente, no emergir dos sistemas de educação- nacionais, sim; mas bipartidos – onde os “eleitos” (isto é predominantemente os que podiam pagar) eram agraciados com a perspectiva de escolarização avançada, ao passo que os demais (predominantemente os pobres da área rural) eram enquadrados num currículo mais conservador (com apreço pelo conhecimento religioso e pelas virtudes seculares).
Nesse contexto, percebe-se claramente a afirmação do poder atribuído ao currículo para definir o que devia ser ensinado na sala de aula, bem como para diferenciar a forma de escolarização para classes diferentes.
No decorrer da história, em meio ao século XV e XVIII, houve a mudança do regime feudal para uma sociedade de regime capitalista, época nomeada de mercantilista, em que houve grandes transformações em todas as esferas sociais, políticas, ideológicas, econômicas. Essas traçaram as primeiras condições para o aparecimento do sistema capitalista com uma nova reestruturação dos sistemas de educação para o homem do qual a nova sociedade necessitava.
É nesse panorama que ocorre a passagem de uma educação, na qual havia vínculo direto entre o aluno e o preceptor, ou seja, um ensino mais individualizado, para a organização das escolas por classes ou “sala de aula onde grupos maiores de crianças e adolescentes podiam adequadamente ser supervisionadas e controladas” (GOODSON, 1995, p. 34). As diversas classes de cada escola necessitariam passar pelo mesmo percurso, com todas as suas provas e os seus desafios, como uma rede atlética. Desse modo, configurou-se a passagem da designação do termo curriculum do universo dos exercícios físicos para o pedagógico.
Assim como o atleta recebia prêmios pela sua boa atuação, por ter conseguido passar por todos os caminhos, os colegiais que conseguissem cumprir o trajeto de todo curriculum ganhariam o diploma. A escola seria responsável por esse atestado de formação de homens imperativos, atendendo às exigências sociais da época.
Na passagem do século XVIII para o XIX, período da revolução industrial, acontece a mudança do sistema de classes, que passa a ser o de aula, na qual ocorre a vitória máxima da já mencionada mudança de ensino-aprendizagem individualizado para as pedagogias baseadas em grupo. Nessa época, o currículo era visto como o principal mecanismo e identificador das diferenças sociais. Desse modo, o poder de aplicar e definir a diferenciação cedeu ao currículo uma definitiva posição na teoria do conhecimento da escolarização.
No final do século XIX, esse tipo de escolarização foi definido, propagando-se, com êxito, ao longo do século XX e tornando-se um status normativo, em que foram criados padrões, por meio dos quais as inovações passaram a ser avaliadas. Houve a introdução de uma série de aulas compartimentalizadas por horários definidos, dando origem à matéria escolar, que passa a ser parte integrante da organização curricular. “Na era moderna já tratamos o currículo essencialmente como matéria escolar” (GOODSON, 1995, p. 35).
O papel das universidades, a partir da metade do século XX, torna-se cada vez mais importante, originando uma disputa entre grupos docentes para que sua “matéria” fosse avaliada como uma disciplina acadêmica, merecedora de status, recursos financeiros, bem como oportunidade de carreira. Nessa época, a disciplina acadêmica estava no cume do currículo. Desse modo, o conceito do termo currículo ficou atrelado ao novo conceito de disciplina, perpetuando-se dessa maneira até hoje.