alei para Barney que, totalmente sem querer, Paloma me contou algo sobre a minha mãe, que já morreu. Ela tinha ouvido falar do terrível acidente que matara a minha mãe e ferira Stevie. E isso me fez perceber como eu era inútil.
Na escola, no dia seguinte ao que tentei beijá-la, Paloma tinha me chamado.
— Oscar, Oscar — gritara ela bem no meio do pátio. Corri até ela, que me pediu para contar para todo mundo o que eu tentara fazer no dia anterior, e claro que aquilo era particular, então eu não ia anunciar para o resto da turma, mas todo mundo se reuniu ali e Paloma disse: — Oscar Dunleavy tentou me beijar ontem à noite, não foi, Osc? — E algumas pessoas começaram a rir. Ri também porque não queria que a coisa
casse feia.
Então ri um pouco mais, e ela também, depois se aproximou e sussurrou no meu ouvido:
— Viu, Oscar? Todo mundo está rindo de você agora. Você não achou mesmo que eu e você íamos ser... sabe, que poderia existir um “nós”? Não rola. Nunca rolaria.
Eu disse que por mim tudo bem, que sério, ela não precisava continuar falando sobre aquilo, mas Paloma só parava de falar quando queria.
— Eu só estava sendo legal com você — continuou ela. — E claro que sempre poderemos ser amigos.
— Você não precisa ser legal comigo se não quiser — falei.
— Ah, mas eu gosto de ser legal com você. Porque o acho muito bravo.
— Bravo? Como assim bravo? — perguntei.
— Corajoso. Forte. Eu nem posso imaginar como você deve ter se sentido culpado a vida toda.
— Culpado? Por que eu me sentiria culpado? — perguntei.
— Por causa de Stevie e da sua mãe — disse ela devagar. — Eu sinceramente não sei como você consegue continuar tão alegre. Você é resistente, Oscar... seguindo em frente depois do acidente de Stevie. Deve ser muito difícil conviver com a culpa — continuou ela, e seu jeito de falar estava cheio de um signi cado explosivo que eu ainda não entendia.
— Sabe, vê-lo todos os dias na cadeira de rodas e saber, essa é a parte horrível, que foi você quem o colocou lá.
— Paloma, o que você está dizendo? Foi um acidente. Um acidente de carro. Bateram na gente... não foi nem culpa do homem.
— Sempre é culpa de alguém — rebateu ela, olhando atentamente para o meu rosto, e depois completou: — Oscar, você não precisa esconder de mim, porque eu sei. Minha mãe me contou. Ela teve uma longa conversa com o seu pai outro dia. Pobre de você, Osc. Esse é um fardo terrível de carregar, e só quero dizer que sinto um grande respeito por você estar tão bem quanto a isso, por não se deixar abater.
Eu disse que gostaria muito de ouvir as partes da história que meu pai tinha contado.
Então ela revelou. A história da minha família que ninguém nunca tinha se dado ao trabalho de mencionar para mim, ainda que eu tivesse tido o papel principal.
— Seu pai contou para a minha mãe que guardava sua tristeza havia muito tempo. Minha mãe sabe tirar informações das pessoas. Já vi como ela faz. Em geral, mantém a taça da pessoa cheia mesmo que ela não queria mais vinho, e consegue que lhe confessem partes da história de suas vidas que nunca confessaram a ninguém.
“Ele contou que você e a sua família estavam indo para Galway e que todo mundo estava feliz e animado por estar indo para a praia. O sol já estava brilhando forte porque vocês tinham saído tarde. Stevie estava preso na cadeirinha, e você cantava uma música que cantava sempre, e tinha só 6 anos, mas era sorridente e agitado do jeito que só crianças de 6 anos conseguem ser, e sua mãe estava dirigindo. Seu pai disse que não conseguia se lembrar por que não era ele quem estava dirigindo. Falou um pouco sobre o quanto você amava o seu irmão, mesmo naquela época, quando ele era bem pequeno, e contou para a minha mãe que Stevie devia estar entediado ou talvez com fome ou coisa assim, porque vocês tinham saído tarde. Seu pai continuou explicando que ele deveria ter dado o almoço antes de sair, mas foi ele que insistiu que vocês se apressassem. E seu pai tem certeza de que Stevie começou a esticar os braços para você, porque você disse: ‘Mãe, pai, Stevie quer sair’, e seu pai contou que falou várias vezes: ‘Não importa o que Stevie faça, não o tire da cadeirinha até acharmos algum lugar para parar.’ Quero dizer, vocês iam parar, mas estavam na estrada. Precisavam encontrar um lugar, sabe.
