2.1 RATIO STUDIORUM E PLANOS DE
2.1.1 CURSO DE LETRAS
O Curso de Letras era o mais elementar de todos, e estava dividido em três partes, que correspondiam às designações de
213 TOLEDO, Cézar de Alencar Arnaut de. Razão de Estudos e Razão Política: um estudo
sobre a Ratio Studiorum. In: Acta Scientiarum. Maringá, vol. 22, n.º 1, 2000, p. 182.
214 PAIVA, José Maria de. O Método Pedagógico Jesuítico: uma análise do Ratio
Studiorum.Viçosa: Oficinas Gráficas da Imprensa Universitária da Universidade Federal de
Viçosa, 1981, p. 17.
Gramática, Humanidades216 e Retórica. A finalidade pretendida era a aquisição de uma expressão oral e escrita corretas, mas na língua latina. Na sua origem, o nome de Humanidades foi dado pelos Jesuítas aos estudos intermediários entre os de Gramática e os de Retórica. A organização escolar que se fixou no século XVI foi a mesma para colégios seculares ou jesuíticos, e mais tarde de outras congregações, definindo cinco cursos de Humanidades: três de Gramática, um de Humanidades e um de Retórica.
Na história da educação no Ocidente, pode destrinçar-se duas tradições opostas: na primeira, a criança aprendia de cor os poemas homéricos e preparava-se para o estudo da Retórica, para a eloquência e para falar na tribuna; na segunda tradição, dedicava-se aos poetas da cidade, denunciando os artifícios da sofística, que ensinava a provar algo e a provar o seu contrário217. Colocava-se aqui em primeiro plano o
216 O conceito de Humanidades tem uma história complexa, já que por etimologia do termo
combina variações ou contaminações lexicológicas. A primeira remete-nos ao neologismo
humanitas, pelo qual Varrão e Cícero traduzem o grego paideia. A segunda vem da tradição
cristã, que distingue as litterae humaniores das litterae divinae ou sacrae, do mesmo modo como literatura profana se distingue de Escritura. A tradição cristã evidencia o carácter eminentemente laico das humanidades. O terceiro componente semântico do termo diz respeito aos humanistas. Nascido no berço da Renascença, os humanistas são os sábios e os escritores da Antiguidade grega e romana. O termo conserva a marca indelével da sua origem. Entre os ciclos medievais, seja da gramática seja da filosofia, a Renascença humanista abre um curso específico, embora já viesse da Idade Média a tradição de leitura e de apropriação desses textos. Cf. CHERVEL, André; COMPÈRE, Marie-Madeleine. As Humanidades no Ensino.
Educação e Pesquisa. São Paulo: Universidade de São Paulo, vol. 25, n.º 2, p. 149-150, 1999.
Os humanistas, por definição, acreditavam no valor das “letras humanas” (litterae humaniores) dos clássicos gregos e latinos. Estes estudavam e imitavam o estilo dos autores clássicos, cujo conhecimento profundo defendiam, como forma de aplicação aos textos pagãos antigos, para reabilitar as ciências e as artes europeias há muito neglicenciadas. Este conhecimento, quando aplicado à Bíblia e aos antigos autores da Igreja, seria uma forma de ajudar a cristandade a atingir uma compreensão mais pura e autêntica da verdade cristã. Ao valorizarem mais a gramática, a filologia e a retórica do que os estudos filosóficos técnicos que tinham ocupado os estudiosos durante a Idade Média, os humanistas afastam o latim como língua franca das universidades medievais. Cf. KENNY, Anthony. Ascensão da Filosofia Moderna. Nova História da Filosofia Ocidental. Trad. Célia Teixeira. Lisboa: Gradiva, vol. III, 2011, p. 13-14.
