CULTURA ORGANIZACIONAL Sistemas de representações comuns
2) o processo de enriquecimento, diversificação e complexificação da tecnicidade e cientificidade, que se consubstancia na dominância do modelo biomédico;
3.3. CURSO DE COMPLEMENTO DE FORMAÇÃO EM ENFERMAGEM
O Curso de Complemento de Formação em Enfermagem (CCFE), que decorre da alteração da Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro) pela publicação da Lei nº 115/97 de 19 de Setembro, foi criado pelo Decreto-Lei n.º 353/99, de 3 de Setembro e regulamentado pela Portaria nº 799-E/99, de 18 de Setembro.
O CCFE visa a atribuição do grau de licenciado em Enfermagem aos enfermeiros titulares do grau de bacharel ou de equivalente legal. Em 1999, foi aprovado um plano integrado de medidas estruturantes para o desenvolvimento dos recursos humanos no domínio da saúde, que abrange objectivos referentes à reorganização do modelo de formação de enfermeiros no sentido de:
- realizar a formação geral através de cursos de licenciatura;
- realizar a formação especializada através de cursos de especialização de pós- -licenciatura não conferentes de grau.
O referido diploma veio aprovar as regras gerais a que ficou subordinado o ensino da Enfermagem no âmbito do ensino superior politécnico. Além disso, foram aprovadas as seguintes medidas de transição:
- a possibilidade dos estudantes que se encontrassem a frequentar o curso de bacharelato e o terminassem nos anos lectivos 1998/1999, 1999/2000 e 2000/2001, caso o pretendessem, alcançar de imediato o grau de licenciado, a que teriam acesso, sem limitações quantitativas, no ano lectivo imediatamente
171 subsequente ao da conclusão do bacharelato, através da frequência do ano complementar de formação;
- a criação de cursos de complemento de formação destinados a facultar aos bacharéis em Enfermagem o acesso ao grau de licenciado.
A partir do ano lectivo de 1999/2000 não foi permitida a admissão de novos alunos à inscrição no curso de bacharelato em Enfermagem, o qual cessou progressivamente dando lugar ao Curso de Licenciatura. A carta de curso de bacharelato em Enfermagem só pôde ser atribuída até ao ano lectivo de 2001/2002.
O objectivo do CCFE é assegurar o reforço, a extensão ou o aprofundamento da formação em Enfermagem, de forma a garantir a formação científica, técnica, humana e cultural para a prestação e gestão de cuidados de enfermagem gerais à pessoa ao longo do ciclo vital, à família, grupos e comunidade, nos diferentes níveis de prevenção. O curso visa ainda assegurar a formação necessária:
• à participação na gestão dos serviços, unidades ou estabelecimentos de saúde; • à participação na formação de enfermeiros e de outros profissionais de saúde; • ao desenvolvimento da prática da investigação no seu âmbito (Decreto-Lei n.º
353/99, de 3 de Setembro).
Podem candidatar-se à matrícula e inscrição no CCFE os que detenham o título de enfermeiro e que sejam titulares do grau de bacharel em Enfermagem ou equivalente legal.
A Portaria nº 799-E/99, de 18 de Setembro, veio aprovar o Regulamento Geral do Curso de Complemento de Formação em Enfermagem, estabelecendo que a carga horária total do CCFE não pode ser inferior a oitocentas e cinquenta horas, nem superior a mil horas.
A estrutura curricular do curso deve ser organizada de forma a assegurar o reforço, a extensão ou o aprofundamento da formação em enfermagem tendo em vista, na sua conjugação com a formação obtida ao nível do bacharelato, alcançar plenamente os objectivos já mencionados.
O plano de estudos inclui, de forma adequadamente articulada, uma componente de ensino teórico e uma componente de ensino clínico. A duração do ensino teórico deve ser de, pelo menos, um terço da carga horária total do curso (de 283 a 333
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horas). A duração do ensino clínico deve ser de, pelo menos, metade da carga horária total do curso (de 425 a 500 horas).
A componente de ensino teórico tem como objectivo a aquisição dos conhecimentos de índole científica, deontológica e profissional que fundamentam o exercício profissional da enfermagem.
A componente de ensino teórico inclui obrigatoriamente as seguintes matérias: a) Cuidados de Enfermagem:
- Orientação e ética da profissão;
- Princípios gerais de saúde e de cuidados de enfermagem;
- Princípios de cuidados de enfermagem em matéria de: medicina geral e especialidades médicas, cirurgia geral e especialidades cirúrgicas, puericultura e pediatria, higiene e cuidados a prestar à mãe e ao recém- -nascido, saúde mental e psiquiatria, cuidados a prestar às pessoas idosas e geriatria.
b) Ciências fundamentais: - Anatomia e fisiologia; - Patologia;
- Bacteriologia, virologia e parasitologia; - Biofísica, bioquímica e radiologia; - Dietética
- Higiene: profilaxia, educação sanitária, farmacologia. c) Ciências Sociais:
- Sociologia; - Psicologia;
- Princípios de administração; - Princípios de ensino;
- Legislação social e sanitária; - Aspectos jurídicos da profissão.
