Processo delitivo e género
4.6 Da continuidade do processo de transgressão à desistência
O sentido da trajectória de vida que o indivíduo vai construindo como sua, decorre do resultado da sequência dos diversos eventos que vão ocorrendo ao longo do seu ciclo de vida, por relação às suas estratégias de acção. Depende assim, não só das características da sua constituição biopsicológica, mas também do posicionamento social que ocupa na organização da estrutura do sistema social; além dos condicionalismos em torno dos quais vai desenvolvendo o seu quotidiano e tomando decisões que lhe influenciarão o seu curso de vida. A aparente ruptura com o normativo, provocada pelo comportamento anti-social e em particular pelo crime, constitui uma das possíveis manifestações do processo de adaptação do indivíduo aos condicionalismos sócio-culturais e económicos da sua existência social.
Thornberry (2005) refere que a manifestação de comportamentos de natureza criminal não depende de um inelutável destino, ao qual o indivíduo não pode escapar. Efectivamente, a configuração e o sentido da sua trajectória dependem do modo como interage com as experiências que vão ocorrendo no desenvolvimento do seu ciclo de vida, como reage, integra, organiza e decide em função do capital ético-moral que ao longo do seu percurso de vida vai erigindo como referencial da sua conduta. Daí que o esboço das diversas configurações e sentidos trajectoriais do indivíduo dependem do que Gottfredson e Hirschi (1990) entendem como incorporação diferenciada de certo grau de autocontrolo sobre a sua conduta e como tal, da propensão para delinquir.
A esse respeito Gottfredson (2005) sublinha que a capacidade de decisão do indivíduo referida por Sampson e Laub (2005) é, em certa medida, compatível com a teoria do autocontrolo defendida por si e por Hirschi (1990), pois o facto de sobre o sujeito se exercer um nível baixo de controlo, não constitui de forma determinista e inelutável um mecanismo gerador de comportamentos delinquentes. Tudo depende da capacidade de decisão do indivíduo e, como tal, da sua predisposição para cometer o acto. Tanto a eventual propensão para delinquir, decorrente do sistema de disposições do indivíduo, como a ocorrência de determinados eventos na sua vida, constituem
dimensões que se interpenetram, podendo, desse modo, determinada predisposição afectar o desenvolvimento de certo evento (ex. o sucesso ou o insucesso escolar) e o resultado de tal, influenciar, tanto o capital de reacção do indivíduo, como a ocorrência de outros eventos (ex. a capacidade ou a incapacidade de se realizar profissionalmente), afectando assim, de forma diferenciada, as possibilidades de envolvimento na actividade criminal (Gottfredson, 2005).
Dessa forma, e na esteira dos estudos desenvolvidos por Thornberry (2005), durante a fase de infância apenas uma pequena percentagem da população tende a manifestar comportamentos anti-sociais sérios e problemáticos, com repercussão jurídico-penal. Os indivíduos que desenvolvem esse tipo de comportamentos, tendem a persistir na delinquência e a projectarem trajectórias desviantes mais longas, para além da adolescência, e ao longo da vida adulta. Conforme temos vindo a referir, tal facto dever-se-á à interacção estabelecida entre determinadas características pessoais, certo posicionamento na estrutura social, condicionador do sistema de oportunidades, e a deficits de supervisão sobre o processo de desenvolvimento do indivíduo.
Todavia, é a fase de adolescência que representa maiores riscos no sentido do desenvolvimento de comportamentos anti-sociais de alguma gravidade e repercussão social e jurídica. É uma fase desenvolvimental, na qual o indivíduo busca incessantemente erigir e afirmar a sua identidade social, mediante a demanda de maior autonomia e independência face à autoridade dos adultos e à supervisão exercida pela família, aproximando-se dos seus grupos de pares, no seio dos quais anseia ser aceite, adquirir estatuto e reconhecimento. É no decurso desse processo, de eventual enfraquecimento do vínculo com os valores convencionais, que o sistema de disposições do indivíduo poderá encontrar-se mais vulnerável à influência de valores e práticas desviantes, buscando, mediante a prática de condutas transgressivas, a conquista no seio do grupo de pares, o estatuto, a distinção e a valorização da sua nova identidade, assim como o reconhecimento por parte dos seus pares. Desse modo, o período mais propício à manifestação de comportamentos delinquentes situa-se entre o final da adolescência e a entrada na fase adulta.
LeBlanc (2003) refere que para a maioria dos adolescentes que experimentaram a desviância, e em particular o comportamento delinquente, o mesmo não passou de uma das muitas experiências momentâneas, tratando-se por isso de um epifenómeno da adolescência. É uma conduta, em certa medida, comum ao capital de
experiência acumulado pela maioria dos jovens, geralmente limitada à fase de adolescência, sendo por isso considerada benigna, no sentido de que só uma pequena parcela dos adolescentes chegam a cometer crimes graves e a desenvolver trajectórias criminais que se prolongam para além da fase de adolescência.
Nesse sentido, a taxa de participação tende a aumentar na fase de adolescência, enunciando um efeito de escalada, para de seguida, a partir da fase de entrada na vida adulta, declinar (Ouimet e LeBanc, 1993; Warr, 1993). A este respeito importa referir que na concepção de Moffitt, Caspi, Harrington e Milne (2002), a verdadeira fase adulta começa, hoje em dia, mais tarde, a partir dos 25 anos, prolongando-se os efeitos da adolescência até essa idade. Todavia, no que respeita à manifestação de comportamentos delinquentes mais graves, Cusson (2003) afirma que é no final da fase de adolescência que os indivíduos tendem a enunciar com maior intensidade esse tipo de comportamentos, inflectindo-se essa tendência só no início da faixa etária dos 40 anos.
