• Nenhum resultado encontrado

1. OS CURSOS DE LETRAS NO BRASIL

1.1 Os Cursos de Letras hoje

Gimenez e Cristóvão (2004) destacam dois documentos importantes na atualidade quando se trata da formação inicial de professores de línguas (profissionais formados em Letras) para a educação básica: as Diretrizes Curriculares Nacionais de Letras (2001) e as Diretrizes Curriculares para os Cursos de Licenciatura (2002). A eles, somam-se, certamente, as orientações da Lei de Diretrizes e Bases (LDB – nº 9.394/1996 e 2016)13. Para este trabalho, as Diretrizes Curriculares Nacionais de Letras (DCN - Letras) trazem alguns aspectos importantes. Inicialmente, observa-se a preocupação do documento em postular que a universidade deve se adequar às necessidades sociais:

Concebe-se a Universidade não apenas como produtora e detentora do conhecimento e do saber, mas, também, como instância voltada para atender às necessidades educativas e tecnológicas da sociedade. (CES 492/2001, p.

29).

Dessa adequação, decorre uma maior flexibilização dos cursos, não só em termos de estrutura, mas também de opções de conhecimento e atuação profissional, de desenvolvimento de habilidades e, sobretudo, de [...] autonomia universitária, ficando a cargo da Instituição de Ensino Superior definições como perfil profissional, carga horária, atividades curriculares básicas, complementares e de estágio (CES 492/2001, p. 29). Para isso, segundo o documento, a noção de currículo deve ser ampliada, passando a ser definida como:

[...] todo e qualquer conjunto de atividades acadêmicas que integralizam um curso. Essa definição introduz o conceito de atividade acadêmica curricular – aquela considerada relevante para que o estudante adquira competências e habilidades necessárias a sua formação e que possa ser avaliada interna e externamente como processo contínuo e transformador, conceito que não exclui as disciplinas convencionais (CES 492/2001, p. 29, grifos da autora).

Em relação ao perfil dos formandos, ressalta-se que eles devem ter domínio sobre as línguas as quais estudam, além de saberem refletir teoricamente sobre a linguagem, usar as novas tecnologias e entender que a sua formação profissional é um processo

13 Conforme Machado, Campos e Saunders (2007), a primeira versão da LDB foi seguida de uma versão em 1971 e, depois, de uma em 1996. A mais nova versão da Lei foi promulgada em 2016.

35

“contínuo, autônomo e permanente”. Ademais, a pesquisa, o ensino e a extensão devem estar articulados nesse processo, juntamente com a capacidade de reflexão crítica sobre questões linguísticas e literárias. Nas palavras do documento (BRASIL/MEC/CNE/CES, 2001, p.30):

Independentemente da modalidade escolhida, o profissional em Letras deve ter domínio do uso da língua ou das línguas que sejam objeto de seus estudos, em termos de sua estrutura, funcionamento e manifestações culturais, além de ter consciência das variedades lingüísticas e culturais. Deve ser capaz de refletir teoricamente sobre a linguagem, de fazer uso de novas tecnologias e de compreender sua formação profissional como processo contínuo, autônomo e permanente. A pesquisa e a extensão, além do ensino, devem articular-se neste processo. O profissional deve, ainda, ter capacidade de reflexão crítica sobre temas e questões relativas aos conhecimentos lingüísticos e literários (grifos da autora).

Silva (2013), em seu artigo, tece considerações sobre os DCN – Letras e algumas delas dizem respeito ao excerto anterior. Primeiramente, ele aponta que a expressão

“domínio do uso da língua” fomentaria intensas discussões sobre o que viria a ser esse

“domínio”. Além do mais, menciona outros aspectos significativos referenciados no excerto, como o predomínio dos estudos linguísticos sobre os literários, a alusão às Novas Tecnologias da Informação e Comunicação (NTIC) e a total inexistência de palavras que se referem ao exercício do magistério. O pesquisador defende que:

A maioria dos cursos geralmente se organiza com uma carga horária nos estudos literários inferior aos de estudos linguísticos, a não ser nos casos em que a habilitação é específica para a área. O trabalho com as NTIC, salvo melhor juízo, ainda está aquém de sua potencialidade, tanto para bacharéis quanto para licenciados, sendo estes ainda com o agravante de a maior rede de educação formal (as escolas públicas) estarem inserindo vagarosamente uma estrutura tecnológica compatível com a comunidade escolar. E o ápice do perfil do egresso é a desconsideração da docência que, ouso afirmar, é onde se concentra a maior parte dos estudantes de Letras (SILVA, 2013, p. 25).

