A PRÁTICA SOCIAL REVISITADA
2 UMA ESPÉCIE DE REGRESSO AO ARTESANATO
1.1 O Trabalho de Campo
1.1.3 Da construção do plano de análise
Buscamos, aqui, esboçar como veio se dando a possibilidade de análise neste estudo. A construção de um plano de análise não se dá, como sabemos, em um momento único, ele vai se configurando com o próprio objeto. Contudo, torna-se possível, a posteriori, pensarmos como, no processo, esse olhar intencional veio sendo moldado por supostos que apontam para outras interlocuções, além daquelas teóricas priorizadas, o que certamente não tem passado despercebido aos leitores.
Vamos, então, compartilhar de maneira breve a trajetória recente que, ao nosso ver, possibilitou a construção das principais categorias de análise aqui empregadas: ação
coletivo-educativa em saúde; tarefa mediadora; diálogo; hegemonia.
Desde a ação que motivou este estudo, em 1997, foram incontáveis os encontros que, possibilitando o necessário estranhamento do vivenciado,nos desafiaram à busca e à construção dos referentes teóricos a partir das obras já citadas. Daí, tais encontros se destacarem no quadro das determinações da visão atual da pesquisadora sobre o seu objeto de estudo. Só para citar alguns, poderíamos lembrar o profícuo encontro, ainda em 1997, com articuladores do movimento da Educação Popular e Saúde, encontro que entendemos estreitamente associado à concepção da ação coletivo-educativa em saúde, tal como veio sendo construída nesta pesquisa, isto é, como uma ação política. Esta categoria veio sendo pensada na interface do conhecimento historicamente elaborado, inscrito nos sistemas ideológicos instituídos, com os saberes heterogêneos que constituem a ideologia do cotidiano. Esta interface, constitutiva de toda elaboração do conhecimento, emerge no campo da Saúde Coletiva como uma preocupação com maior visibilidade nas reflexões sobre as práticas ditas de “educação e saúde” e “educação popular e saúde”, assim como nas perspectivas emancipatórias da formação de profissionais da Saúde Pública exercitadas atualmente.
Nessa direção, vemos o encontro com novas possibilidades para o ensino das práticas educativas em saúde, por exemplo, em grupos operativos, tal como tivemos a oportunidade de vivenciar com professores da pós-graduação em Saúde Pública da
Operativo de Enrique Pichon-Rivière à luz do referente teórico produzido no processo desta pesquisa, motivou um investimento reflexivo insuspeitado ao iniciarmos a investigação, o que veio a se revelar determinante na identificação da tarefa mediadora que moveu a experiência em estudo e, em decorrência, este trabalho.
Contudo, devemos ressaltar que as questões emergentes nessa interlocução, referidas especificamente à psicodinâmica grupal, ainda que pertinentes, não foram enfrentadas no âmbito dessa pesquisa, por entendermos que a elaboração requerida, pela sua relevância e complexidade, demanda e merece um tratamento que foge ao plano e ao escopo do estudo que ora empreendemos. Isto não significa, entretanto, que tenhamos nos afastado definitivamente de tal desafio. Nesta direção, só nos foi possível esboçar, aqui, algumas tímidas aproximações dos processos relatados com a teoria bakhtiniana.
Assim, a noção de tarefa mediadora assumida neste estudo foi construída na interlocução com Chauí (1980) e com a PHC, de quais contribuições incorpora a compreensão de diálogo pedagógico, tal como discutimos em outro capítulo.
Por sua vez, os encontros com os interlocutores do bairro Alto das Pombas, nos vários momentos desta investigação, alteridade constitutiva do trabalho, às vezes marcada neste texto, às vezes não, foram desafiantes no sentido da busca de respostas a muitas questões inquietantes, como, por exemplo, a da necessária superação da visão mecanicista da linguagem que insiste em se interpor entre nós, profissionais de saúde, e o entendimento dos limites das nossas práticas educativas. Assim, a esses encontros associamos a nossa disposição de mergulhar, ao modo dos neófitos, nos estudos bakhtinianos, o que permitiu a construção da categoria diálogo aqui empregada.
Encontro, ainda, com nossa própria história de vida resignificada nesse “cárcere
reflexivo”43, no qual os diálogos com intelectuais comprometidos com seu papel
(trans)formador – muitos deles ainda diante do enfrentamento dos “rituais de passagem” da pós-graduação – contribuíram, nesses anos de especial atenção aos desafios políticos e sociais colocados pela modernidade capitalista ao nosso país, para que nos apropriássemos da possibilidade da leitura compartilhada, até mesmo do prosaico jornal diário.
43
Referência à fala do Professor Dr.Guilherme Toledo durante o exame de qualificação da pesquisadora, em 2000.
Tais desafios reflexivos nos guiaram à categoria hegemonia, a qual, ao se mostrar suficientemente produtiva na compreensão de diversas relações que determinam o espaço estudado aqui, como sendo do conhecimento interessado, veio, com as demais categorias, possibilitando-nos aspirar à concretização e à explicitação de uma configuração possível desse espaço.
Por fim, ao traçarmos o esquema analítico para a leitura dos documentos, sejam os construídos no processo ou os já instituídos, nos reportamos ao Dialogismo de Campo, tal como apresentado por Amorim (2001: 258-60), do qual tomamos os seguintes princípios e conceitos que passamos, também, a considerar na abordagem do nosso objeto:
O princípio do intervalo que questiona a transparência da linguagem expressa,
muitas vezes, na idéia de fusão do pesquisador e demais sujeitos da pesquisa e coloca a necessidade de problematizar-se a palavra, o que impõe que a análise do que é dito não se restrinja à frase e à significação, mas se volte ao enunciado e ao sentido;
O princípio da interlocução segundo o qual não é possível analisar a palavra do
outro enquanto enunciado sem levar em conta quem é o seu interlocutor. Sobre o que, assim, se expressa Amorim (2001: 260): “Tomar o que o outro diz sem levar em conta a
quem ele diz equivale a reduzi-lo à condição de objeto, assim, impõe-se identificar quem fala a quem, de quê.”
O conceito de contexto de enunciação que é caracterizado de acordo com interlocutores presentes (e interlocutores priorizados); com a situação no tempo, i.e., o histórico do projeto e da prática analisada; com a situação no espaço (institucional ou não) onde o encontro é realizado e disposição espacial dos interlocutores; com gêneros discursivos44 dominantes. E o conceito de campo enunciativo que se refere a formas enunciativas que, ao se repetirem, conferem sistematicidade à situação singular de cada encontro (AMORIM, 2001: 260).
Buscando manter a coerência com esta orientação, também na leitura dos documentos editados demos atenção aos interesses implicados na sua produção, divulgação,
44
Gêneros discursivos aqui entendidos como tipos relativamente estáveis de enunciados. Por exemplo: a réplica cotidiana; o relato familiar; o gênero técnico-científico; o gênero sócio-político etc. (BAKHTIN, 2000: 279).
acessibilidade, buscando caracterizar seu público alvo, redatores e editores.