A Televisão e o seu Papel Como Meio de Comunicação
2.2 TVs Públicas, Estatais, Educativas e Comerciais (Privadas)
2.2.1 Custeio e Programação das Emissoras Públicas e Educativas
As TVs comerciais dependem de anunciantes e patrocinadores para se manterem, mas as emissoras públicas precisam de alguma forma de arrecadar dinheiro para sua subsistência. Dependendo do método estabelecido para essa arrecadação, os valores podem ultrapassar as cifras milionárias obtidas com publicidades e patrocínios e garantir independência para produções diferenciadas e fora do contexto comercial.
Na década de 1970, os Estados Unidos contavam com cerca de mil estações de TV, sendo o país com maior número de emissoras. Entretanto, mesmo tendo sido pioneiro na comercialização de espaços publicitários e sendo líder em emissoras, não pertencia aos EUA a maior verba televisiva e sim à entidade controladora da TV Japonesa (NHK – Nippon Huso Kyokai). Vale destacar que em 1975/1976 seu orçamento ultrapassou 500 milhões de dólares, já que seu mecanismo de arrecadação contava com o pagamento de cerca de 2 dólares por mês de cada receptor doméstico, como taxa de manutenção da emissora estatal, e, na época, o Japão contava com 26 milhões de televisores em uso.
No Brasil não há um mecanismo estabelecido para arrecadação de verbas para as emissoras públicas, que ficam a mercê das doações do governo. Mattos (2002, p.181), explica que em fevereiro de 1967, o Decreto-Lei 236, do Governo Federal, modificou o Código Brasileiro de Telecomunicações, alterando algumas medidas e incluindo a proibição das TVs educativas fazerem quaisquer referências comerciais ou citarem
patrocínios. Além disso, o Decreto define que as emissoras educativas só poderiam transmitir aulas, conferências, palestras e debates de cunho educativo.
Em 2000, segundo Serpa (2003), as emissoras educativas e culturais reivindicaram 3% do orçamento do Governo Federal para publicidade, com base no índice médio de audiência alcançado pelas TVs educativas, (segundo dados do IBOPE). Mas, conforme aponta Serpa
“... essa reivindicação acabou não se concretizando nesses termos. O Governo incluiu a mídia das TVs educativas, através da TVE do Rio de Janeiro e da TV Cultura de São Paulo. Isso representou cerca de R$ 2 milhões para a Rede Pública de Televisão, cuja verba foi rateada para as 18 emissoras associadas da ABEPEC, com base no índice econômico e social de participação dos Estados.”
Em países europeus, onde a TV começou pública, há alguns dispositivos para arrecadação de verbas de forma a manter essas emissoras independentes e, por isso, mais imparciais e voltadas apenas para os interesses sociais. Logo, a TV pública em alguns países europeus como Inglaterra, Portugal e Espanha, acaba se destacando em virtude da qualidade de sua programação, já que, em virtude de sua saúde financeira, desfrutam de autonomia na concepção e produção de seus programas, podendo inovar, ousar e trabalhar com projetos experimentais.
Em Portugal, por exemplo, cada residência paga uma taxa ao governo que se destina à manutenção dos canais públicos, segundo relatou Jorge Gonçalves, diretor de Canais Internacionais da RTP (Rádio e Televisão de Portugal), durante o 1º. Seminário Internacional de Televisão Pública, organizado pela TV Cultura de São Paulo em parceria com a rede britânica BBC, que ocorreu durante os dias 14 e 15 de setembro de 2006 e que foi realizado no auditório da TV Cultura, em São Paulo. Para Gonçalves, o conceito de TV Pública é o de serviço público e complementou: “O Estado tem a responsabilidade de fornecer serviço público”. Deve-se destacar que os programas da emissora RTP difundem a cultura portuguesa no plano internacional.
Gonçalves (2006) explicou o modelo de financiamento da TV Pública portuguesa, esclarecendo que existem quatro formas de financiamento dessas emissoras, que são: por meio de indenizações compensatórias, provenientes do tesouro do Estado; pela Contribuição do Audiovisual, que é contribuição fixada anualmente por portaria, cerca de
1,71 euros (na época) e é paga por todos que possuem eletricidade; por meio de publicidade e também pela venda de serviços (comercialização de imagem, de vídeos de cinema, distribuição de merchandising). Ainda foi ressaltado que mesmo tendo limites para a veiculação de publicidade nas emissoras públicas, ainda são impostos limites para se utilizar essas receitas, consignando-as apenas para a amortização das dívidas das emissoras.
Quanto à programação das emissoras portuguesas, deve-se destacar que, desde 1992, Portugal conta com canais privados. A criação desses canais acabou por modificar parte da programação das TVs públicas, que visavam reter parte de suas audiências que migraram para as emissoras comerciais. Algumas emissoras públicas enveredaram por caminhos muito semelhantes aos das emissoras comerciais, não apenas visando audiência, mas visando também alguns dos anunciantes que poderiam migrar para os canais privados.
Brandão (2008) aponta que, com essas mudanças nas emissoras públicas,
“... muitas foram as contradições, focos de interesse e discussão desde as problemáticas das opções da sua programação em geral, mas também do seu financiamento, do controle político e do poder econômico.”
O autor ainda complementa questionando que outras mudanças ainda estão por vir
“... até onde deve ir o poder das imagens geradoras de sensacionalismo, dramatismo, espetacularidade e evasão da intimidade? E, se os valores de mercado versus audiências devem ser os principais critérios na seleção do seu fluxo informativo e na forma como essa informação circula no setor privado e como circula (ou deveria circular) no setor público televisivo. Neste contexto, questiona-se face aos focados setores privado e público, como deverá ser a futura relação de convivência da televisão com o mercado publicitário.”
