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Da antropologia visual a uma antropologia do som?

No documento A CIDADE DOS SÍFRAGOS (páginas 86-89)

ARQUEOLOGIA SONORA, ANTROPOLOGIA AUDIOVISUAL

3. Antropologia visual, Arqueologia do Som e da Escuta

3.2. Da antropologia visual a uma antropologia do som?

O epistema que daqui pretendemos arremessar em direção às metodologias de pesquisa em antropologia sonora, pode ser percebido no enunciado que diz que o cérebro recebe a informação como um todo quer venha dos olhos, ouvidos, membros, pele, nariz, matriz emotiva… ou simultaneamente de todas estas localizações, e é processada por todo o cérebro havendo depois lugar a processamentos específicos em áreas mais especializadas. A informação acaba por se unificar em uma unidade, que corresponderá à organização interna das sensações externas, num todo, que poderá constituir o conhecimento, que decorreu da experiência sensorial externa, mas também da do estabelecimento de novas representações culturais internas.

As operações podem ter, portanto, passos cerebrais percetivos, recetivos e expressivos, a mais espontânea reação ou crítica que então surja, será um momento expressivo externo (Fonseca, 1982). O dado antropológico obtém-se, depois de tentar explicar a razão por que é que algo de tão individual obedece a processos sociais específicos.

A escuta não pode ser definida apenas um conjunto de sensações auditivas, ao contrário do que refere Rodaway (1994), escuta é quando por alguma razão, a atenção centra o dispositivo auditivo em um som ou sonoridade particular. Neste passo a audição será composta apenas por sensações sem um sentido muito definido. Esse conjunto de sensações auditivas, depois de organizado constituirão perceções que podem já apontar para objetos mais ou menos complexos. As perceções são aqui entendidas como sensações organizadas, a perceção organiza a sensação, não prescinde dela, como parece subentender-se do discurso de Rodaway. Por sua vez, estes objetos mais ou menos complexos, serão associados a algo, geralmente constituído por experiencias anteriores

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correlatas, e que depois de estruturadas, constituirão para aquele momento, a representação interna do objeto ouvido nesse espaço sonoro, este, já no plano de consciência cognitiva. Este elemento cognitivo pode adquirir um significado social e ter sentido cultural. A este ponto da progressão, a audição, pode vir a regular outros comportamentos: cognitivo, social, afetivo ou de um qualquer esquema de fruição. A audição contínua pode não contar com momentos de escuta, o que não quer dizer que não se possa ter consciência desses estados auditivos. Existem porém no domínio da arte exceções a isto tudo. Vincent Van Gogh, por exemplo, declarava-se capaz de ouvir as cores, o que, de algum modo, estará em concordância com Alfred Tomatis (1987) que concluiu que o ser humano ouve com o corpo todo.

Num breve parêntesis, acrescentamos uma apreciação daquilo que no plano Antropológico se pode chamar de “perturbação pelo som dos processos da atenção” e consequentemente da atividade inteligente do homem. Embora em termos gerais raramente estejamos de acordo com Rodaway, ele e outros autores, subdividem as perceções auditivas da audição em contínua e as da escuta, em audição passiva e audição atenta (Rodaway,1994), o que nada nos esclarece sobre o esforço que fazemos para perceber aquilo que com estas centrações pretendemos definir. Isto é, qual a natureza e o funcionamento do preciso ponto de contacto entre a sonoridade urbana e os cidadãos, enfim, para deixar melhor sublinhado, poderíamos chamar-lhe “a célula das sinapses

sociofónicas", ou seja e em sinopse, o potencial de confronto da sonoridade urbana produzida no exterior, impessoal e incontornável, com o fluxo da atividade mental do homem nas suas diversas ocupações.

