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D AS MODALIDADES ARGUMENTATIVAS NOS DISCURSOS DOS ADVOGADOS

3. D OS ESTÍMULOS RESPOSTAS ENTRE A P ROMOTORIA E A D EFESA

3.4. D AS MODALIDADES ARGUMENTATIVAS NOS DISCURSOS DOS ADVOGADOS

A forma como os advogados modelam e modalizam argumentativamente seus discursos se encaixa nas seis modalidades argumentativas de que fala Amossy (2008a). A modalidade demonstrativa é perceptível no processo judicial em toda sua extensão, visto que os advogados buscam, o tempo todo, obter a adesão dos presentes por meio da demonstração (supostamente) racional e também do raciocínio apoiado em provas. A leitura de passagens do romance feita pelos advogados e os argumentos construídos a partir dessa exposição configuram importante característica de seus discursos pathêmicos revestidos de racionalidade:

Assim, a partir desse primeiro erro, dessa primeira queda, ela faz a glorificação do adultério, ela canta o cântico do adultério, sua poesia, suas volúpias. Eis, senhores, o que para mim é bem mais perigoso, bem mais imoral do que a própria queda! [...] Conheceis no mundo, senhores, uma linguagem mais expressiva? Vistes alguma vez um quadro mais lascivo? 152 (PINARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 309)

Agora mostro-vos, através de uma análise fiel, que o romance, longe de dever ser apresentado como lascivo, deve ser, pelo contrário, considerado como uma obra eminentemente moral.153 (SÉNARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 343)

A segunda modalidade – a pathética –, é facilmente detectável quando os advogados visam emocionar o auditório. Cada um à sua maneira e com estratégias e objetivos distintos, Pinard e Sénard recorrem a argumentos pathemizantes, sempre em busca de tocar os ouvintes para obter sua adesão. No caso de Pinard, ele repete, excessivamente, por exemplo, os adjetivos vulgar, volúpia, adultério, dentre outros já mencionados anteriormente, para despertar emoções negativas em relação a Emma e a Flaubert. No caso de Sénard, além de tentar neutralizar as emoções negativas suscitadas pela acusação, ele busca revertê-las em positivas. Percebemos também que, ao criticar constantemente os argumentos de Pinard, Sénard busca despertar no auditório emoções negativas em relação à promotoria, visando, assim, transferir ou

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No original: « Ainsi, dès cette première faute, dès cette première chute, elle fait glorification de l'adultère, elle chante le cantique de l'adultère, sa poésie, ses voluptés. Voilà, messieurs, qui pour moi est bien plus dangereux, bien plus immoral que la chute elle-même ! […] Connaissez-vous au monde, messieurs, un langage plus expressif ? Avez-vous jamais vu un tableau plus lascif ? » (PINARD apud FLAUBERT, 1951, p. 623)

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No original: « Maintenant, je vous montre par une analyse fidèle que le roman, loin de devoir être présenté comme lascif, doit être au contraire considéré comme une œuvre éminemment morale. » (SÉNARD apud FLAUBERT, 1951, p. 663)

devolver a negatividade para Pinard, diminuir a força argumentativa do discurso do adversário e, por conseguinte, deixar para Flaubert o legado de marcas discursivas de positividade: “Haverá algo análogo no que acabo de vos ler? ‘Este algo de lúgubre que se insinua entre eles para separá-los’ não será, pelo contrário, a excitação do horror do vício?”154 (SÉNARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 341)

A terceira modalidade – a pedagógica –, geralmente ligada à metadiscursividade, pode ser vislumbrada principalmente nos momentos iniciais dos discursos dos advogados:

Senhores, ao abordar este debate, o ministério público encontra-se em presença de uma dificuldade que não pode dissimular. [...] Que fazer nesta situação? Qual é o papel do ministério público? [...] Senhores, a primeira parte de minha tarefa está realizada[...] Contei o romance. Em seguida incriminei-o [...]155 (PINARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 302-318)

Venho aqui, neste recinto, cumprir um dever de consciência, após ter lido o livro, após ter sentido exalar, com essa leitura, tudo o que há em mim de honesto e de profundamente religioso [...] Permiti-me resumir tudo isso [...] Vede, vou ler-vos o trecho incriminado e será toda a minha vingança, pois o autor precisa ser vingado.156 (SÉNARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 319-358)

Eles explicam, passo a passo, as etapas que vão percorrer, elucidam informações gerais sobre o romance e seu autor, fazem perguntas retóricas e as respondem logo em seguida, dentre outros recursos que lhes permitem atribuir uma posição superior, ou seja, a de mestre de seu discurso, a de dono da palavra. Ao proceder dessa forma, eles se colocam como os detentores dos saberes e os transmitem aos presentes – aqueles que ocupam o lugar de “aprendizes” – levando-os a uma reflexão sobre as temáticas abordadas.

