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Da EAD na perspectiva discursiva 45

3   DA PROPOSIÇÃO TEÓRICA: PERSPECTIVA E FILIAÇÃO 32

3.1   DO ESTADO DA ARTE DA EAD 41

3.1.2   Da EAD na perspectiva discursiva 45

Ao apresentar a EAD, neste subcapítulo, inscrevendo-me na perspectiva discursiva, tenho como premissa que a questão do sentido é essencial no processo discursivo que se instaura entre sujeitos e que o discurso é constituído essencialmente de efeitos de sentidos entre eles, sentidos que se movimentam, e ao se movimentarem, se inscrevem e

14 O termo agentes aqui se refere a terminologia utilizada na EAD. Segundo Roesler (2008): São agentes do

processo de ensino: o tutor, que guia o aluno de forma personalizada e individualizada durante todo o seu percurso universitário; o consultor, que acompanha o progresso do aluno em cada uma das disciplinas; e, para seu processo de ensino em rede, utiliza como recursos didáticos: o plano docente da disciplina, que define o processo de aprendizagem, as metodologias de trabalho e os critérios de avaliação; e os materiais didáticos multimídia que complementam os estudos específicos de cada disciplina. (ROESLER, 2008, p. 34).

materializam-se, isto é, não há um sentido já dado a priori ou único, encarcerado nesta ou naquela proposição ou enunciado, como afirmado por Orlandi: “um movimento contínuo, determinado pela materialidade da língua e da história” (ORLANDI, 2004a, p. 30).

Desta forma, tem-se neste estudo o cuidado teórico de não procurar por uma linearidade na apresentação dos conceitos, noções e proposições que concorrem para a discussão da EAD mas, de maneira tangencial, reconstruir a historicidade dos conceitos, já que para a AD “é preciso passar pela língua enquanto estrutura, pois é no texto que o discurso se materializa e ganha corpo, sendo o texto o objeto empírico do discurso. Essa passagem pela descrição não se dá nem linear nem cronologicamente, mas através de uma alternância ou de batimento com os processos de interpretação, como diz Pêcheux” (SOUZA, 2006, p.16).

Logo, o sentido para AD,

[...] não existe ‘em si mesmo’ (isto é, em sua relação transparente com a literalidade do significante), mas, ao contrário, é determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo sócio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é, reproduzidas). Poderíamos resumir essa tese dizendo: as palavras, expressões, proposições, etc, mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as empregam. (PÊCHEUX, 2009, p. 146-147).

Desta maneira, torna-se relevante trazer para esta discussão noções de autores que estabeleceram um diálogo entre EAD e a Análise de Discurso Francesa. Apresentar sinteticamente considerações e conclusões destes autores é uma escolha consequente quando se considera a linguagem como produzida historicamente. Nesse caso, a posição dos interlocutores é constitutiva dos sentidos e não há, portanto, como se iniciar um estudo na perspectiva discursiva sem conhecer e reconhecer outros dizeres, mobilizar e relacionar estes dizeres, tentando, assim, construir o objeto a ser estudado, identificando os processos discursivos aí envolvidos e possibilitando, desta forma, uma relação subjetiva com o corpus, pois um dizer está e estará sempre inserido em uma filiação de dizeres

Uma fonte bastante interessante para iniciar esta apresentação é a dissertação de Elizabete Terezinha Gomes: “Ciência, Tecnologia e Educação em Rede: as significações da

ciência em ambientes virtuais de aprendizagem a distância – AVAs”, dissertação que “tem

como base a teoria e o método da AD, na qual a tríade – ciência, tecnologia e educação - é entendida como discurso constituído, num espaço histórico-ideológico, de onde emergem significações materializadas pela língua” (GOMES, 2008, p. 10).

Gomes (2008) “busca compreender a conexão que se estabelece entre ciência, tecnologia e educação, especificamente sobre as significações da ciência, no que concerne à produção e transmissão desse conhecimento nos ambientes virtuais de aprendizagem – AVAs.

Busca compreender até que ponto essa nova realidade muda o enfoque da aprendizagem e, por conseguinte, o ensino da ciência/significação da ciência, na universidade virtual, partindo dos modelos presenciais de educação e da incorporação das TICs, pela EaD” (GOMES, 2008, p. 10).