Segundo William James existe o “The Stream of Consciousness”, os pensamentos no

cérebro humano fluem ininterruptamente ao longo da vida (James, 1892). Lacan (1984) conclui que uma cadeia mais ou menos complexa de significantes constitui o sentido que continuamente nos impregna o pensamento, o ser humano deixa-se determinar completamente pelo sentido complexo contido no último elo de cada uma dessas cadeias no momento em que é atravessado por ela, momento em que, nessa base, a atenção e a consciência se correlacionam constantemente. Assim o pensar confunde-se (com o ser que é reconhecido pelos outros) e também com o próprio viver, o que vai ao encontro da máxima cartesiana cogito ergo sum.

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Ora, o viver, ou melhor dizendo, o modo sistémico, como nos vai sendo possível mobilizar as nossas capacidades, no seu conjunto consideradas, para a experiência do quotidiano, pode sofrer alterações com variadíssimos fatores, sendo o som o mais presente e um importante suporte da "fieira do simbólico" que o sujeito segue.

A função auditiva, sob forma de escuta, de fruição ou consentida, ou os restantes tipos do ouvir mas em regime de compulsividade, acelera, retarda ou bloqueia, como vimos, a nossa capacidade de mobilização das capacidades para o pensamento e para ação. Assim a natureza sistémica do fluxo da referida corrente ininterrupta de William James (1892), da cadeia de significantes equivale ao equilíbrio interno do indivíduo, pelo jogo dos pensamentos com que se expressa e que podem ser forma de interação do eu com o meio. Assim o som poderá por vezes ser o bug10 na cadeia de significantes da fieira simbólica

nos pensamentos.

[…] Lacan prossegue assim pertinazmente a sua demonstração de que a ordem do significante, fundadora do sujeito humano, o desaloja, ao mesmo tempo, do lugar de rei que o pensamento clássico lhe atribuía. Citemos: “ O que Freud nos ensina (…) é que o sujeito segue a fieira do simbólico; mas aquilo que tendes aqui é ainda mais impressionante: não é apenas o sujeito, mas os sujeitos, tomados na sua intersubjetividade, que entram na fila (…) e que mais dóceis que carneiros modelam o seu próprio ser pelo momento da cadeia de significantes que o percorre. Se aquilo que Freud descobriu e redescobriu, num crescendo cada vez mais aumentado, tem um sentido, é porque o deslocamento do significante determina os sujeitos nos seus atos, no seu destino e na sua sorte, não obstante os seus dons inatos e a sua aquisição social, sem atender ao carater ou ao sexo, e porque, quer queira quer não, tudo aquilo que pertence ao dado psicológico seguirá o andamento do significante com armas e bagagens.” […] (Akoun et al. 1984, p. 168).

É intenção desta investigação conduzir o texto de modo a que fique percetível e racionalizável, a comparação do homem primordial, no que diz respeito à importância da escuta do seu meio para o desenvolvimento e para o seu equilíbrio, comparando com o homem do Oceano Universal Pansonoro Protomoderno ou Atual, na importância da mesma relação da escuta do meio com o seu equilíbrio e desenvolvimento. Ao mencionarmos homem queremos dizer humanidade e também, queremos significar o homem em todas as suas fases cronológicas de desenvolvimento: feto, infância, adolescência

juventude e adultícia.

Estas questões são levadas em consideração ao longo dos estudos da arqueologia sonora que pretende possibilitar alguns passos epistemológicos para um esclarecimento da sonoridade urbana atual como revelador dos mecanismos da sensibilidade auditiva e

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também da produção acústica. Esta reflexão não pretende afastar-se muito do que se entende por ecologia (Schafer, 1977).

Raymond M. Schafer, maestro Canadiano, defendeu o conceito de soundscape, paisagem sonora. R.M. Schafer promove considerações sobre o som e o silêncio. Fala dos sons naturais, dos sons da atividade humana, como quem pretende inferir que o mundo sem eles estaria incompleto e fala das metáforas musicais com o empenho de quem quer que o dia-a-dia conte com elas. Diz do som ambiental mesmo da sonoridade musical e até das suas composições, como sendo muito influenciadas pelo desenvolvimento tecnológico do homem ao longo dos anos (Schafer, 1977).

No documento A CIDADE DOS SÍFRAGOS (páginas 86-89)