Em consonância com Silva (2013), acredita-se que a desconsideração da docência é um aspecto bastante negativo desse documento e altamente desfavorável quando se trata da formação do profissional de Letras, já que, como o próprio autor indica, o ensino é onde a maioria dos egressos irão atuar. Logo, além dos outros aspectos apontados, seria imprescindível uma maior preocupação com essa área.

36

Segundo Souza (2016), no período em que são lançadas as Diretrizes Curriculares para o Curso de Letras, há uma grande atualização em termos de carga horária, a qual aumentou em 25% para as licenciaturas, passando de um mínimo de 2.200 horas exigidas por lei a um mínimo de 2.800 horas. Esse aumento fez com que houvesse uma divisão de horas diferente da original, sendo 1.800 horas para conteúdos curriculares de natureza científica-cultural e 1.000 horas para os conteúdos mais práticos da profissão, a saber:

400 horas de “prática como componente curricular” (CONSELHO, 2001, p. 16 apud SOUZA, 2016), 400 de “estágio curricular supervisionado” (CONSELHO, 2001, p. 16 apud SOUZA, 2016) e 200 de “outras formas de atividades acadêmico-científicas-culturais” (CONSELHO, 2001, p. 16 apud SOUZA, 2016). A Tabela 1 ilustra essa divisão:

Tabela 1 - Divisão da Carga Horária dos Cursos de Letras 2.800 HORAS NO TOTAL

1.800 horas Conteúdos curriculares de natureza científica-cultural.

1.000 horas Conteúdos mais práticos da profissão.

400 horas Prática como componente curricular.

400 horas Estágio curricular supervisionado.

200 horas Outras formas de atividades acadêmico-científicas-culturais.

Fonte: Elaborado pela autora (2022) com base em Souza (2016).

Discordamos de Souza (2016) quando ele postula sobre o equilíbrio entre as disciplinas de conteúdo e as disciplinas práticas e que a carga horária está bastante desfavorável à primeira. A nosso ver, esse equilíbrio, certamente, está longe de ser instituído, mas as disciplinas que envolvem conteúdos mais práticos sobre a área ainda precisam ser mais valorizadas e vistas como essenciais ao fazer docente.

Ao contrário de Souza (2016), Paiva (2003), fazendo um balanço sobre os cursos de Letras e suas diretrizes (DCN – Letras), sinaliza que a divisão de horas dos conteúdos mais práticos da profissão (400 horas para estágio, 400 horas para atividades práticas e

37

200 horas para outras atividades) pode levar a uma mudança de perfil bastante oportuna, desde que alguns aspectos sejam considerados e reformulados.

Um deles é a evidente desvalorização quando se trata da grade curricular de língua estrangeira. De acordo com a autora (PAIVA, 2003), os Projetos Pedagógicos (PP) dos cursos de Letras Licenciatura dupla privilegiam a Língua Portuguesa, dando menor importância e espaço na grade curricular para as línguas estrangeiras, além de ser raro o oferecimento de atividades curriculares que encorajem reflexões sobre temas como aquisição, ensino ou aprendizagem de LE. Para ela, é imprescindível que:

“[...] seja fixado um percentual de horas mínimas a serem dedicadas ao ensino de línguas estrangeiras, que, no meu entender, não deveria ser inferior a metade da carga horária prevista para todo o curso.” (PAIVA, 2003, p. 198)

Compactuamos com a autora em relação a esse posicionamento, sobretudo porque ela sugere que parte desse conteúdo poderia ser organizado remotamente, o que já oportunizaria o uso de novas tecnologias pelo aluno de Letras, uso esse que ainda é tímido, porém essencial. Ademais, percebe-se o quanto a formação do professor de língua estrangeira fica diversa e desalinhada ao redor do país por simplesmente não dispor de uma diretriz mais direta sobre ele. Paiva (2003) salienta que, muitas vezes, “o tradicionalismo e o medo do novo embalado pelo preconceito” (p. 199) impossibilitam que alguns cursos, como o de Letras, reorganizem os seus perfis e ofereçam aos seus discentes uma formação mais adequada aos tempos e necessidades atuais.

Quanto às 400 horas de estágio supervisionado, Paiva (2003) as classifica como um ponto preocupante, uma vez que acabam incluindo somente as atividades tradicionais – que, a nosso ver, dizem respeito à observação em sala de aula -, ignorando novas possibilidades como preparação e aplicação de materiais didáticos ou engajamento em atividades extracurriculares, como oficinas de redação, clubes de leitura ou conversação em LE, auxílio na avaliação de alunos etc.

