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4.2. Expressões ideológicas atuais

4.2.6 Da destruição da totalidade à alternativa social

As formas ideológicas do capital têm sua história. O irracionalismo tão amplo em suas características possui seu histórico e suas especificidades. Na Guerra Fria se revestia de anticomunismo. Na atualidade, sua manifestação mais evidente é a desenfreada luta pela destruição da totalidade.215 Esta é necessária para o capital. Com os novos mercados, novas sociedades industriais, consumidores e trabalhadores envolvidos no sistema produtor de mercadorias, o capital terá que controlar das várias maneiras possíveis essas forças sociais que são a sua reprodução, mas que só o são quando controladas. A ideologia é uma das formas de controle social junto com as formas políticas que se viu no capítulo anterior. Em uma totalidade mais complexa e mais determinada a possibilidade de se produzir outra totalidade, porém alternativa, revolucionária e transformativa deve ser eliminada. Escamoteia-se o real, afirma-se que o real é o fragmento e assim impede-se a compreensão de uma totalidade transformativa, quer dizer, a ação humana na transformação da realidade. Os caminhos a serem usados nessa transformação, como buscar os elementos que levem à alternativa ao capital, isso é um outro assunto que no momento não é hora nem se tem a possibilidade de responder. Procura-se apenas constatar o papel da ideologia como consciência social de classe que difunde falsa consciência e a acentua na forma de uma determinada ética, modo de vida, cultura e ideologia: a ética do capital

global que é privatista, a vida constituída como a busca da solidão do eu-mercadoria.

A ideologia da destruição da totalidade tem justamente como função impedir a percepção social desta e a construção histórica de uma nova totalidade social por meio da ação de classe.

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Um acréscimo histórico é interessante nesse ponto. A ideologia da Guerra Fria é manifestamente econômica e não

geopolítica. Isso significa dizer que cabe um peso de fato sobre a expansão do capital, sobre a sua reprodução e o

complexo industrial-militar, enfim, sobre a economia mais do que as questões geopolíticas suscitadas. Poder-se-ía dizer que a bipolaridade do mundo e sua geopolítica foram a mediação entre o econômico e o ideológico? Não houve mediação. O ideológico e o geopolítico foram mutuamente determinados pelo capital e sua necessidade de se reproduzir e continuar se reproduzindo como o fizera durante a II Guerra. Para isso era necessário inventar uma guerra contínua, mas “ordenada”. Com isso a reprodução do capital seria garantida sobre as bases do complexo industrial-militar.

Essa é a resposta à pergunta formulada do porquê a ideologia atual concentrar-se no fragmento e na destruição da totalidade: impedir a ação transformativa em uma totalidade que é mais complexa, mais concreta, mais determinada e, portanto, na qual os efeitos do descontrole produtivo são mais evidentes e devastadores.

O controle do capital sobre a sociedade deve se expressar de múltiplas maneiras. As instituições da sociedade capitalista (Estado, escola, empresas, imprensa, igrejas, etc.) são formas desse controle. Mas também o são a ideologia e seu poder. Poder tanto maior quanto maior as formas que compõem seu conteúdo (como a cultura de massas) e o poder de difusão (os meios de comunicação de massas que levam essa forma de cultura a todos os pontos do planeta e influenciam a todos) desse conteúdo. Neste aspecto a ideologia e cultura acabam se confundindo formando um todo. O capital global só consegue o controle ideológico-social por meio da

destruição da totalidade e sua teoria econômica. Quanto mais se expande como forma de

realização de seus fluxos de investimentos e mercadorias, maior o número de pessoas em seu processo de produção e reprodução. Quando novos espaços geográficos são chamados a se incluírem na ordem para ampliar a reprodução, mais pessoas são inseridas na reprodução, seja como força de trabalho, seja como mercado consumidor. A organização dessa sociedade, então, deve ser feita de forma a garantir o controle social.216 Controle social que, se exerce de múltiplas maneiras e uma delas é a ideologia. Tanto mais poder terá a ideologia e tanto mais deverá ter quanto maior e mais extensiva for a sociedade a ser controlada: é isto que está subentendido acima com a questão da propagação do irracionalismo entre as massas por meio da indústria cultural. Em um capitalismo global e sua liberdade total de circulação (neoliberalismo), o controle social tende a se manifestar também de forma global e a ideologia irracional acaba sendo

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É evidente que as questões de classe aparecem aqui. Por isso se disse que o controle deve ser feito de todas as formas possíveis, seja pela via ideológica, seja através de meios econômicos ou coercitivos. Veja o caso do Brasil e os países da América do Sul diante da ideologia de segurança nacional já citada. Essa garantia o elemento de controle social na forma de consciência social de classe por meio do instigamento ao “inimigo interno”. Porém, não se restringia a isso o controle social (coloca-se em destaque para verificar a importância desse ponto e o fato de que

controle social é algo muito amplo e fundamental na organização da sociedade; uma sociedade marcada por

contradições terríveis e avassaladoras como a capitalista e, especificamente, a capitalista subdesenvolvida com padrões de miserabilidade e violência desumanos, não pode ser organizada de forma “natural”; há uma necessidade de controle social em diversas instâncias). Neste momento que ideologias como a da segurança nacional se completavam com uma indústria cultural nascente e de bens de consumo que levavam a classe média a se tornar grande mercado consumidor cativo e controlado pelas forças sociais e econômicas do capital. Aparece aqui, então, uma diferenciação de classes, e o controle social se expressando das muitas formas necessárias de acordo com a classe. A ideologia é, sem dúvida, uma das mais potentes formas de controle social, principalmente a ideologia irracional que tem a grande característica de um conteúdo muito flexível.

a negação da totalidade: entender a totalidade é possibilidade de entender as “artimanhas e malícias” do capital.

