Para a teoria sociológica que se articula em torno do paradigma da dádiva, essas experiências e esse significado teórico ampliam novas possibilidades analíticas e afirma uma nova contribuição capaz de provocar inovações significativas. O Brasil tem sido tradicionalmente palco das chamadas “transições pelo alto”, gerando-se na sociedade um sentimento de fragilidade frente às ações das elites no poder. Ao reconhecer-se que o processo de redemocratização é marcado pela ação dos movimentos sociais, que foram capazes de afirmar a emergência de uma nova noção de cidadania e de democracia, e portanto de superação daquela fragilidade histórica da sociedade civil, o debate sociológico assume uma nova perspectiva quanto ao processo de politização do social e de socialização da política, reconhecendo-se como evidência o fato do social ser construído pela própria sociedade e recuperando- se a densidade da política. Nesse contexto, ganha legitimidade a reflexão que relaciona a noção de dádiva social com a noção de democracia.
A apreensão da dádiva como fenômeno social total enfatiza a dedicação, a solidariedade, a generosidade e a aliança como fatores significativos da constituição do vínculo social, na experiência comunitária e “movimentalista”, que não se realiza fora do mundo dos conflitos e dos interesses, mas onde estes estão subordinados
àquelas. Na atualidade e frente às experiências reais de democracia participativa, o estudo dos vínculos sociais passa necessariamente pela reflexão em torno de um modelo de cidadania ativa, em contraposição ao modelo liberal de cidadania. Do mesmo modo podemos afirmar que o vínculo social, o sentimento de pertença, constitui elemento central para universalização da experiência democrática que retoma seu lugar de destaque na sociedade contemporânea.
Para Leilah Landim (2003), que há mais de duas décadas vem pesquisando e elaborando sobre ONG’s e sociedade civil no Brasil, as contribuições formuladas pelos teóricos da dádiva servem como significativo ancoradouro teórico e prático para as atuais experiências vivenciadas, inclusive levantando questões sobre o significado do chamado “terceiro setor”. Conforme já dissemos, essa autora critica o uso descontextualizado desse termo, afirmando que recentes pesquisas, com dados colhidos inclusive nos Estados Unidos, vêm apontando para o fato de que a idéia da sustentação do “setor” pela doação e pelo voluntariado puramente individuais é um mito, já que grande parte dos seus recursos viria de fontes governamentais (LANDIM, 2003, p. 115).
Landim considera, ainda, que as análises do terceiro setor, nas concepções norte-americanas, privilegiam o associativismo institucionalizado enquanto, em contraposição, reconhece uma proximidade entre as abordagens latino-americanas e de alguns países europeus, nas quais se dá ênfase às iniciativas informais, a formas tradicionais de ajuda mútua ou mesmo a movimentos sociais. Nesse contexto, a autora se reporta à preferência dos europeus pelos termos “economia social”, “popular”, ou “solidária” para referir-se às experiências e aos “processos contemporâneos de recomposição das relações entre o econômico e o social, onde ressaltam dinâmicas participativas localizadas como cooperativas e associações
mutualistas, e onde a questão democrática é discutida e ressaltada”. (Idem, p. 115). Para Ladim, está aqui a chave da contribuição da teoria da dádiva, particularmente as elaborações de Jean Louis Laville e Philippe Chanial.51
No caso brasileiro, o crescimento das experiências em esferas locais e a legitimidade, visibilidade e articulação nacionais tornam-se responsáveis pelo alargamento e consolidação de experiências extremamente significativas e provocadoras de novas análises e novas práticas sociais e políticas. Entre os resultados visíveis de tal importância, está a construção do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, iniciado em janeiro de 2001 e continuado nos janeiros dos anos seguintes, provocada em boa parte pelas experiências da participação cidadã brasileira cujo processo é marcado também por outras motivações políticas, sociológicas, emancipatórias, humanitárias.
Tais experiências são reveladoras da constituição das relações sociais no mundo contemporâneo, dos temas em torno dos quais as pessoas se agrupam, de como elas tecem os vínculos sociais, elaboram e estratégias de ação, mas, sobretudo, de como essa ação provoca mudanças na realidade local. É claro que aí a ação é percebida como resultado de um misto de condições dadas pela existência de organizações e esferas participativas, mas também de uma vontade coletiva, portanto como um processo interativo de reconstrução dos vínculos sociais no interior de determinado campo político.