Esta componente inclui, para além do ensino teórico propriamente dito, o teórico- -prático, o prático e os seminários.
A componente de ensino clínico tem como objectivo assegurar a aquisição de conhecimentos, aptidões e atitudes necessárias às intervenções autónomas e interdependentes do exercício profissional de enfermagem.
173 A componente de ensino clínico inclui obrigatoriamente cuidados de enfermagem em matéria de: medicina geral e especialidades médicas, cirurgia geral e especialidades cirúrgicas, cuidados a prestar às crianças e pediatria, higiene e cuidados a prestar à mãe e ao recém-nascido, saúde mental e psiquiatria, cuidados a prestar às pessoas idosas e geriatria, cuidados a prestar no domicílio.
O ensino clínico é assegurado através de estágios a realizar em unidades de saúde e na comunidade, sob orientação dos docentes da escola superior, com a colaboração de pessoal de saúde qualificado.
A componente de formação científica, técnica, humana e cultural não pode ter um peso inferior a 65% (de 553 a 650 horas).
As componentes que visam alcançar os objectivos quanto à participação na gestão de serviços, unidades ou estabelecimentos de saúde e na formação de enfermeiros e de outros profissionais de saúde não podem ter, cada uma, um peso inferior a 10% (de 85 a 100 horas).
O plano de estudos do CCFE a ministrar em cada estabelecimento de ensino é aprovado por portaria do Ministro da Educação, sob proposta do respectivo órgão legal e estatutariamente competente. Este plano é integrado por um conjunto de unidades curriculares. Para cada unidade curricular é identificada a respectiva carga horária semanal distribuída segundo o tipo de metodologia de ensino adoptada: teórico, teórico-prático, prático, seminário ou estágio. A carga horária pode ser indicada sob a forma de total por ano ou semestre lectivo, consoante a duração da unidade curricular.
Cada estabelecimento de ensino pode, dentro das suas disponibilidades, proporcionar unidades curriculares de opção. A carga horária atribuída a unidades curriculares de opção não pode exceder 10% (inferior a 85 a 100 horas) da carga horária total do plano de estudos. Prevendo o plano de estudos unidades curriculares de opção, o seu elenco é fixado pelo órgão legal e estatutariamente competente; o número mínimo de alunos necessário ao funcionamento de cada uma é de 15, sem prejuízo de ser ministrada pelo menos uma. Exceptuam-se do número fixado anteriormente os casos em que o docente assegure a docência da unidade curricular para além do número máximo de horas de serviço de aulas a que é obrigado por lei, sem encargos adicionais para a instituição.
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Os regimes de frequência, avaliação, precedência e prescrição do direito à inscrição são fixados pelo órgão legal e estatutariamente competente do estabelecimento de ensino.
O curso deve funcionar preferencialmente em horário pós-laboral.
A classificação final do grau de Licenciado em Enfermagem é a resultante do cálculo dos valores de uma expressão prevista na lei.
O CCFE era dirigido a um potencial de cerca de 23000 enfermeiros, cuja vivência profissional foi permitindo o desenvolvimento de competências e saberes que a prática dos cuidados e a formação foram cimentando.
É com este enquadramento que o CCFE deve ser entendido como uma questão estratégica para o desenvolvimento de uma política de saúde virada para a qualidade dos cuidados aos cidadãos onde os cuidados de enfermagem são uma das parcelas mais determinantes.
Assumindo o CCFE como questão estratégica, a Ordem dos Enfermeiros considera que a sua concretização num espaço de tempo razoável e programado, e reconhecendo os saberes adquiridos pelos enfermeiros, é indispensável para consolidar o modelo de formação hoje consagrado em lei, nomeadamente a formação inicial ser de nível de licenciatura num único ciclo de quatro anos, e por outro lado, prevenir factores de desagregação no seio dos enfermeiros cujas repercussões se farão sentir nos espaços onde os cuidados se prestam.
Assim, a Assembleia Geral reunida em Sessão Ordinária no dia 18 de Março de 2000 decidiu aprovar as seguintes recomendações:
1. Tendo por base a fundamentação anteriormente desenvolvida e considerando que o CCFE é uma situação de excepção no actual modelo de formação em enfermagem a Assembleia Geral da Ordem dos Enfermeiros considera ser urgente:
1.1. que o Governo através do Ministro da Educação tome uma iniciativa legislativa através da qual seja criado um grupo de trabalho que tenha como finalidade operacionalizar critérios para regulamentar o processo de creditação da formação e experiência profissional adquirida, viabilizador da eliminação dos limites percentuais definidos. Tal medida deverá também
175 explicitar o período de seis anos como tempo máximo para a conclusão do processo (...).
