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O custo de oportunidade do uso da terra tradicional

CAPÍTULO 5 – O PAGAMENTO POR SERVIÇOS AMBIENTAIS E A MUDANÇA DE USO DA

5.1 O custo de oportunidade do uso da terra tradicional

Como visto no Capítulo 4, no cenário de base, uma mesma parcela de terra, usada por dois anos consecutivos, gera R$ 1.160,00/ha/ano, no Ano 1 (com "derruba-e-queima"), e R$ 3.739,00/ha/ano, no Ano 2 (sem "derruba-e-queima"). Na média, o custo de oportunidade do uso da terra tradicional alcança cerca de R$ 2.450,00/ha/ano, valor próximo ao encontrado por Börner, Mendoza e Vosti (2007) e Rigonatto (2006).

Aqui, retoma-se a hipótese "custos de oportunidade do desmatamento evitado": "O valor

do pagamento por serviços ambientais deve ser, pelo menos, igual ao custo de oportunidade do uso da terra tradicional, para induzir seu abandono e evitar o desmatamento, ao mesmo tempo em que provê renda aos agricultores, permitindo sua sobrevivência." Assim, para induzir seu

abandono, o valor do pagamento por serviços ambientais deveria ser pelo menos igual o custo de oportunidade médio do uso da terra tradicional de R$ 2.450,00/ha/ano.

O valor do pagamento proposto pelo Programa Proambiente – R$ 1.200,00/ano, sem determinação de área e independentemente do tipo de serviço ambiental fornecido – mostra-se insuficiente para cobrir o custo de não desmatar 1,0 ha para implantar cultivos agrícolas. Pode- se dizer, portanto, que o uso da terra tradicional não seria abandonado entre agricultores familiares com situação semelhante à dos pesquisados no Pólo Rio Capim, prejudicando possíveis mudanças em favor da conservação da floresta.

Ao longo de dez anos, considerando-se dois ciclos produtivos de dois anos, seguidos de pousio, 1,0 ha de terra é capaz de fornecer renda líquida de aproximadamente R$ 9.800,00, ou seja, em média, R$ 980,00/ha/ano. Nesse caso, se o programa se comprometesse a pagar, durante dez anos, R$ 1.200,00/ano, poderia haver compensação do desmatamento evitado de cerca de 1,2 ha de mata no período considerado.

Se for considerado que a parcela de terra poderia obedecer ao pousio de dez anos, período de tempo considerado ideal pelos agricultores, essa renda diminuiria para R$ 4.890,00,

em dez anos, ou cerca de R$ 490,00/ha/ano, que seria o valor necessário para pagar aos agricultores para que renunciassem ao desmatamento de 1,0 ha de terra, no caso de o pagamento ocorrer para evitar o desmatamento. A compensação inicial pretendida pelo Programa Proambiente, caso fosse voltada exclusivamente a evitar a derrubada de vegetação, poderia compensar a retirada de quase 2,5 ha de cobertura vegetal, considerando o pousio de dez anos.

A renda de R$ 490,00/ha/ano é superior ao encontrado nas simulações feitas por Vosti, Witcover e Carpentier (2002), que concluíram que R$ 100,00/ano/ha seriam suficientes para reduzir o nível de desmatamento em 36%22, em pequenas propriedades no Acre e em Rondônia. Contudo, deve-se ressaltar que, mesmo isolada, a região do Nordeste Paraense provavelmente possui melhor acesso do que essas regiões e que o beneficiamento da mandioca traz rendas significativas para os agricultores familiares, elevando o custo de oportunidade local.

O custo de oportunidade também se mostrou superior ao valor pago em outros países: US$ 35,00/ha/ano, no México (ALIX-GARCIA et al., 2005); US$ 65,00/ha/ano, na Costa Rica (MIRANDA, DIEPERINK e GLASBERGEN, 2006; PAGIOLA et al., 2004; PAGIOLA, 2006); US$ 9,30/ha/ano, em Honduras; e US$ 26,60/ha/ano, na Nicarágua (KOSOY et al., 2006). Naqueles países, a conservação de áreas de floresta apresentou baixo custo de oportunidade, mas os autores observam que os valores foram subestimados e podem não incentivar a adoção do uso da terra que forneça maiores níveis de serviços ambientais.

Segundo Palm et al. (2000), pode-se considerar que 1,0 ha de capoeira seqüestre cerca de 150 toneladas de carbono. Tomando-se por base o custo de oportunidade de um ciclo produtivo em 1,0 ha, em dez anos – R$ 4.890,00/ha –, o preço médio da tonelada de carbono

alcançaria R$ 32,60 – ou cerca de US$ 19,6323 –, bem acima do preço do carbono negociado no mercado voluntário, que ficou, em média, por volta de US$ 6,10, em 200724, já que o desmatamento evitado não é elegível dentro dos critérios do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Quioto (MOUTINHO, 2006; PRICE, WATERHOUSE e COOPERS, 2004; WUNDER, 2006a; KARSENTY e PIRARD, 2006; 2007). Considerando-se a realização de dois ciclos produtivos e pousios de quatro anos, o custo de oportunidade alcança R$ 9.800,00/ha, elevando ainda mais o preço da tonelada de carbono.

A situação torna-se menos favorável se for considerada a estimativa apresentada por Pagiola et al. (2004), segundo a qual as florestas secundárias têm a capacidade de fixar uma média de 10 toneladas de carbono por ano, acima e abaixo do solo, ou seja, 100 toneladas em dez anos. Neste caso, considerando-se apenas um ciclo produtivo, o preço médio da tonelada de carbono seria de R$ 48,90, ou cerca de US$ 29,50, ou valores dobrados, se forem levados em conta pousios de quatro anos.