Mas o objetivo deste item final é outro. Deve-se encerrar com o aprofundamento, ainda que pequeno, de uma questão não apenas ideológica, mas também de conteúdo fortemente político: a relação entre totalidade e alternativas sociais. Buscou-se demonstrar até aqui que o irracionalismo como ideologia do capital globalizado é a ideologia destruidora da totalidade. Porém, vai além disso: torna-se destruidora da ação socialista, ou do controle social sobre os meios de produção, do controle sobre as condições e os recursos naturais e, de forma mais ampla, do controle sobre

a própria vida.

A evolução da humanidade enquanto espécie deu-se de tal forma que os controles sobre a natureza se tornaram mais amplos e decisivos. Isso foi possível através da elevação das forças produtivas. Mas estas não são formas da existência social desprovidas de um sentido profundo dentro das lutas de classe. Expressam as lutas na forma do controle das condições naturais beneficiando algumas classes. Uma contradição de classe se desdobra sobre a natureza e as formas de sua apropriação. Não se trata de segunda contradição. Mas de uma dupla contradição em íntima conexão com a continuidade natural do ser e da sociedade humanas. As forças produtivas do capital não são exceções nesta desigualdade. A alternativa socialista é justamente isso: o maior controle sobre as condições naturais e os recursos do planeta deve significar um controle social da produção e não privado. No desdobramento do processo de sociabilização humana, de elevação do padrão de civilização por meio de uma materialidade mais complexa, o desenvolvimento das forças produtivas sempre esteve ligado – a partir de dado estágio social – ao controle das condições naturais como expressão do processo civilizatório. Mas sempre em função de determinadas classes. Nunca, ou raramente foi, um controle em benefício da sociabilidade humana. A alternativa socialista consiste em exercer o controle das condições naturais como realmente humano e não de classes e suas elites representantes.

Essa alternativa transformadora deve ser resposta ao capitalismo e suas teorias. No caso do neoliberalismo tem-se uma teoria justificadora de um desenvolvimento econômico sobre condições do capital que jamais poderá ser global. Ou seja, dentro do ponto de vista da totalidade

das relações econômicas e sociais, o capital global nunca pode realizar um desenvolvimento econômico para todos e sustentável. Sempre será um desenvolvimento econômico limitado. Tanto irá aumentar a classe trabalhadora da humanidade − mesmo fragmentada e sem poder − como o exército industrial de reserva − os assim chamados “excluídos”. Como teoria econômica do capital global, tenta ser a solução para a maior produtividade e, com esta, a inserção de todos sob condições globais. Portanto, como teoria econômica se expressa na forma de geopolítica, de dada maneira do fazer político-econômico (poder) de uma elite. Tenta dar ao capital uma razão que este não tem. Ser a expressão racional de algo que não tem racionalidade quando julgado tão somente pelos recursos naturais e pela profunda expressão da continuidade-unidade homem- natureza. Ou seja, esta teoria expressa sua irracionalidade em esconder a totalidade: quando esta é desnudada percebem-se expressas as contradições do capital. O neoliberalismo tem que ser necessariamente e por definição, um exercício de poder − mais do que uma teoria econômica − que nunca revele a totalidade dos movimentos do capital e, por isso, o neoliberalismo tem que ser a destruição da totalidade.

Deve-se lembrar que a prática política, a ação que queira ser transformadora do real, tem que estar profundamente imbuída de sentido teórico e apreender a realidade em seu desenvolvimento, em seu fazer-se como conjunto de ações humanas. Amparada no conjunto perceptível das ações humanas como totalidade social, na formulação teórica, a prática pode começar a se fazer presente e modificadora. Desponta da teoria e esta é um contínuo fazer-se em função daquela e dos obstáculos que se impõe. Uma dialética existe sempre entre teoria e prática e estes dois momentos só podem ser compreendidos dentro da totalidade do real. Este é um todo completamente mediado e nessas mediações, nas determinações entre os complexos e momentos e suas interações que se vai estabelecendo as formas de ação. Somente quando se formula essa prática é que se tem presente a compreensão dos móveis e mecanismo do real − é a teoria. Isso só existe como totalidade.

Entre teoria e prática têm-se mediações levando a supor − na imediaticidade − que existe oposição entre os dois momentos da realidade. Dentro da totalidade e de sua dinâmica isso não existe. Negar a totalidade e destruí-la, então, é negar a possibilidade de uma teoria transformadora da prática e da sociedade. É encerrar-se em um puro pragmatismo. É negar os

“pares dialéticos” teoria-prática assim como a transformação do individual em ação coletiva. Impossibilitar que a individualidade possa perceber o domínio crescente do capital sobre esta não podendo fazer coisa alguma para modificar essa situação. O caminho mediativo que vai do indivíduo à ação social, as possibilidades da individualidade se estabelecer no mundo e buscar a liberdade, que significa, controle sobre o capital através da ação, tudo é, enfim, negado.

A possibilidade da ação individual desaparece: isola-se indivíduo e sociedade e assim teremos uma realidade plasmada, um “prático-inerte”. O capital pode agir em sua continuidade destruidora das conexões e articulações teóricas de entender e controlar a produção. Este é o papel exercido pelo mundo da mercadoria sobre o homem: colocá-lo diante de um mundo cada vez mais organizado, produzido e controlado pela lógica do capital e pelo imediato que é o fetiche da mercadoria. Quando as mercadorias se tornam culturais, essa lógica determina as próprias formas de viver dos homens: age-se sobre o complexo individual. O indivíduo é colocado no mundo e passa a ser uma simples alternância no mesmo: pura egoidade.