217 O contributo dos Sofistas mostrou-se decisivo. Na defesa pela filosofia, Platão rejeitara o
ideal de uma “educação geral” (enkyklios paideia), aquele que daria origem à educação baseada nas artes liberais. Combatia Homero e pretendia colocar de lado os poetas da República, mas o seu contemporâneo Isócrates moderou essa posição, procurando concilar a poesia com a filosofia. O saber enciclopédico passou a ser, progressivamente, valorizado. Este novo modelo de ensino deveria acompanhar a criança até à idade adulta, uma educação completa, que permitia aos jovens ocupar os lugares de relevo na sociedade. Aos saberes tradicionais, acrescentavam-se a dialética e a eloquência, a crítica literária, a gramática, a prosa artística e a matemática, constituindo-se o plano de estudos que esteve na base do triuium e do
ensino e a prática da Filosofia. Este debate, presente na Grécia antiga, conheceu diversas discussões ao longo da história. Não foi apenas a noção de filosofia que se ampliou para novas concepções do mundo (ligadas ao cristianismo, como a Escolástica, ou relacionadas a características do mundo moderno, como o pensamento científico), mas também o patrimônio literário que se enriqueceu.
Em épocas diferentes e até numa mesma época, dois tipos de instrução foram oferecidos às classes dirigentes ou mais abastadas: uma fundada na natureza, na observação às coisas e ao universo, permitindo ao homem situar-se no mundo, multiplicar as suas marcas, inscrever a sua ação. A outra vertente estava apoiada em textos ou sobre a língua necessária à comunicação, à persuasão, suporte necessário e indispensável do pensamento. O homem que a tradição humanista formava era aquele que tinha contato com autores, com a prática dos textos, pelo exercício da tradução, da imitação e da composição, adquirindo o gosto, a capacidade crítica, a capacidade de julgamento pessoal, e a arte de se exprimir oralmento e por escrito, segundo as normas recebidas. Este ideal que se pretendeu atingir, no horizonte das Humanidades, certamente conheceu, alternadamente, um sujeito católico, do colégio jesuíta, o cidadão das Luzes, o republicano dos liceus modernos. A educação das Humanidades preconizou uma educação global, em sua parte estética, retórica, mas também moral e cívica, produzindo o modelo de homem ideal da sua época218.
A educação exprimiu ou refletiu as atividades e as instituições, lentamente organizadas no tempo, solidárias com todas as outras instituições sociais, que, por consequência, podiam apenas mudar com a estrutura mesma da sociedade. Cada sociedade considerada em momento determinado de seu desenvolvimento, possui um sistema de educação que se impõe aos indivíduos de modo geralmente irresistível. É uma ilusão acreditar que se educa como se pretende. A educação visou sempre a transmissão de costumes que, se desrespeitados, formariam adultos que não estariam em estado de viver no meio de seus contemporâneos, entre os quais não encontrariam harmonia. Há, pois, a
quadriuium, formando as artes liberais no seu conjunto: a gramática, a retórica e a dialética; a
aritmética, a geometria, a astronomia e a música. Estas seriam as bases do ensino escolar ocidental, conjugando um ensino simultaneamente científico e literário. MIRANDA, Margarida. Op. Cit., 2009, p. 18.
cada momento, um tipo regulador de educação do qual não nos podemos separar sem vivas resistências, e que restringem as falhas dos dissidentes219. Conforme referiu Durkheim:
Em Atenas, procurava-se formar espíritos delicados, prudentes, sutis, embebidos da graça e harmonia, capazes de gozar o belo e os prazeres da pura especulação; em Roma, desejava-se especialmente que as crianças se tornassem homens de ação, apaixonados pela glória militar, indiferentes no que tocasse às letras e às artes. Na Idade Média, a educação era cristã, antes de tudo; na Renascença toma caráter mais leigo, mais literário; nos dias de hoje a ciência tende a ocupar o lugar que a arte outrora preenchia.220
A unidade do ensino era reforçada pelo fato de cada classe ser anual, ter o seu próprio professor, livros escolares comuns, métodos de ensino comuns, como a comunicação oral professor-aluno, bem como os apontamentos na aula serem escritos em latim. A questão pedagógica fundamental era tornar o aluno capaz de se expressar, oralmente e por escrito, na língua latina. Se quiséssemos percorrer a história do ensino das Humanidades, estas remontam ao ensino das artes liberais. O modelo proposto remonta ao século IV a.C. e foi fixado por Isócrates, em Atenas, herdado dos romanos. Os textos latinos, os autores romanos e os exercícios de composição em latim constituem o seu eixo. A partir do latim se aprendia a língua mãe e também o grego. O grego, que conheceu uma extensão variável segundo as épocas, foi considerado um ensino de luxo, mas os textos gregos, quando explicados, são também centrais neste ensino221.
