3 DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS
4. DA INTIMIDADE E DA VIDA PRIVADA – DIREITOS DE PERSONALIDADE
4.3 DA DISPONIBILIDADE DOS DIREITOS DE PERSONALIDADE
Uma questão que se mostra revestida de enorme polêmica é aquela atinente à disponibilidade dos direitos de personalidade. Diz-se isso, em função da enorme importância que se atribui a esses direitos, conforme se teve oportunidade de enfatizar no item 4.1. Esse aspecto faz com que muitos doutrinadores defendam que essas prerrogativas não ingressam numa esfera de circulação jurídica.
Essa mentalidade, contudo, vem sendo superada. A doutrina vem defendendo a possibilidade do titular do direito de personalidade dele dispor, colocando-o no centro de relações jurídicas. Para tanto, basta fazer valer a autonomia da sua vontade.
A dificuldade de aceitar-se essa idéia decorre da resistência de alguns em encarar esses direitos como se fossem bens passíveis de circulação em negócios jurídicos próprios. Os bens que se revestem de características econômicas, os chamados bens econômicos, são tidos como externos à pessoa do ser humano. Os direitos de personalidade se enquadrariam como bens jurídicos não econômicos e, portanto, internos. Nada impede, porém, que, ainda que internos, submetam-se a relações jurídicas. Apesar de direitos inerentes ao homem, eles não se confundem com o próprio homem e, por isso, esses bens – e não a própria pessoa – tornam-se objeto de direito. Ou seja, só não aceitam a idéia de disponibilidade jurídica desses bens aqueles que cometem o erro de confundir os direitos de personalidade com o próprio homem, ou os que cometem o erro de defender que os bens jurídicos são sempre econômicos (BORGES, 2005, p. 44- 46).
Inúmeros são os exemplos de disponibilidade dos direitos de personalidade. O elenco trazido por Roxana Borges, na citação abaixo, confirma o que se está a dizer aqui:
Os atos de autonomia privada acontecem em áreas diversas, não apenas no âmbito econômico. Quando a negociação é sobre interesses não patrimoniais, os atos de autonomia privada normalmente estão relacionados com os direitos de personalidade. É o que ocorre na atuação da autonomia privada sobre doação de sangue, doação de órgãos, cessão de uso de imagem e de nome, cessão de direitos sobre a privacidade e a intimidade, dentre outros (BORGES, 2005, p. 50).
É bom esclarecer, como adverte a própria doutrinadora citada, que não se está a defender que a vontade autônoma seja livre a ponto de permitir que o cidadão disponha dos seus direitos de personalidade como bem entender. É preciso que se respeitem alguns limites para que isso possa se concretizar sem atentado a lei, moral, bons costumes (BORGES, 2005, p. 54). Daí a se aceitar uma total indisponibilidade desses bens vai uma distância grande.
Por isso é que se pode e se deve defender uma relativa disponibilidade desses bens. A disponibilidade relativa não é uma característica exclusiva dos direitos de personalidade. Alguns direitos materializados em bens econômicos também têm a sua disponibilidade limitada, a exemplo das limitações impostas ao direito de testar, ao direito de dispor de propriedade se a estas a lei impõe a observância de normas de preservação do meio ambiente.
Essa relatividade, no entanto, apresenta caracteres diferentes quando se trata de direitos patrimoniais e direitos de personalidade. A disponibilidade relativa de direitos patrimoniais se volta para proteger direitos alheios. Já a relativa disponibilidade dos direitos de personalidade se volta para a proteção e não descaracterização desse próprio direito. Pode se dispor dos direitos de personalidade, evitando-se, contudo, que estes percam seu sentido, sua razão de ser.
Em outras palavras, o que se pode dispor não é a titularidade desses direitos de personalidade , mas o seu uso. Essa titularidade não se transfere, mas o seu uso pode ser cedido, ou, até mesmo, compartilhado. Roxana Borges cita o pensamento de Rosângelo Rodrigues de Miranda, que admite a disponibilidade dos bens que façam parte das esferas físicas, psíquicas e moral da pessoa, admitindo que o titular desse possa “[...] facultar a terceiros ‘compartilhar com ele a fruição destes direitos’” (BORGES, 2005, p. 118). E a autora em análise faz a seguinte observação:
A titularidade do direito não é objeto de transmissão. Ou seja: a imagem não se separa do seu titular original, assim como sua intimidade. A imagem continuará sendo daquele sujeito, sendo impossível juridicamente – e até fisicamente – sua transmissão a outrem ou, mesmo, sua renúncia. Mas expressões do uso de personalidade podem ser cedidas, de forma limitada, com especificações quanto à duração da cessão e quanto à finalidade do uso. (BORGES, 2005, p. 119-120).
Vale dizer: o uso dos direitos de personalidade pode ser objeto de disponibilidade para a realização de determinado negócio jurídico. Para tanto, basta que haja uma tolerância do titular desses direitos e um interesse deste em querer compartilhar esse uso. E, como adverte Roxana Borges, só o interessado pode dispor desse uso - mediante exercício de sua autonomia
privada da vontade -, já que tais bens estão situados numa esfera em que nem ao Estado, nem à sociedade cabe interferir (BORGES, 2005, p. 132-133).
Dizer, ainda, que dispor do uso desse bem é atentar contra a dignidade da pessoa humana também é um erro, se se considerar o conceito aberto dessa garantia constitucional. Ninguém melhor do que o próprio titular para definir o que pensa e o que quer para si como materialização da sua dignidade.
Desse contexto não fogem nem a intimidade, nem a vida privada. Inúmeros são os casos de pessoas que hoje cedem o uso de sua intimidade e vida privada. Cresce a cada dia o número de situações em que se verifica a cessão do uso desses direitos. Que o digam os programas de televisão nacionalmente conhecidos, como “Big Brother Brasil”, “Casa dos Artistas”, “Fama” etc.
Dentro dessas possibilidades, há de se separar as situações em que as pessoas cedem o uso desse direito a uma esfera reservada de pessoas ou o fazem a ponto de permitir uma total publicidade dos mesmos. Ambas as situações podem se mostrar lícitas, desde que respeitada a essência desses direitos, pois só assim se alcançará a disponibilidade relativa aqui defendida.
Defendida a possibilidade de cessão do uso desses direitos, resta verificar se isso é possível no ambiente de trabalho. Vale dizer: resta definir se na relação de emprego pode haver – e se efetivamente há – essa cessão.15
15 Tudo isso analisando-se à luz da subordinação, do poder diretivo do empregador e sem perder de vista o princípio