TRATAMENTO DE LESÕES DE PELE EM RECÉM-NASCIDO: CONHECENDO AS NECESSIDADES DA EQUIPE DE
3.1 Dúvidas sobre o que se pode utilizar no RN
A avaliação e o tratamento de lesões é responsabilidade do enfermeiro, por isso, este profissional deve conhecer todos os fatores que envolvem este processo, a fim de diagnosticar corretamente e selecionar o produto ideal para a cicatrização de lesões (SALOMÉ, 2009).
As tecnologias para tratamento de lesões, principalmente o desenvolvimento de curativos especiais, vêm evoluindo nos últimos anos. Atualmente, inúmeros produtos sofisticados estão disponíveis no mercado, inclusive causando certa confusão no momento da escolha (DEALEY, 2008). Este avanço tecnológico no tratamento de feridas exige do profissional da equipe de enfermagem maior conhecimento científico para transformar a sua prática, potencializando recursos e prestando uma assistência de qualidade (SALOMÉ, 2009).
No entanto, existem poucas informações relacionadas ao uso de tecnologias com esta finalidade na população neonatal (AWHONN, 2013). Esta escassez de informações pode gerar insegurança na equipe
de enfermagem e interfere diretamente na assistência ao RN com lesão, conforme se evidencia nos depoimentos a seguir:
[...] uma questão que eu vi [...] não chegou assim. Na verdade era uma lesão extensa, grave, grau 2, uma queimadura, com sensor da oximetria, daí a gente se questionou: Ah, o que a gente pode estar utilizando? Só que quando eu vi já fazia uns dias, então a gente tem duvidas mesmo né, então o que a gente utiliza é o que o pessoal já vem utilizando há algum tempo (Hibíscus).
[...] Existem muitos produtos, daí então eles tentam usar uma coisa e outra, então o tratamento eu acho um pouco mais complicado do que a prevenção. (Begônia)
[...] se o bebe começa a apresentar tal lesão o que se faz? (Bromélia).
O curativo ideal modifica com o tempo, de acordo com a evolução da lesão. A escolha do produto depende do tipo do tecido que se encontra no leito, da profundidade, da quantidade de exsudato e da presença ou ausência de sinais de infecção local (FOX, 2011). Deve-se selecionar um produto que propicie ambiente adequado para a cicatrização através da manutenção de um meio úmido. Além disso, precisa oferecer proteção contra invasão bacteriana, ser de fácil aplicação, adaptação e remoção, proporcionar conforto ao paciente e evitar trocas frequentes (DEALEY, 2008).
Para tratar lesões de pele em RNs, a Association of Womens’s Health, Obstetric and Neonatal Nurses (AWHONN), em seu Guideline recentemente revisado (2013), indica curativos adesivos à base de silicone, filme de poliuretano, hidrocolóide ou curativo hidrogel, que podem ser usados com segurança no paciente neonatal.
No entanto, a insegurança da equipe de enfermagem quanto ao tratamento de lesões não se restringe apenas à escolha de curativos especiais, mas também ao uso de outros agentes tópicos, que se torna ainda mais difícil quando se trata de RN sob a fototerapia, como se observa nos relatos a seguir:
[...] tem a fototerapia, que hoje se tem mais cuidado que antes não tinha [...] que não pode passar nenhum tipo de óleo, AGE (Ácidos Graxos Essenciais) não pode passar nada né? (Flor de Laranjeira).
[...] teve um bebe que a gente usou pomada [...] ele estava usando pomada na região maxilar, que ele estava com candidíase, depois ele acabou fazendo, tipo uma lesão sabe, pela própria pomada, mas na região que não estava com candidíase, então assim, tem que tomar esse cuidado também né, o uso de pomadas. (Hibiscus).
O estrato córneo, camada mais externa da epiderme, é responsável pela função de barreira da pele, sua formação total ocorre entre 32 e 34 semanas de idade gestacional (IG). Assim o RN com menos de 32 semanas de IG possui estrato córneo imaturo, fino, permitindo que a água passe de dentro para fora do corpo e que substâncias aplicadas sobre a pele sejam potencialmente absorvidas, podendo causar toxicidade (FOX, 2011; ARAÚJO et al., 2012).
Emolientes podem ser usados na pele de todos os RN, inclusive estes produtos são recomendados para proteção e manutenção da função barreira da pele (AWHONN, 2013). Porém, quando o assunto é fototerapia, existe dualidade de recomendações. Embora a AWHONN (2013), anuncie que existem poucas evidências sobre a ocorrência de queimaduras ou hipertermia quando emolientes são aplicados em RN sob a fototerapia, Colvero, Colvero e Fiori (2005), orientam que pomadas ou cremes não sejam aplicados à pele deste RN, pelo risco de apresentar queimadura. Isto exposto recomenda-se cuidado redobrado na utilização de medicamentos tópicos na pele do RN, principalmente quando este estiver sob a fototerapia.
O uso de creme à base de sulfadiazina de prata é contraindicado para crianças com menos de dois meses de idade, pois possui enxofre em sua composição. O enxofre compete com a bilirrubina para se ligar à albumina. Bilirrubina circulante fica disponível para ser absorvida pele barreira hematoencefálica, com risco potencial para ocasionar Kernicterus (BREE; SIEGFRIED, 2008). RN em uso de corticosteroide tópico pode desenvolver síndrome de Cushing, atrofia dérmica, toxicidade sistêmica e supressão adrenal (AWHONN, 2013).
Entretanto, pomadas antifúngicas podem ser utilizadas no tratamento de infecções fungicas em RN de muito baixo peso. Já as pomadas antibióticas podem ser úteis no tratamento de bactérias gram- positivas, mas podem provocar aumento de bactérias gram-negativas. Além disso, podem causar sensibilização. Desta forma devem ser usadas com moderação e cautela nesta população (AWHONN, 2013).
Como enfermeiras atuantes em UTIN, enfrentamos cotidianamente dificuldades no cuidado com a pele do RN.
Compreendemos que as condições fisiológicas, aliadas à escassez de estudos nesta população, considerada como grupo vulnerável, sejam barreira para o conhecimento dos profissionais acerca do produto adequado ao tratamento de lesões, gerando dúvidas e aumentando significativamente as preocupações nos que atuam no cuidado direto ao RN.
Entretanto, entendemos que os estudos existentes devem ser considerados e compartilhados. Além disso, a equipe de enfermagem deve tomar como base sua experiência profissional e as lacunas de conhecimento para alicerçar novas pesquisas e práticas no cuidado com a pele do RN.