Segundo a mesma autora, as outras 400 horas de atividades práticas, que não estão restritas aos estágios, podem também em muito contribuir para a formação dos professores, contanto que sigam as premissas do artigo 12 das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena (2002):

38

Art. 12. Os cursos de formação de professores em nível superior terão a sua duração definida pelo Conselho Pleno, em parecer e resolução específica sobre sua carga horária.

§ 1º A prática, na matriz curricular, não poderá ficar reduzida a um espaço isolado, que a restrinja ao estágio, desarticulado do restante do curso.

§ 2º A prática deverá estar presente desde o início do curso e permear toda a formação do professor.

§ 3º No interior das áreas ou das disciplinas que constituírem os componentes curriculares de formação, e não apenas nas disciplinas pedagógicas, todas terão a sua dimensão prática. (grifos da autora)

Assim, é preciso que os cursos de Letras sigam essas orientações e acomodem a dimensão prática em todas as disciplinas do curso, não a reduzindo apenas ao estágio.

No que concerne às 200 horas de outras atividades acadêmico-científico-culturais, Paiva (2003) aconselha que elas sejam preenchidas com eventos diversos – como oficinas, projetos de extensão, pesquisa, monitoria, serviços à comunidade etc. -, uma vez que é notável o quanto eles contribuem para a constituição e atualização profissional dos alunos. Para a pesquisadora, ainda, eles podem acontecer tanto no formato de semanas de estudo, trocando professores entre instituições, quanto no formato de seminários virtuais ou teleconferências.

Na prática, a carga horária e o que é contemplado dentro de cada divisão influenciam bastante na qualidade de um curso, mas não é, oficialmente, o que avalia os cursos de Letras no Brasil. Atualmente, em conformidade com Pardinho e Silva (2016), os cursos de Letras no Brasil passam por uma avaliação do INEP a fim de classificá-los e organizá-los em um ranking dos cursos mais conceituados do país. Para isso, há alguns critérios utilizados, os quais são divididos em três grandes componentes: 40% de peso para o Exame Nacional dos Estudantes de Desempenho de Estudantes (ENADE), 30%

para o Índice de Diferença de Desempenho (IDD), e 30% para insumos. Sobre esses componentes, os autores pontuam:

O ENADE é o único elemento que é formado por um instrumento avaliativo, uma prova objetiva. O IDD é constituído por um formulário socioeconômico e a prova do ENADE. O primeiro é preenchido pelo aluno quando ele ingressa na graduação e, ao final do curso, a prova objetiva é realizada. A partir das duas aplicações, uma comparação entre eles é feita, dando origem ao IDD, indicando a diferença de desempenho entre o formulário preenchido pelo

39

ingressante do curso e o resultado da avaliação do egresso no ENADE. Em relação ao critério Insumo, tem-se a seguinte divisão, avaliação do corpo docente, da infraestrutura e de recursos didático-pedagógicos. Dentro dos 30%

do Insumo, tem-se a seguinte divisão de pesos: 63% para o corpo docente, 10%

para a infraestrutura e 27% para os recursos didáticos pedagógicos.

(PARDINHO E SILVA, 2016, p. 365)

No que diz respeito à divisão de pesos dos 30% de insumo apontados pelos autores no excerto anterior, 63% são destinados a levar em consideração a quantidade de professores doutores ou aqueles que cumprem regime parcial ou integral no curso. No quesito infraestrutura, consideram-se as aulas práticas e o número de equipamentos à disposição dos alunos. Sobre recursos didático-pedagógicos, pondera-se a análise de planos de ensino do curso, que incluem, por exemplo, objetivos, procedimentos de ensino e avaliação, conteúdos e bibliografia da disciplina (PARDINHO e SILVA, 2016).

Apesar dos recursos didático-pedagógicos serem demasiadamente importantes para a análise de um curso, já que são eles que irão apontar o que e como os conteúdos serão abordados, representando o cerne da questão, Pardinho e Silva (2016, p. 366) salientam que, “[...] de um total de 100% da avaliação dos cursos, somente 8% da totalidade dos valores distribuídos são atribuídos aos recursos pedagógicos.” Dessa forma, segundo os mesmos autores, as porcentagens e dados descobertos indicam que os critérios de avaliação do MEC devem ser revistos e repensados.

A verdade é que os cursos de Letras, independente da divisão de carga horária ou da nota obtida por meio da avaliação do MEC, devem oportunizar o desenvolvimento integral do profissional, de modo que ele adquira e/ou aprimore suas competências e seja capaz de desempenhar sua função adequadamente. Diante disso, é pertinente que discutamos sobre as competências do professor de línguas, dadas todas as ausências e falhas que ele enfrenta em sua formação.