Os estudos de Gramática estavam ordenados segundo três graus sucessivos, de dificuldade crescente, constituindo três classes denominadas Inferior (Infima classis grammaticae), Média (Media
classis grammaticae) e Superior (Suprema classis grammaticae). Cada
classe, que era anual, tinha seu professor próprio, com aulas diárias, de
219 DURKHEIM, Émile. Educação e Sociologia. Trad. Lourenço Filho. 4.ª ed. São Paulo:
Edições Melhoramentos, 1955, p. 28.
220 Ibidem, p. 27.
tarde, que inicialmente eram de três horas e depois passaram a duas horas e meia. Na classe Inferior estudavam-se as declinações e os gêneros; na Média, as conjugações; na Superior, a sintaxe. O autor cuja construção latina se considerava normativa era Cícero. Em cada um dos graus sucessivos do estudo da Gramática se ia aprendendo o Grego: na classe Inferior, os princípios da língua; na Média, composições acessíveis de Ovídio e de algum autor fácil; e na Superior, textos de São João Crisóstomo e de Esopo222. Os dois autores da pedagogia humanista, Erasmo e Vives, propuseram cada um deles uma lista de autores canônicos. No domínio do latim, Erasmo recomendava aos iniciantes as comédias de Terência e de Plauto, as cartas familiares de Cícero; ainda, segundo esta ordem, Virgílio, Horácio, Cícero, César e Salústio. As escolhas de Vives eram semelhantes, recomendando ainda Apúlio e Sidónio Apolinário223. Um estudante normal levaria, em média, cinco a seis anos a percorrer o plano de estudos humanísticos, mas como a Ratio permitia alguma flexibilidade nas promoções, alguns alunos poderiam completar os estudos de Humanidades em menos de 5 anos e outros poderiam precisar de mais alguns meses, ou de mais um ano. Aos estudantes jesuítas, salvo raras excepções, a Ratio exigia que completassem rigorosamente um biênio de Retórica, antes de avançarem para a Filosofia; e aos externos, o reitor tinha o dever de motivar também para aquele estudo, durante, pelo menos, um ano. A classe de Retórica estava, aliás, no topo do ensino das Humanidades. Toda a estrutura curricular das Humanidades convergia para esta classe, dedicada ao ensino da palavra e da eloquência. Os estudantes ocupavam-se da arte oratória, teórica e prática. A classe de Humanidades preparava ainda o aluno para a eloquência, de modo a que ele desenvolvesse uma certa erudição e uma breve informação sobre os preceitos da Retórica224.
Quando os colégios foram fundados, no século XVI, não existia, no Ocidente moderno, um corpus de textos que se equiparasse aos da Antiguidade. A aprendizagem apareceu, por isso, associada ao estudo das línguas antigas. Os textos da Antiguidade clássica eram considerados como formadores, transmissores de lições morais ou
222 CARVALHO, Rómulo de. Op. Cit., 1986, p. 334-335.
223
COMPÈRE, Marie-Madeleine. Du Collège au Lycée (1500-1850). Paris: éditions Gallimard/Julliard, 1976, p. 75.
cívicas, destacando comportamentos dignos de serem imitados225. A gramática adotada nas escolas da Companhia de Jesus era a De
Institutione Grammatica Libri Tres, do jesuíta Manuel Álvares,
impressa em Portugal pela primeira vez em 1572. Manuel Álvares, mestre de línguas latina, grega e hebraica, primeiro professor de Gramática no Colégio de Santo Antão de Lisboa, foi uma figura cimeira da pedagogia jesuítica226. Ao Curso de Letras seguia-se o Curso de Filosofia, ou Artes. O primeiro constituía preparação indispensável para o segundo, e era comprovado por um exame de Latinidade. Aqui eram estudadas as matérias de Dialética, a Lógica, a Física e a Metafísica. Na área da Filosofia, a universalidade dos Jesuítas alcançou um sucesso ímpar, constituindo as suas obras modelos orientadores das doutrinas filosóficas que defendiam. Rómulo de Carvalho observa que as obras produzidas pelos jesuítas portugueses eram utilizadas em muitas universidades europeias durante os séculos XVI, XVII e XVIII227.