2. Tendo por base que o processo ora encetado, envolve as Escolas Superiores de Enfermagem, os serviços prestadores de cuidados e os enfermeiros, o Conselho Directivo deverá desenvolver todos os esforços para a criação de uma comissão de acompanhamento deste processo, que tenha nas suas competências, proceder a uma avaliação sistemática do mesmo e desenvolver as intervenções necessárias à conciliação entre as necessidades dos serviços na continuação da prestação de cuidados de enfermagem, as ofertas formativas das Escolas Superiores de Enfermagem e a resposta progressiva às expectativas dos enfermeiros.
3. Propor, em termos a definir, que aos enfermeiros com o grau de bacharel e habilitados com o curso de especialização seja dada equivalência ao grau de licenciado.
Equivalências e Curso de Complemento de Formação em Enfermagem
Nos pontos 1.1. e 3.1., onde abordámos a evolução do desenvolvimento profissional e formativo, demos conta da ocorrência de alguma mudança qualitativa. No entanto, tais processos evolutivos têm, por vezes, consequências inesperadas e injustas para algumas pessoas.
Com a publicação do Decreto – Lei n.º 480/88, de 23 de Dezembro, o ensino de enfermagem foi integrado no ensino superior politécnico. A formação básica dos enfermeiros passou a conferir o grau académico de bacharel e a formação especializada passou a conferir um diploma de estudos superiores especializados, equivalente ao grau de licenciado.
Este foi o edificar de um processo que, tal como é mencionado no prefácio do referido dispositivo legal, visava garantir o reconhecimento académico dos vários níveis de formação dos enfermeiros, dado que até essa altura o ensino de enfermagem se encontrava à margem do sistema educativo nacional. Ou seja, procurou-se enquadrar quem já era enfermeiro nesta nova realidade, através de um processo de equivalências. Tal como é mencionado pela Ordem dos Enfermeiros (2001: 12), três questões fundamentais presidiram ao desenvolvimento deste processo:
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- “a equiparação do curso de enfermagem geral a um curso de bacharelato;
- a equiparação dos cursos de especialização em enfermagem a cursos de estudos superiores especializados;
- a titularidade de uma habilitação suficiente para o acesso ao ensino superior”.
A terceira questão foi a que originou fortes controvérsias. O primeiro ponto do décimo artigo do Decreto-Lei n.º 480/88, de 23 de Dezembro, alterado pelo Decreto- -Lei n.º 100/90, de 20 de Março, determinava que todos os enfermeiros que fossem titulares de uma habilitação considerada suficiente para o acesso ao ensino superior, na época em que tivesse sido obtida, teriam equivalência ao bacharelato em enfermagem, desde que também tivessem obtido aprovação num curso de enfermagem geral ou equivalente legal; caso tivessem tido aprovação num dos cursos de especialização em enfermagem (de saúde materna e obstétrica, em enfermagem de reabilitação, em enfermagem de saúde pública, em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica, em enfermagem de saúde infantil e pediátrica, em enfermagem médico- -cirúrgica, curso de pedagogia aplicada à enfermagem e curso de administração de serviços de enfermagem), ser-lhes-ia concedida equivalência ao diploma de estudos superiores especializados. Tal facto veio confirmar-se com os enfermeiros que possuíam o 12º ano de escolaridade, o ano propedêutico ou o segundo ano do curso complementar dos liceus concluído antes de 1977.
No entanto, nem todos os enfermeiros possuíam uma habilitação considerada suficiente para o acesso ao ensino superior, o que já estava previsto na publicação no ponto 2 do Art.º 10º do Decreto – Lei n.º 480/88, de 23 de Dezembro. Nestas situações seria designado um Júri, por despacho conjunto dos Ministros da Educação e da Saúde, que faria uma apreciação curricular que permitisse conceder a estes enfermeiros a equivalência ao bacharelato e ao diploma de estudos superiores especializados.
Com a publicação do Decreto – Lei n.º 353/99, de 3 de Setembro, que concedeu à formação básica dos enfermeiros o grau de licenciatura, foi dada, a todos os enfermeiros, a possibilidade de obter este grau académico através da aprovação no CCFE. Deste modo, os enfermeiros que devem frequentar o CCFE são os que estão habilitados com o curso de enfermagem geral ou com o curso superior de enfermagem, bem como os enfermeiros habilitados com o curso de enfermagem geral, com o curso de especialização em enfermagem, mas que apenas têm 9 a 11 anos de escolaridade completos depois de 1977 (todos detentores do grau académico de bacharel).
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