3 O ABORTO ENTRE O DIREITO E A POLÍTICA
3.1 DÉFICITS DEMOCRÁTICOS NO PROCESSO POLÍTICO
A disciplina das eleições é pensada para criar duas dinâmicas – representação e responsabilidade – o que assegura a integridade da relação entre os interesses dos cidadãos e os resultados políticos. Os votos dos cidadãos selecionam os políticos para que eles lutem por suas preferências progredindo com políticas apropriadas. Esses mecanismos de representação e responsabilidade devem produzir um governo adequado e justo com apenas a participação modesta dos cidadãos na maioria dos domínios da lei e da política sob circunstâncias favoráveis.
Eleições competitivas, partidos fortes com plataformas transparentes, vigorosa verificação pública das alternativas políticas contenciosas, um eleitorado informado, isolamento suficiente do Estado em relação à economia e um Executivo competente. Para muitos problemas públicos e em condições desfavoráveis, entretanto, essa instituição mínima das eleições periódicas falha em garantir um nível de representatividade e responsabilidade política que faça o governo ser adequado.
Consideram-se quatro dificuldades características, ou déficits democráticos que evitam instituições eleitorais de efetivar um governo adequado. Diante de muitas questões públicas, os cidadãos têm preferências pouco claras acerca das políticas públicas que melhor promovem seus interesses. Ou, eles possuem preferências que são instáveis no sentido de mudarem facilmente diante de exposição à nova informação, argumentos ou perspectivas. Ausente uma relação mais espessa e contínua entre elites políticas e seus eleitores, em comparação a fornecida por eleições periódicas, os políticos muitas vezes entendem mal seu eleitor.
Esse tipo de mal-entendido é especialmente provável na ampla gama de questões que não configuram proeminentemente em campanhas precedentes das eleições. Políticos que não entendem seus eleitores não podem bem representá-los. Em terceiro lugar, os mecanismos eleitorais podem revelar-se fracos demais para suportar o maquinário político e administrativo do governo responsável perante os cidadãos, quando estes possuem preferências claras. Em muitas decisões estatais, os interesses dos políticos e administradores podem diferir daqueles da maioria dos cidadãos. (MOURA, 2010)
Para os cidadãos é difícil usar as eleições para obrigar os políticos a agirem em benefício da promoção de seus interesses populares ao invés dos fins de sua elite quando as eleições não são competitivas, quando interesses estreitos se opõem aos difusos, ou quando resultados são difíceis de monitorar e avaliar. Problemas de prestação de contas são compostos pelo fato de
difundir a delegação de poder e autoridade às agências administrativas nos Estados modernos.
Mesmo se os cidadãos pudessem resistir à prestação de contas dos políticos, estes podem não ser capazes de controlar e monitorar os dispositivos administrativos que implementam, e muitas vezes fazem política.
Por fim, mesmo quando os dispositivos eleitorais de representação e responsabilização permitem aos líderes dos cidadãos controlar seus agentes políticos e administrativos, o próprio Estado pode não ter a capacidade de produzir efeitos que favoreçam os interesses dos cidadãos.
Em áreas como a de desenvolvimento econômico, por exemplo, resultados bem-sucedidos não dependem somente da lei e política pública, mas também de ações decorrentes de agentes na esfera da economia. Em áreas como as de meio ambiente, educação, e segurança pública, resultados dependem do engajamento e contribuições de cidadãos como indivíduos, bem como das políticas públicas.
Algumas abordagens buscam melhorar as dinâmicas da preferência de formação, representação, e responsabilização, complementando as eleições com participação e deliberação direta. Outras abordagens visam reduzir o papel dos representantes políticos, tornando as agências e as ações do Estado diretamente mais receptivas aos cidadãos.
O processo de democracia política é mais seriamente ameaçado quando os interesses de representantes profissionais partem, sistematicamente, do seu círculo eleitoral e quando o mecanismo eleitoral é muito fraco para obrigar os representantes a responderem pelos interesses dos cidadãos ao invés de usarem o poder político para promover seus próprios fins. Temos como exemplo o atual presidente do Brasil que é cristão e tem direcionado cargos políticos para pessoas da bancada evangélica. Ou seja, estamos tendo um retrocesso imenso até mesmo no próprio aborto, pois a religião é contra e por conta disso acabam criando Projetos de Lei para extinguir o aborto em qualquer das hipóteses, até mesmo em caso de estupro. (CARDOSO E ALVES, 2019)
Hodiernamente no Brasil, estamos vivenciando um percurso de legitimação do conservadorismo de uma forte e articulada bancada evangélica no Congresso e Senado, no qual estamos diante de criminalização da pobreza, culpabilização dos/as trabalhadores/as, regressão dos direitos, ataque aos movimentos sociais e a democracia.
Desde 2013 presenciamos a polarização dos discursos de ódio que culminam neste atual governo (2021-2022), num processo de questionamento da democracia e oposição de projetos para a sociedade. Ganha força a extrema-direita em seu discurso de ódio, violência, intolerância, racismo, misoginia, machismo, lgtbfobia, representado por um candidato claramente
despreparado política e intelectualmente que ganha as massas pelo discurso de combate a corrupção, a violência e o apelo à moral e os bons costumes. Isso prova claramente o quanto o Brasil está passando por uma fase regressiva e de nítida violação dos direitos fundamentais, onde está presente a moralização e militarização da questão social.
A defesa desta perspectiva encontra no discurso moralizador e na retomada do apelo aos valores tradicionais cristãos como orientadores do convívio social, quer seja pelo estabelecimento de regras morais de convivência ou pela materialização de tais regras na legislação e nas políticas sociais, o solo fértil para o retorno a defesa de um Estado que deve se pautar pelas “leis divinas”. E, neste sentido, as instituições e o Estado passam a nos demandar como profissão o controle, o reenquadramento e a correção moral. (CARDOSO E ALVES, 2019)
Por este ângulo, acabou não sendo mais prioridade discutir e implantar políticas públicas que versem sobre a questão do aborto e não há perspectiva de que haja sua descriminalização, tendo em vista que as propostas são regressas no concernente ao tema. Testemunha-se um enfraquecimento da democracia, pois estamos diante de um governo conduzido por elites para os mais pobres, logo, é uma utopia assim como uma completa democracia participativa.
(COHEN E FUNG, 2004)
Neste esquema os cidadãos possuem interesses e preferências sobre as opções políticas que eles pensam que irão promover seus interesses. Eles sinalizam essas preferências ao governo votando, nas eleições periódicas, em partidos e políticos, cujos programas em sua maioria raramente condizem com suas preferências. Esses sinais eleitorais geram mandatos para políticos representativos de maneira que realizem políticas para a efetivação dos interesses supracitados. De acordo com a separação dos poderes entre o Legislativo e o Executivo, as agências compostas por administradores profissionais são encarregadas de executarem tais políticas, o que gera resultados que avançam com os interesses, em tese.
Em muitos contextos, o aparato político criador de políticas de representação e administração especializada – toda a maquinaria desenvolvida sobre os dois últimos séculos para governar sem exigir demais de seus cidadãos – apresenta certas falhas agudas. Estas falhas podem ser endereçadas com mecanismos de participação e deliberação dos cidadãos.
Escondendo a segunda reivindicação cética relacionada à viabilidade da democracia participativa, experiências em governos locais têm combinados mecanismos representativos e participativos em configurações híbridas que fazem dos governos mais adequados e justos do que em sua forma pura.
Logo, tratar o aborto como crime ao invés de uma pauta política a ser incluída dentro do Congresso, viola, nitidamente a participação dos cidadãos na própria democracia.