A quarta modalidade, chamada por Amossy de co-construção, pode ser vislumbrada nos momentos em que os advogados dialogam, buscando esclarecer

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No original : « Est-ce qu'il y a quelque chose d'analogue dans ce que je viens de vous lire ? Est-ce que ce n'est pas, au contraire, l'excitation à l'horreur du vice que ‘ce quelque chose de lugubre qui se glisse entre eux pour les séparer’ ? » (SÉNARD apud FLAUBERT, 1951, p. 661)

155 No original: « Messieurs, en abordant ce débat, le ministère public est en présence d'une difficulté

qu'il ne peut pas se dissimuler. […] Que faire dans cette situation ? Quel est le rôle du ministère public ? […] Messieurs, la première partie de ma tâche est remplie. […] J'ai raconté le roman, je l'ai incriminé ensuite. » (PINARD apud FLAUBERT, 1951, p. 615-633)

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No original: « Je viens ici, dans cette enceinte, remplir un devoir de conscience, après avoir lu le livre, après avoir senti s'exhaler par cette lecture tout ce qu'il y a en moi d'honnête et de profondément religieux. […] Permettez-moi de résumer tout ceci. […] Tenez, je vais vous lire le passage incriminé, et ce sera toute ma vengeance. J'ose dire ma vengeance, car l'auteur a besoin d'être vengé. » (SÉNARD

alguns mal-entendidos, retomando a fala um do outro, co-construindo, assim, respostas para as questões levantadas:

Se tivéssemos dito isso, com que raio não teríeis tentado abater-nos, Sr. Advogado Imperial! [...] Vedes, portanto, Sr. Advogado Imperial, o quanto é temerária – para não usar uma expressão que por ser exata, seria mais severa – a acusação de que havíamos tocado em coisas santificadas. [...]157 (SENARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 319-358)

Pelo fato de Sénard ser o segundo a discursar, todo o seu texto se propõe como um diálogo, com respostas pontuais a cada polêmica levantada pela promotoria. Ainda que o gênero processo judicial, a princípio, não preveja, Pinard se sente no direito de replicar algumas das colocações de Sénard, interrompendo o discurso do colega: “Não, eu o indiquei. [...] Não disse que esse trecho era lascivo. [...] Não citei nenhuma dessas frases. [...] Não disse que se encontrava aí.”158

(PINARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 328, 333, 342, 348)

A modalidade negociada não é encontrada de maneira significativa no processo judicial, pois os advogados não buscam uma solução comum para o problema. Apesar de ocuparem posições divergentes e conflituosas, como é descrita em tal modalidade por Amossy (2008a), não há a busca de um consenso, visando o bem de todos. É compreensível a ausência da modalidade negociada no processo judicial, tendo em vista a especificidade desse gênero discursivo. Se, por um lado, temos a promotoria que quer condenar Flaubert, por outro, temos seu advogado que quer inocentá-lo. Não há como chegar a um acordo que satisfaça ambas as partes.

A sexta e última modalidade – a polêmica –, também é vista em todo o processo judicial. Os advogados, através de argumentos contrários, procuram defender seus pontos de vista, em uma confrontação intensa. Pinard e Sénard se mostram em desacordo a maior parte do tempo e tentam obter a convicção do júri, desacreditando o opositor e atacando as teses adversárias:

157 No original: « Si nous avions dit cela, de quelle foudre n'auriez-vous pas tenté de nous accabler,

Monsieur l'Avocat impérial. […] Vous voyez donc, Monsieur l'Avocat impérial, combien est téméraire - pour ne pas me servir d'une expression qui, pour être exacte, serait plus sévère - l'accusation que nous avions touché aux choses saintes. » (SENARD apud FLAUBERT, 1951, p. 634-681)

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No original: « Non, je l’ai indiqué [...] Je n’ai pas dit que ce passage fût lascif [...] Je n’ai cité aucune de ces phrases-là [...] Je n’ai pas dit qu’il y en eût là-dedans. » (PINARD apud FLAUBERT, 1951, p. 645, 651, 662, 668)

Protesto energicamente contra este título dado pela promotoria à obra de Flaubert:

História dos adultérios de uma mulher de província. [...] O Ministério Público

irrita-se, e creio que se irrita sem razão [...] Seria conveniente olhar um pouco mais longe [...] O Sr. Advogado Imperial não leu tudo. Declaro que nada é mais falso do que o que se disse há pouco sobre o colorido lascivo. O colorido lascivo! Onde tomastes tal expressão? [...] Quero responder às admoestações do Sr. Advogado Imperial.159 (SENARD apud FLAUBERT, 2007b, p. 319-358)

Vemos nesses excertos que, enquanto Pinard, por ser o primeiro a discursar, investe contra o romance Madame Bovary e seu autor, Sénard, por sua vez, ataca recorrentemente o discurso da promotoria, contra-argumentando, ponto a ponto, cada uma das acusações de Pinard. Isso significa dizer que a modalidade polêmica é mais facilmente encontrada no discurso da defesa.