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4.3 Metodologia utilizada no estudo descritivo de custos da leishmaniose

4.3.5 Valoração dos recursos

4.3.5.2 Custos Indiretos

Para estimar a mortalidade precoce por LV, foram calculados os Anos Potenciais de Vida Perdidos – APVP (tradução do inglês Potential Years of

Life Lost – PYLL) entre as idades de 1 a 70 anos, conforme método proposto

por Romeder and McWhinnie (ROMEDER; MCWHINNIE, 1977). O cálculo dos APVP para uma causa específica consiste no somatório do número de óbitos em cada idade (entre um e 70 anos) multiplicado pelos anos potenciais ou remanescentes de vida até a idade de 70 anos, com a seguinte expressão matemática:

APVP = ∑aidi

em que ai corresponde à diferença entre a idade limite superior considerada

e a idade de ocorrência do óbito, quando este ocorreu entre as idades de i e i + 1 ano e di representa o número total de óbitos ocorridos entre as idades de

i e i + 1 ano. Em relação à definição do limite superior de idade para o cálculo dos APVP, os autores justificam que acima de 70 anos torna-se difícil a determinação da causa específica do óbito, considerando a ocorrência de

77 possíveis causas subjacentes, particularmente para pessoas muito idosas. No mesmo sentido, a exclusão das mortes de menores de um ano de idade, deve- se ao fato de que a maioria dos casos de mortalidade infantil são decorrentes de causas específicas para este período inicial de vida e muitas vezes têm uma etiologia diferente da morte em idade posterior. Além disso, cada morte infantil seria responsável por quase 70 anos de vida perdidos, o que poderia superestimar o valor total dos APVP.

Para o cálculo dos APVP, foi obtida inicialmente a distribuição dos óbitos por faixas etárias, de acordo com dados do SINAN. Os 230 óbitos por LV registrados em 2014 no SINAN foram estratificados em faixas etárias (as mesmas faixas utilizadas no trabalho de Romeder and McWhinnie) e excluídos os menores de um ano de idade (24) e maiores de 70 anos (32). Para obtenção dos anos potenciais ou remanescentes de vida, foi calculada a diferença entre o ponto médio de cada faixa etária e a idade estabelecida como limite superior (70 anos). Foram então multiplicados os anos potenciais de vida pelo número de óbitos de cada faixa etária e foram somados os subtotais de cada faixa etária para obtenção do valor dos APVP (Tabela 6). Tabela 6: Óbitos e Anos Potenciais de Vida Perdidos em decorrência da mortalidade precoce por LV. Brasil, 2014.

Faixa etária

Ponto médio da faixa etária1

Anos potenciais de vida na faixa etária2

(ai) No de óbitos por faixa etária3 (di) Anos Potenciais de Vida Perdidos na faixa etária (aidi) 1 - 4 3,0 67,0 29 1.943 5 - 9 7,5 62,5 3 187,5 10 - 14 12,5 57,5 1 57,5 15 - 19 17,5 52,5 2 105 20 - 24 22,5 47,5 17 807,5 25 - 29 27,5 42,5 8 340 30 - 34 32,5 37,5 13 487,5 35 - 39 37,5 32,5 11 357,5 40 - 44 42,5 27,5 17 467,5 45 - 49 47,5 22,5 13 292,5 50 - 54 52,5 17,5 23 402,5 55 - 59 57,5 12,5 14 175 60 - 64 62,5 7,5 10 75 65 - 69 67,5 2,5 13 32,5 TOTAL (1-70) 174 5.730,5

Fonte: Dados sobre óbitos foram obtidos no SINAN.

1. Média dos limites inferiores de duas faixas subsequentes.

2. Diferença entre o limite superior considerado (70 anos) e o ponto médio do intervalo

3. Excluídos os óbitos que ocorreram em menores de 1 ano (24) e aqueles que ocorreram em maiores de 70 anos (32).

78 Os dados dos APVP foram utilizados para estimar a perda de produtividade por mortalidade precoce por LV e obter o valor salarial não recebido referente a esses anos, calculados pelo método do capital humano. De acordo com o método do capital humano, abordagem mais frequentemente utilizada para estimar a perda de produtividade, o tempo perdido é valorado a partir da comparação com o salário bruto de um indivíduo. O método pressupõe que há o pleno emprego na economia e que qualquer absenteísmo é compensando no curto prazo pelo aumento de produtividade dos demais trabalhadores, sem alterações de custos para empregadores e para a sociedade (ITRIA, 2011). De acordo com o método, o cálculo é realizado pela multiplicação do período de ausência do indivíduo ao trabalho pelo salário proporcional ao período.

Para determinação do período de ausência ao trabalho, foram calculados os anos de trabalho potencialmente perdidos devido à mortalidade precoce por LV.

Inicialmente foram fixadas as idades mínima e máxima da capacidade produtiva de um indivíduo no ano de 2014. Para isso, foi considerada, para ingresso no mercado de trabalho, a idade mínima de 18 anos, e para a aposentadoria, foram consideradas as idades de 65 anos para homens e 60 anos para mulheres. As idades foram definidas com base nas disposições da legislação trabalhista brasileira, adotando-se uma posição conservadora, uma vez que, segundo a legislação, o trabalho é permitido a partir dos 16 anos de idade, sendo, porém, proibido o trabalho do menor de 18 anos em condições perigosas ou insalubres (BRASIL, 1943).

Dessa forma, os anos de trabalho potencialmente perdidos pelos casos de LV que evoluíram precocemente para óbito foram obtidos pela multiplicação do número de óbitos em cada idade pela diferença entre a idade de aposentadoria e a idade em que o óbito ocorreu. Considerando as diferentes idades de aposentadoria entre homens e mulheres, o cálculo dos anos de trabalho potencialmente perdidos foi estratificado por sexo.

Para determinação do salário não recebido durante o período, foi utilizado como base o salário mínimo mensal praticado no Brasil em 2014,

79 correspondente a R$ 724,00 (BRASIL, 2013). Não foi utilizado o valor do salário médio da população brasileira, no valor de R$ 1.950,00 em 2014, pois a população acometida por LV, em geral, possui baixa renda (TOLEDO, 2017), e estaria mais adequadamente representada pelo valor do salário mínimo.

Dessa forma, o salário bruto anual de um indivíduo neste ano foi de R$9.653,33, que considerou doze salários mensais (R$8.688,00), o décimo terceiro salário (R$724,00) e o adicional de férias (R$241,33). A partir desses dados foi obtida a perda salarial referente aos anos potenciais de trabalho perdidos.

Para a determinação do custo da perda de produtividade por morbidade, decorrente da internação por LV, foi considerado o total de pacientes internados, conforme pressuposto assumido. O total de 3.067 internações foi obtido a partir de dados do SINAN, conforme apresentado no item 4.3.4.2. Para o cálculo, foi utilizado o valor diário do salário de R$ 24,13 por dia (BRASIL, 2013), multiplicado pela média de dias de trabalho perdidos que correspondeu à permanência média da internação no SUS por LV (14,3 dias), somada ao período de 15 dias, durante o qual o paciente permaneceu em recuperação domiciliar após a alta hospitalar, antes do retorno ao trabalho.

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