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9 D ISPUTA ENTRE AS CRIANÇAS E A AGRESSÃO AO NOME

No documento M ORENINHO ,N EGUINHO, P RETINHO (páginas 42-47)

A educadora Ana Célia da Silva, em seu livro A discriminação

do negro no livro didático, discutindo como a escola, por meio de conteúdos de livros que adota, silenciosamente atua como agente propagador do racismo, destaca:

“Como acontece no cotidiano, a criança negra quase nunca tem nome, ela é denominada por apelidos ou pela cor da pele, assim como o é a maioria dos adultos e velhos” (Silva, 1995, p. 66-67).

É conhecida a idéia de que criança repete o que adulto fala e faz. No campo da discriminação racial essa noção tem sua validade, pois

na escola, por exemplo, os valores transmitidos em casa são veicula- dos durante a aula e nos intervalos. Uma criança branca cujos pais são racistas tenderá a ser também racista, sobretudo em seu período inicial de aprendizado das relações sociais, quando a imitação é uma das for- mas privilegiadas de adquirir conhecimento. Em sua relação com as demais crianças certamente manifestará a agressividade pressuposta no comportamento de seus pais, seja implícita ou explicitamente.

Há professores que não coíbem tal manifestação, especialmente quan- do ela é silenciosa, apesar de seu caráter de corrosão. São pessoas que imaginam a sua conivência completamente fora do alcance da crítica e da punição. Algumas, por serem também racistas, sentem-se contem- pladas em sua criminalidade através da ação preconceituosa de uma criança contra a outra.

No campo educacional, desfazer noções de intolerância, que ao longo dos anos foram introjetadas na mente das crianças, é a grande missão do professor. Qualquer conteúdo didático do currículo não su- pera a importância da ação de corrigir o rumo dos alunos. Professor é, sobretudo, professor de vida.

Entretanto, surge a pergunta: como se pode ensinar o que não se sabe? Quando um professor, ele mesmo, costuma chamar ou referir- se a seus alunos empregando expressões como “moreninho”, “ne- guinho”, “pretinho”, ou outras variantes, é possível que ele exija um comportamento diferente de seus alunos? Serenamente, a resposta é: não! Superar seus próprios limites e dificuldades de relacionamento (e chamar alguém pela cor da pele ou traços étnicos é uma dificul- dade, se não for uma doença) e fazer desse propósito evolutivo um constante aprendizado são o caminho dos que se pretendem felizes, e o professor, pela responsabilidade formadora que tem, não pode ficar alheio a esse propósito. À sua volta, centenas de crianças estão aguar- dando as indicações que as municiem não apenas de conhecimento técnico, mas, sobretudo, humano, para seguirem em frente ousando sonhar. Evidentemente, o relacionamento entre elas é mediado pelo professor dentro da sala de aula.

Quando a Lei 10.639, de 9 de janeiro de 2003, foi assinada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, o ganho para a socie- dade brasileira, através da melhoria do currículo escolar, com a determinação para que seja ensinada a “História e Cultura Afro- brasileira”, não prescinde do cuidado que a direção das escolas e seu corpo docente devem ter com o relacionamento interpessoal de professores, alunos e funcionários. Não se pode descuidar de algo tão fundamental para que a produção do saber possa efeti- vamente ocorrer a contento.

Sabemos que a evasão escolar, o pouco aproveitamento de milhões de alunos, além das condições que podem ser detectadas material- mente também são causados pelo tipo de relacionamento que a escola promove em seu meio. Ora, uma criança que, no meio em que vive, nem sequer tem direito a ser chamada pelo seu nome como pode ter entusiasmo para continuar? Uma criança que sofre a rejeição dos co- legas porque é afro-descendente e traz esses traços bem visíveis em seu aspecto físico como pode ver afl orar todo o seu potencial criativo e intelectual em um ambiente hostil?

A omissão da escola tem contribuído para a perpetuação das in- justiças raciais, por contribuir com crianças e professores algozes de crianças e jovens negros.

10. P

ROFESSOR ENQUANTO UM DECORADOR DE NOMES

Quando nossa relação diária se dá com um grande número de pes- soas e é permanente durante um período, um dos nossos desafi os é decorar o nome de cada um daqueles com quem convivemos.

Muitas pessoas desenvolvem técnicas particulares de associação, outras apelam para algum manual de relações interpessoais que as auxiliem nessa tarefa.

O professor, em especial, é um daqueles profi ssionais que chegam a se relacionar diária e diretamente com centenas de pessoas.

Em nosso primeiro capítulo, demonstramos o elo entre a voz que chama alguém e a produção de um estado de alerta em quem é chama- do. Podemos refl etir: o nome é sagrado (lembremos as várias formas de batismo) principalmente porque permite este momento especial de nos reconhecermos uns aos outros, momento de evocação.

Quando, diariamente, o professor faz a chamada em sala de aula, ele estabelece com cada um de seus alunos o instante mágico do reconhe- cimento: presente! Não apenas passado ou sonho de um amanhã. Ao reconhecer seu nome e dizer que ali está, o aluno faz viva a sua identidade pessoal que, seja a que pretexto for, não deve ser vilipendiada em outros momentos de vida na escola nem mesmo fora dela. Com a chamada, a sala de aula reacende as individualidades todas, tornando iluminado um mosaico de diversidade humana. É a oportunidade do reconhecimento do indivíduo diante de seu grupo.

Daí que, ao reconhecer o aluno pelo nome, o professor dá mostras de não apenas ter boa memória, mas, sobretudo, de ter espírito elevado, mais ainda se souber, além de guardar os nomes, decorá-los com bons adjetivos.

Decorar é também colorir, enfeitar. E quando se trata de nome, o resultado é um sorriso que desabrocha no rosto de alguém que se sente valorizado e reconhecido.

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No documento M ORENINHO ,N EGUINHO, P RETINHO (páginas 42-47)

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