Na última década, diversas interpretações e análises, tanto da sociologia quanto da ciência política, se dedicam à tarefa de explicar tal fenômeno da
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Leilah Landim se refere as seguintes publicações destes autores : CHANIAL, Philippe (1998) – La
délicate essence de la démocratie: solidarité, don et association, em: Revue du Mauss semestrielle –
n° 11 – Premier Semestre 1998 – Une seule solution, l’association? Socio-économie du fait
associatif – Paris: La Découverte; LAVILLE, Jean Louis (org) – 1994 – L’économie solidaire – une perspective internationale, Paris: Desclée de Brower. Mas se refere também aos demais artigos
participação cidadã. Tais análises já podem apontar certa ruptura com a nossa tradição intelectual fortemente marcada pela primazia e valorização do papel do Estado como organizador da vida social e da nação. Contudo, as análises que enfatizam a cidadania ainda se movem no campo de várias disputas, indo desde o “comunitarismo” até às novas ênfases baseadas no “neo-institucionalismo”. A perspectiva analítica do Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais – M.A.U.S.S, ao assumir a lógica da dádiva como fenômeno social total e ao articular cidadania e democracia, enfatiza a ação social, a associação, como ação política, a construção do social pela própria sociedade. Neste sentido, Alain Caillé dedica especial atenção à relação da dádiva com o ato associativo e com a ação política, retomando, nas descobertas de Marcell Mauss, o sentido central da teoria da dádiva, marcada pela tripla obrigação de “dar, receber e retribuir”, apresentando a sua definição em duas faces complementares:
1°) definição sociológica: qualquer prestação de bens ou serviços efetuada sem garantia de retorno, tendo em vista a criação, manutenção ou regeneração do vínculo social. Na relação de dádiva, o vínculo é mais importante do que o bem.
2°) definição geral: toda e qualquer prestação efetuada sem obrigação, garantia ou certeza de retorno; por esse fato, comporta uma dimensão de gratuidade”. (CAILLÉ, 2001, p. 192).
A proposta da obrigação do dom está relacionada à espontaneidade, embora isso possa parecer contraditório, e há uma relação entre obrigação e gratuidade na perspectiva de que a ação é ao mesmo tempo interessada e desinteressada, há interesse pessoal pelo prestígio e pelo reconhecimento do outro, mas há também, e ao mesmo tempo, o gosto pela amizade, pela aliança, pela generosidade, o interesse pelos outros. Ou seja, “... o dom não pode ser pensado sem ou fora do interesse e sim contra o interesse instrumental. Trata-se do movimento que, visando a aliança ou/e a
criação, subordina os interesses instrumentais aos interesses não instrumentais.”52. (CAILLÉ, 2001, p. 5).
Embora muitas análises dos movimentos sociais e da participação cidadã enfatizem as conquistas e os resultados concretos, como motivação para manutenção de seus processos mobilizadores e participativos, percebe-se que, mesmo naqueles municípios em que os governantes locais não incorporam ou não valorizam os espaços e as demandas sociais coletivamente construídas como instrumento de ação governamental e de realização de políticas públicas, o gosto e as iniciativas de participação não são desmobilizados. As motivações estão mais vinculadas a processos de vontade coletiva e existência de organizações sociais e esferas participativas em torno dos quais pessoas dedicam importante parte de seu tempo. Assim, a afirmação dos teóricos da dádiva parece oferecer importante contribuição interpretativa, evidenciando como laços sociais são mantidos em função de uma constante dívida entre parceiros, grupos e indivíduos. Não se trata de uma dívida contábil, mas o sentimento de qualidade e quantidade do que cada um recebe e dá. No modelo mercantilista, baseado nas relações utilitaristas há uma base para a liquidação da “dívida contábil”, no modelo da dádiva os laços e a relação dar – receber – retribuir fazem parte de uma dinâmica permanente marcada por gratuidade e cobranças, que apesar dos riscos, não pode ser confundida com o sentimento da caridade religiosa ou do holismo simbólico.
Alain Caillé (2002) constrói uma relação entre o paradigma da dádiva e sua utilidade para uma sociologia da associação. Para ele, “Entrar em associação é, antes de tudo, disponibilizar seu tempo e sua pessoa; portanto, existe um vínculo evidente entre a questão da significação da dádiva e a do estatuto da ação associativa”
52 A(d)ssociação e Política – Texto mimeografado, distribuído durante o Seminário “Economia Popular e Solidária”, realizado
em parceria entre a Prefeitura Municipal do Recife e o Programa de Pós Graduação em Sociologia da UFPE. Com a participação do autor. Recife; agosto de 2001.
(CAILLÉ, 2002, p. 191). Após recuperar a explicação sociológica e geral da dádiva (Idem, p. 192), Caillé apresenta um esforço teórico de sua aplicação a uma reflexão sobre o fato associativo. Registra como a associação realiza “o que se pode designar enquanto espaços públicos primários (baseando-se no inter-conhecimento); em suma, espaços públicos privados” (Idem, p. 198). Para sua análise, afirma que enquanto a economia de mercado se apóia no princípio do interesse e da liberdade dos particulares, bem como a esfera político-administrativa se baseia no princípio do interesse público e da imposição necessária para sua implantação; a associação (assim como a dádiva) “repousa em um princípio de liberdade e de obrigação estreitamente misturadas, através do qual se realizam interesses comuns” (Idem, p. 199). Na adesão ou participação em associação cria-se uma situação de vínculo, em que todos se sentem responsáveis por todos e ‘devedores’ para com todos, e nesse jogo, todo mundo ganha. Esse pacto associativo forma-se sob a égide da incondicionalidade condicional53, em que cada associado compromete-se a dar incondicionalmente ao outro e à associação, mas mostra-se preparado para retirar-se do jogo, a qualquer instante, se os outros deixarem de jogar.