Vale ressaltar que o custo de oportunidade foi estimado com base em valores médios para uma região com restrições financeiras, refletindo rendas abandonadas em situações precárias, o que pode fazer com que o valor esteja subestimado. Assim, é importante considerar que, em regiões com alta produtividade agrícola e/ou mais dinâmicas do ponto de vista econômico, os custos de oportunidade tenderão a ser mais elevados.

Segundo Faleiro e Oliveira (2005), o valor do pagamento por serviços ambientais proposto pelo Programa Proambiente corresponde ao custo de oportunidade de se eliminar o fogo dos sistemas de produção (FALEIRO e OLIVEIRA, 2005). Os custos estimados com a introdução da agricultura sem uso do fogo, considerando o aluguel da máquina responsável pela trituração da capoeira, o pagamento de diária do motorista e a aquisição de combustível

23 Com o dólar valendo cerca de R$ 1,66, em maio de 2008. Fonte: O Estado de S. Paulo. Disponível em

<http://www.estadao.com.br>. Acesso em 21 mai. 2008.

24 Fonte: Carbono Brasil. Disponível em <http://www.carbonobrasil.com/news.htm?id=486985&section=7>, acesso em 17 maio 2008.

para abastecimento da máquina, alcançaram R$ 328,00/ha/ano. De acordo com o parâmetro do Proambiente e levando em consideração o valor do custo de se eliminar o fogo do sistema produtivo obtido nesta pesquisa, o pagamento poderia ser ainda mais baixo – R$ 328,00 –, bastante menor do que o custo de oportunidade médio do uso da terra tradicional. Desta perspectiva, a probabilidade de induzir ao abandono da agricultura praticada de forma tradicional seria reduzida.

Não se deve esquecer que os custos de oportunidade são dinâmicos e podem sofrer alterações com mudanças nas condições econômicas como, por exemplo, variações nos preços dos produtos e dos insumos agrícolas, quando os agricultores podem abandonar as práticas para aproveitar outras oportunidades econômicas (FAO, 2007).

Conforme Wunder (2006a; 2007), se os custos de oportunidade forem altos, os programas de pagamentos por serviços ambientais provavelmente não serão uma compensação suficiente, alcançando pouca eficiência em incentivar o fornecimento de níveis maiores de serviços ambientais. Nesses casos, deve-se avaliar se o pagamento por serviços ambientais é a melhor solução para a conservação do meio ambiente ou se não seria mais apropriado aplicar instrumentos como os de comando-e-controle, associados a outras formas de incentivos econômicos.

Ainda, como discutido sobre a questão da Reserva Legal (RL) (Capítulo 3), poderia ser avaliada a introdução de políticas mistas, que combinassem pagamentos por serviços ambientais com instrumentos de comando-e-controle, na direção do que sugerem Rigonatto (2006) e Young (2007), sem deixar de ponderar que instrumentos de comando-e-controle não possuem aplicação simples e sua fiscalização e seu monitoramento apresentam muitas deficiências (BACHA, 2005; KARSENTY, 2007; LEWIS et al., 2002; MENEZES, 2004; OLIVEIRA e BACHA, 2003; RIGONATTO, 2006; ROMEIRO, 2006; YOUNG, 2007).

No caso de o pagamento por serviços ambientais induzir o abandono do uso da terra tradicional apenas para conservar a floresta, provavelmente, seriam gerados impactos

negativos sobre a geração de renda, devido à não-exploração de possibilidades econômicas e à falta de perspectiva de crescimento de renda, como observa Karsenty (2004; 2007). Menezes (2004), ao analisar o potencial de geração de renda em áreas de Reserva Legal (RL), para pequenos agricultores em um projeto de colonização no Acre, concluiu que uso múltiplo da floresta apresenta baixa capacidade em gerar receita para as famílias, não oferecendo condições à sua sobrevivência. Além disso, se não fossem tomadas outras medidas para contornar esses efeitos, a mão-de-obra da agricultura familiar tenderia a ser subutilizada.

Quanto à segurança alimentar das famílias, essa questão vai além do nível individual. Suponha-se que, numa dada região, todos os agricultores passem a adotar alternativas de uso da terra que não forneçam alimentos básicos. Neste caso, a segurança alimentar das famílias poderia ser colocada em risco, especialmente daquelas que não dispõem de recursos financeiros para adquirir os produtos necessários à sua alimentação nos mercados locais e contam somente com suas produções para o autoconsumo. Nesse sentido, o impacto potencial das mudanças no uso da terra e do pagamento por serviços ambientais sobre a segurança alimentar local e regional é uma questão crítica, que pode prejudicar a adoção de mudanças até mais lucrativas, mas portadoras de riscos altos. As implicações decorrentes de situação semelhante devem ser ponderadas, sobretudo em áreas agrícolas que forem destinadas exclusivamente ao fornecimento de serviços ambientais (FAO, 2007; WUNDER, THE e IBARRA, 2005).

Assim, se o pagamento por serviços ambientais fosse voltado exclusivamente ao desmatamento evitado que, do ponto de vista ambiental poderia ser a melhor opção, do ponto de vista da sustentabilidade social e econômica, poderia ser pouco promissor, não levando a agricultura familiar a formas de desenvolvimento mais sustentáveis. Um caminho provavelmente mais viável é que o foco dos pagamentos esteja em induzir a adoção de sistemas capazes de fornecer maiores níveis de serviços ambientais, ainda que menores do que no desmatamento

evitado, porém, mais favoráveis à sustentabilidade social e econômica da agricultura familiar, no longo prazo, como visto a seguir.