De uma forma geral, tanto a participação, como a frequência no comportamento delinquente tendem a atingir o expoente máximo de expressão no decurso da fase da adolescência, sendo que, tanto a prevalência como a média da frequência desse tipo de comportamentos tende a decrescer no final da adolescência, início da fase da vida adulta. Ocorre assim um fenómeno de desaceleração, conducente à desistência da prática de comportamentos delinquentes.
Segundo Bushway, Thornberry, e Krohn (2003) a desistência não é um evento estático. É um processo dinâmico que ocorre ao longo da vida, no decurso do qual determinados acontecimentos suscitam o propósito e a tomada de decisão de cessar a actividade delinquente. A desistência pode manifestar-se de forma gradual ou abrupta, durante a fase da juventude ou numa idade mais avançada. Desse modo, o estudo da desistência, numa perspectiva desenvolvimental, tem como objectivo, para além da identificação do momento da interrupção, proceder à destrinça entre (1) a dinâmica do processo de transgressão e o processo de ajustamento do comportamento às convenções normativizadas; (2) indivíduos que continuam o processo transgressivo, daqueles que ao fim de determinado período de transgressão param; (3) assim como a determinação, se a mudança de comportamento é de longa duração, intermitente ou transitória para outro tipo de comportamento transgressivo.
Os eventos que se inscrevem na vida dos indivíduos e que agem como factores de desistência, são em regra, aqueles que se encontram associados aos já referidos factores que protegem o indivíduo do comportamento delinquente, que se repercutem num reforço do autocontrolo e que contribuem para uma melhor inserção e maior adaptabilidade do indivíduo às convenções da sociedade. São, como sublinham Ouimet e LeBlanc (1993), mudanças suscitadas por determinados acontecimentos estruturantes da vida convencional, que poderão propiciar o abandono da trajectória criminal.
Sampson e Laub (2005) referem que existem eventos que funcionam como pontos de mudança na trajectória do indivíduo, no sentido de contribuírem para o processo de desistência. São os casos, entre outros, do casamento, do serviço militar, do investimento na escola e no trabalho e da mudança residencial.
Para além da acção de factores decorrentes da relação que o indivíduo vai estabelecendo com o mundo convencional, alguns autores referem acontecimentos decorrentes da prática delinquente, que poderão despoletar o processo de desistência. É o caso da acção do sistema de controlo e repressão – o sistema policial e judicial – sobre o comportamento delinquente. Na opinião de Ouimet e LeBlanc (1993) o encarceramento poderá suscitar o amadurecimento da decisão de desistir do crime26. A este respeito Sampson e Laub (2005) referem que qualquer mecanismo de desistência terá incluso, embora de forma diferenciada, situações que despoletem uma ruptura com o passado. Eventos que proporcionem em simultâneo, tanto formas de supervisão da conduta, como novas oportunidades de inserção do indivíduo na normatividade, e que suscitem a possibilidade de ocorrerem alterações estruturais no quotidiano e no plano da identidade do indivíduo. Conforme sublinha Thornberry (2005), a desistência não é determinada, nem pela idade, nem pela precocidade no cometimento de crimes, constitui-se mais como o resultado de um processo de mudanças estruturais que vão ocorrendo ao longo da vida.
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No âmbito do estudo de trajectórias, Eggleston, Laub e Sampson (2004) referem que há que ter algum cuidado na determinação do momento da desistência, na medida em que tanto os períodos de cumprimento de pena, como a situação de óbito, são condições que podem influenciar a configuração das trajectórias criminais, principalmente nas tipologias trajectoriais caracterizadas por períodos mais longos e de maior incidência no crime. Tais factos referem-se a eventuais indicações de falsas desistências no crime, quando o que ocorreu foram o óbito ou o cumprimento de pena. Tais factos, quando considerados sem que se proceda à sua confirmação, poderão constituir-se em factores de enviesamento da configuração desenvolvimental das trajectórias.
Face ao exposto, as análises longitudinais permitem identificar e conhecer a extensão das continuidades e descontinuidades do comportamento delinquente entre indivíduos que delinqúem, distinguindo-os daqueles que se comportam conforme ao estabelecido na normatividade (prevalência), analisando os seus comportamentos ao longo da idade (frequência). De que forma determinado evento sucede a outro e como é que determinada variável, neste encadeamento de eventos que se sucedem, se constitui num elemento preditor de determinado sentido trajectorial?
Tal como refere Blumstein (2005) a mais-valia dos estudos longitudinais centra-se no facto de, através desta metodologia de recolha de dados, se tornar possível de forma contínua, seguir o processo desenvolvimental de certa especificidade comportamental do indivíduo, ou grupos de indivíduos, ao longo do tempo. Torna-se possível identificar a sequência de elementos que compõem o agir delinquente, proporcionando dessa forma conhecimento aos poderes públicos para que possam equacionar estratégias de intervenção, que visem a tomada de medidas de carácter, quer preventivo, quer reactivo.
Deste modo, procuraremos, no presente estudo, destrinçar as variações trajectorais no interior dos universos masculino e feminino, assim como os elementos que distinguem e aproximam ambas as categorias de género, de forma a produzirmos algum conhecimento, não só sobre o quadro geral da criminalidade na sociedade portuguesa, como também, e acima de tudo, no modo como essa criminalidade se inscreve ao longo do tempo nas diversas fases do ciclo de vida dos indivíduos.