Já na Espanha, a RTVE é uma sociedade anônima mercantil com capital social de titularidade integralmente estatal, conforme consagra a Constituição do País. O controle da emissora é parlamentário e o controle econômico é realizado pelo Tribunal de Contas espanhol. Quanto à questão do financiamento da programação da emissora, pode ser misto, envolvendo contribuição pública, publicidade e até a formalização de contratos-programas, segundo informações do professor da Universidade Européia de Madrid Juan Manuel
Herreros López, que falou da Corporação RTVE (Rádio e Televisão Espanhola) durante o Fórum Nacional de TVs Públicas realizado em Brasília, em 10 de maio de 2007.
Leal Filho (2006, p.47) aponta que, na Inglaterra, cada domicílio com TV, paga uma taxa anual para manter a BBC.
A emissora BBC de Londres é apontada como modelo de TV pública, por ter grande qualidade e imparcialidade em sua programação. Para que isso ocorra, é necessário que as emissoras públicas tenham independência financeira e política, como aponta Leal Filho (1997, p. 17): “O rádio e a televisão são veículos da produção cultural de um povo ou de uma nação e, para exercerem essa tarefa não podem ser contaminados por interferências políticas ou comerciais”.
Leal Filho (1997, p. 18) complementa que, a BBC, na Inglaterra, é considerada como uma tia querida e conhecida pelos britânicos como “a principal joia da nossa coroa cultural e uma imensa força de prestígio” (p.11), já na Itália, a RAI é chamada de mamma (18). No Brasil, alguns movimentos já foram realizados no sentido de “salvar” emissoras públicas, como a TV Cultura, entretanto, nunca foi demonstrado nas manifestações públicas nenhum interesse em pagar uma taxa periódica para a manutenção da emissora e, consequentemente, da produção de programas com melhor qualidade editorial.
Em texto publicado no Observatório da Imprensa, em 14/05/2003, intitulado A eterna confusão entre o “público” e o “estatal”, Alberto Dines defende a adesão da população ao custeio de parte dos recursos da TV Cultura e complementa, explicando como ocorre em outras emissoras públicas.
“As soluções adotadas na Inglaterra e nos EUA não podem ser ignoradas, são referências obrigatórias. A BBC, um dos maiores e mais qualificados conglomerados de mídia do mundo, é público, nada tem de estatal. Seus recursos são oriundos de uma taxa compulsória cobrada de todos os cidadãos britânicos que dispõem de aparelhos de rádio e de TV. Quem administra a BBC são seus funcionários, tidos como os melhores do Reino Unido. Não há interferências: o público paga e ao público é oferecida em contrapartida: uma programação de altíssimo nível, livre de qualquer interferência política, econômica, social ou filosófica. Ao Estado inglês cabe a tarefa de recolher a taxa e encaminhá-la à British Broadcasting Corporation.
Nos EUA, funciona a Public Broadcasting Sistem (PBS) parte do complexo de entidades supervisionado pelo Estado americano (National Endowment for the Arts) – que dá um dólar dos seus cofres para cada dólar oferecido por empresas ou cidadãos (dedutível do Imposto de Renda). Embora a qualidade da programação da PBS tenha decaído, as emissoras que a compõem
oferecem uma alternativa sólida e consistente à mídia comercial [abaixo, link
para informações sobre o sistema de TV pública nos EUA].
O Canal 13 em Nova York é um oásis de qualidade – inclusive na cobertura jornalística de altíssimo nível e invejável objetividade. Como a cidade caracteriza-se por uma excepcional participação cívica e comunitária, o cidadão nova-iorquino comparece anualmente com a sua contribuição (também dedutível do IR). O esquema é ainda mais público do que o inglês porque não há imposições: a União dá a sua metade, a sociedade oferece a outra e as entidades que administram o sistema de rádio, TV e o financiamento das artes gerenciam a aplicação destes recursos.”
Alberto Dines ainda se mostrou inconformado com a passividade reinante no Brasil, onde há uma cultura de atribuir ao governo alguns custos, sempre reclamando quando o serviço oferecido fica abaixo do esperado, porém sem procurar soluções paralelas ou paliativas que possam viabilizar serviços com melhor qualidade e maior participação e cobrança da população no gerenciamento desses serviços. Dines ainda completa:
“As lamentações sobre a falta de verbas para a TV Cultura e as acusações de "dirigismo cultural" (envolvendo a Secretaria de Comunicação e o Ministério da Cultura) originam-se na mesma disfunção: a crença irrestrita no poder central e a descrença na capacidade de mobilização da esfera pública.
Todos querem a grana do Erário, todos querem beneficiar-se da complacência da burocracia, mas ninguém quer submeter-se ao escrutínio e às responsabilidades do domínio público. A polarização Estado versus Privado clama por uma Terceira Via, não muito diferente do esquema do Terceiro Setor.
Mario Covas, como sempre, teve a acuidade de encarar o problema pelo ângulo certo quando, em 1997/1998, há seis anos, diante de uma crise semelhante na mesma TV Cultura, sugeriu que os beneficiários diretos da qualidade da programação de um canal alternativo – os telespectadores – fossem convocados a arcar com PARTE das despesas, no lugar de passar a fatura
INTEIRA ao governo estadual.”