A autora “destaca que a suposta didatização da Ciência não é o obstáculo maior na relação ensino-aprendizagem em EaD, tendo em vista que há muitos ensaios e práticas transdisciplinares na reprodução do conhecimento por parte do professor conteudista” (GOMES, 2008, p. 10). Porém, na sequência de seu texto, esclarece que:

[...] o que faz diferença mesmo é a transmissão do conhecimento feita pela figura do professor tutor que está relegada a segundo plano, na qual o seu papel é quase figurativo, – o conteudista faz, ele medeia e o aluno sujeita-se. Portanto, a pesquisa revela que ao lado dessas práticas, existem dois discursos: um de que tanto a Comunidade Científica como a Universidade são instituições que se apresentam como os baluartes da sabedoria, a tecnologia como a propulsora do progresso e, ao assim se considerarem, persistem em práticas que as mantêm nesse status quo ad infinitum; e um outro incorporado a essa conjuntura, de que uma nova EaD é possível, através de um diálogo entre o processo de aprendizagem presencial e virtual em que os cursos e as metodologias ultrapassam o espaço e o tempo da sala de aula, caracterizados pela simultaneidade, pela justaposição do perto e do distante, cujo modelo é a conectividade – a rede.(GOMES, 2008, p. 10- 11).

Silvânia Siebert (2005), em sua dissertação de mestrado, possui uma abordagem acerca da “relação discursiva estabelecida entre os interlocutores a partir do evento Telecurso 2000, módulo de Língua Portuguesa para o 1º Grau, a partir da Análise do Discurso. Para tanto, a autora observa por meio de movimentos de aproximação e afastamento, o funcionamento da Escola, da mídia (dos meios de comunicação), do Ensino a Distância e da Teleducação. A observação do funcionamento das discursividades midiáticas e pedagógicas, permitiu a pesquisadora perceber como se deu a articulação entre os diferentes acontecimentos e que originou o Telecurso 2000” (SIEBERT, 2005, p. 6).

Siebert (2005), a partir desses acontecimentos de mídia, enunciativo e discursivo explana e descreve uma compreensão “de novos sentidos com a observação das memórias social e histórica e conclui que a ‘teleaula’ produz um efeito de sentido que está para a atualidade, o que a predispõe como material didático de qualidade potencial” (SIEBERT, 2005, p. 6).

A autora salienta que “para isso é necessário que não se produza, como na escola tradicional, materiais de cunho autoritário e com pouca polissemia, o que é próprio para ensinar e não para educar” (SIEBERT, 2005, p. 6).

Também abordando o discurso pedagógico midiatizado, a doutora em Educação, Ana Sílvia Couto de Abreu (2006), em sua tese, parte de uma concepção althusseriana de ideologia e “reflete sobre a relação entre tecnologia e educação, na sociedade atual, mediante a análise do funcionamento de uma revista impressa, a Escola, e de um site, o Escola On-line, trazendo os efeitos desse funcionamento da mídia para a área educacional. Assim, aspectos ligados à formulação e à circulação da Revista e do Site são postos em destaque. A autora chega à compreensão de uma imagem que se institui dos professores e de sua relação com o conhecimento e a ciência, hoje” (ABREU, 2006, p. 7).

Outra autora que tece considerações sobre o discurso pedagógico é Samira Kfouri em “A Comunicação Midiatizada na Ead: Um Discurso Pedagógico”. Kfouri (2009) busca entender “como e com quais características as relações entre comunicação e educação se materializam no discurso pedagógico, nos sistemas de Ensino Superior que ofertam a modalidade EAD” (KFOURI, 2009, p. 8).

Costa (2009) também, pesquisando o discurso pedagógico, “discute e analisa o processamento do discurso institucional e instrucional que organiza a execução de determinadas tarefas e atividades não-presenciais dos sujeitos aprendizes em AVAs, de uma instituição privada superior que oferece EAD, o autor trata dos efeitos (meta)cognitivos desse processamento discursivo no processo de compreensão (leitura) e na produção textuais, com possíveis implicações na constituição da identidade desses sujeitos” (COSTA, 2009, p. 1).

O referido autor alcança objetivos que merecem ser mencionados: “primeiro, compreende, parcialmente, o processo de construção das relações de força e poder que são estabelecidas na interação virtual entre os sujeitos da interlocução (instituição, coordenador, professora, monitores e estudantes) da comunidade virtual analisada. E, segundo, verifica que possíveis implicações e efeitos se dão na constituição da identidade dos sujeitos aprendizes e no domínio cognitivo do processamento de textos em ambiente virtual” (COSTA, 2009, p. 16).