Na mesma esteira da relação entre associação e dádiva, Alain Caillé registra a relação privilegiada entre associação e democracia que, à semelhança da dádiva e do político, são uma mesma coisa, embora em escala diferente. Neste campo, o autor afirma que o caráter próprio da modernidade, consiste em ter procedido à substituição sistemática da solidariedade personalizada (homem a homem), por uma solidariedade impessoal, funcional, pública, estatística, como a seguridade social, garantida por um sistema público de redistribuição, o que a caracteriza como uma dádiva mecânica e impessoal, que pode ser qualificada como dádiva secundária. Para
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Tratamos do debate sobre a incondicionalidade condicional, segundo a visão de Alain Caillé, no capítulo I desta tese.
uma nova relação entre associação, dádiva e democracia, no mundo atual, o autor apresenta três medidas necessárias:
“1º) diminuir o tempo de trabalho e organizar uma redistribuição ativa dos empregos; 2º) incentivar do ponto de vista jurídico, simbólico e financeiro, a expansão das atividades associativas e, em particular, as que contribuem para o dinamismo do ‘terceiro setor’ ou da ‘economia solidária’; 3º) afirmar uma aposta na confiança de todos para com todos, dos mais favorecidos em relação aos menos favorecidos e reciprocamente, de todos em relação ao Estado e do Estado relativamente à população, atribuindo àqueles que, no mínimo, não disponham desse nível de recursos, o benefício de uma renda mínima que facilite sua reinserção” (CAILLÉ, 2002, p. 204). Para Philippe Chanial, um dos principais formuladores contemporâneos do paradigma da dádiva, com destaque para temas como a democracia, a sociedade civil, a economia solidária, apesar da grande importância de instrumentos que apontem para exigências e práticas de uma “democracia radical”, eles em geral estão circunscritos no campo jurídico da participação, o que considera insuficiente para a construção de uma sociedade justa e democrática. “O ideal de uma sociedade livre da dominação parece-me inseparável de uma segunda exigência, uma exigência de solidariedade e reciprocidade” (CHANIAL, 2004, p. 64). As novas práticas sociais viabilizadas no interior da sociedade civil são, segundo Chanial, o terreno propício para o desenvolvimento dessas exigências de solidariedade e reciprocidade.
A sociedade civil contemporânea pode, assim, ser definida como uma sociedade cívica e solidária em busca de uma democracia duradoura que a exprima. O desafio de uma política da sociedade civil consiste, neste sentido, não somente em defender a autonomia da sociedade civil diante das ameaças que fazem pesar sobre sua integridade o Estado e o mercado, mas também democratizar estes três pólos, por um lado, favorecendo, no seio da sociedade civil, o reforço dos compromissos e das solidariedades voluntárias e quebrando os quadros hierárquicos tradicionais de dominação; por outro, constituindo uma sociedade civil como vetor de uma democratização das instituições públicas e de uma domesticação da racionalidade – ou irracionalidade – mercantil. (CHANIAL, 2004, p. 67).
Podemos perceber como o debate suscitado pelo M.A.U.S.S relaciona necessariamente a democracia tanto com modos de vida das pessoas, com as relações
cotidianas, quanto com os modelos de desenvolvimento, e qualquer projeto duradouro de democracia deverá passar pelas esferas da sociedade civil, do mercado e do Estado, articulados em torno de uma plataforma mínima que considere o acesso ao trabalho e à renda mínima para todos. As relações de solidariedade e confiança, bem como a quebra das correntes de dominação e controle que reforçam a autonomia das pessoas e da própria sociedade civil - autonomia que não significa isolamento, mas iniciativa e criatividade para a relação com o mercado e o Estado. Sob esta ótica abre-se uma aproximação com as elaborações suscitadas em torno do Fórum Social Mundial, em sua busca de “reinvenção da emancipação social” (SANTOS, 2002), que tratamos no capítulo II. É a partir das elaborações em torno das experiências da democracia participativa, com especial atenção as “esferas públicas não estatais”, que a sociedade civil vem dialogando com o mercado e o Estado, em função de estabelecer bases para “discutir as desigualdades máximas suportáveis e a igualdade mínima necessária para uma sociedade civilizada e democrática”, (GENRO, 1999), conforme veremos a seguir.