“Ele contou que a sua mãe continuou dirigindo e que ele estava distraído, olhando o mapa, quando virou para trás e viu você segurando Stevie no colo, e os dois estavam com sorrisos enormes como se tivessem feito alguma coisa genial e estivessem muito satisfeitos consigo mesmos.
Assim que olhou para vocês, ele ofegou de susto, sabe, porque é muito perigoso para um bebê não car na cadeirinha. Então sua mãe olhou para trás, cando igualmente chocada e tirando a atenção da estrada, fazendo o carro deslizar para o outro lado da via e bater em um caminhão. O motorista cou devastado depois, mas não tinha sido culpa dele.”
Paloma não tirou os olhos do meu rosto enquanto contava a história.
Eu estava tonto. Enjoado.
Eu queria Meg. Precisava falar com ela. Mas Meg não era mais minha amiga. Ela não gostava de mim porque eu era um idiota. Todo mundo da minha turma sabia disso. Paloma, melhor do que ninguém. Um idiota e um tolo. Um tolo que fazia tortas de maçã e que matou a própria mãe.
— Desculpe — sussurrei várias vezes para mim mesmo durante o resto daquele dia, embora devesse estar falando com Stevie. — Desculpe por ser o que sou. Desculpe pelo que z.
Paloma estava mudando diante dos meus olhos. Estava mais insensível, desagradável e cruel do que eu teria previsto, e pensei que, se pelo menos conseguisse ter uma conversa rápida com Meg, ela poderia me ajudar a organizar meus pensamentos.
Mas Meg não queria falar comigo. Ela havia seguido em frente. Não existia ninguém a quem eu pudesse recorrer. Ninguém que fosse ouvir ou entender, e entrei em pânico, Barney, porque esse é o tipo de sensação que aparece de repente você percebe que está sozinho.
Muitas coisas ruins se misturavam na minha mente. Tudo meio que desmoronou. Isso faz algum sentido, Barney?
Barney respondeu que, considerando o que eu tinha contado, fazia todo o sentido.
— Oscar, meu caro rapaz, espero que você entenda que, embora seja bem-vindo aqui, talvez precise repensar a estratégia que planejou sobre se esconder inde nidamente. Pode ser bom considerar voltar para casa
em algum momento. Você está se sentindo mal por algo que não deveria lhe fazer sentir mal. E vai perceber isso se parar para pensar. Você precisa conversar com o seu pai sobre tudo.
— Não preciso, não. Não quero fazer nada — falei, colocando novamente a cabeça entre as mãos. Não olhei nem falei com ele por um tempo.
— Tudo bem, caro rapaz, talvez você só precise de um pouco mais de tempo — disse Barney.
— Não preciso de mais tempo. O tempo é inútil. Não vai melhorar as coisas, por mais que passe.
— Por que deixou Paloma falar com você e tratar você daquele jeito?
— perguntou ele. — Acho que ela foi muito desagradável, cruel e dissimulada.
— Ah, talvez, não sei. Não acho que ela teve essa intenção. Eu só queria ser amigo dela. Não queria brigar. Queria manter a paz.
— Eu posso ser um velho tolo — disse Barney. — Mas me parece que aquela garota estava decidida a fazê-lo se sentir péssimo consigo mesmo.
Uma coisa que aprendi é que nem toda paz é boa. A paz pode ser frágil e pode ser feia e pode ser errada. A paz construída sobre mentiras não é paz.