Outra autora que trabalha sobre o processo de aprendizagem é a professora Elaine Leal da Silva Rodrigues. Rodrigues (2010) aborda “as concepções de professores sobre o ensino a distância, questionando-os sobre a definição deste, a fim de compreender as representações que possuem desse ensino-aprendizagem, bem como sobre a confiança ou não deles nessa nova forma de se aprender” (RODRIGUES, 2010, p. 01).

Uma afirmação de Rodrigues em suas conclusões permite uma aproximação com a discussão aqui apresentada: “há a percepção de como não é possível afastar a cognição da

afetividade, possível, também, de estar presente no meio virtual, já que proximidade física não é sinônimo de interação” (RODRIGUES, 2010, p. 192).

Com o objetivo de analisar o funcionamento dos discursos e características dos comentários postados em um Espaço Virtual de Aprendizagem (EVA), mais especificamente na ferramenta do Fórum, em uma das disciplinas de Leitura e Produção Textual, Silva (2010) apresenta uma compreensão da relação subjetividade/sujeito/discurso em sua dissertação: A

análise discursiva dos comentários postados na ferramenta fórum da disciplina leitura e produção textual no espaço Unisul/Virtual de aprendizagem, texto que permite ver “como o

sujeito-acadêmico na ferramenta fórum, é constituído por vários outros. Desse modo, a produção e circulação de discurso apontam que no Fórum o conhecimento não é tomado como “produto”, mas como “processo”, sendo o aluno o próprio gerenciador do saber” (SILVA, 2010, p. 08).

Apresentando uma abordagem discursiva no estudo de diferentes aspectos, elementos e agentes15 da/na EAD, escolhe-se citar Siebert (2005) que em suas considerações finais consegue expor comprometimentos que merecem atenção quando se escolhe pensar a EAD sob o enfoque teórico e metodológico da AD:

Em relação à discursividade pedagógica, percebemos que mesmo se valendo de outro meio, a televisão, essa discursividade permanece determinada pela forma autoritária, mesmo se valendo em dados momentos de processo polêmicos e até mesmo lúdicos em sua formulação, mas a interlocução é sempre uma via de mão única porque o telealuno só “fala” a partir de formulários com respostas fechadas e em sua avaliação no final do módulo. É a partir do autoritarismo que os sentidos da Escola (do Ensino) se mantêm nesse acontecimento discursivo. (SIEBERT, 2005, p. 97).

Mais recentemente, tem-se a pesquisadora Maristela Cury Sarian (2012) com sua tese de doutorado A injunção ao novo e a repetição do velho: um olhar discursivo ao

Programa Um Computador por Aluno (PROUCA) a qual

[...] busca compreender as redes de filiações e os trajetos de sentidos constituídos no Programa Um Computador por Aluno (PROUCA), do governo federal brasileiro, que, na discursividade institucional do Estado, é significado como um programa de inclusão digital, com vistas à melhoria do ensino-aprendizagem e ao adensamento da cadeia produtiva por meio do fornecimento às escolas de ensino fundamental de laptops com acesso à internet na sala de aula. [...] a partir das condições de produção nas quais esse Programa emerge, ao modo pelo qual o Programa se organiza, à

15 Segundo Roesler (2008): São agentes do processo de ensino: o tutor, que guia o aluno de forma personalizada

e individualizada durante todo o seu percurso universitário; o consultor, que acompanha o progresso do aluno em cada uma das disciplinas; e, para seu processo de ensino em rede, utiliza como recursos didáticos: o plano docente da disciplina, que define o processo de aprendizagem, as metodologias de trabalho e os critérios de avaliação; e os materiais didáticos multimídia que complementam os estudos específicos de cada disciplina. (ROESLER, 2008, p. 34).

legislação que o regulamenta e ao processo de aquisição dos computadores, a partir do qual estabelecemos uma relação com a política de adoção do livro didático. [...] A fim de desestabilizar os sentidos da discursividade institucional sobre os quais o Programa se edifica enquanto uma política pública, dirigimos nosso olhar ao processo de escolarização de nosso país, o que nos possibilitou compreender a maneira pela qual o acesso e a permanência do sujeito na escola em nossa história escolar, marcada com a transferência da escrita para um território ágrafo, estabelece relações com os imperativos de uma formação social capitalista. Por fim, voltamos nossa atenção à maneira pela qual a internet é significada no espaço escolar, com o objetivo de dar visibilidade ao funcionamento das chamadas novas tecnologias na escola, em especial, na disciplina de língua portuguesa. (SARIAN, 2012, p. XV).

Em 2013, Hélio de Oliveira, na dissertação de mestrado “Educação a Distância”:

Uma Fórmula Discursiva, analisa as ocorrências do sintagma “educação a distância” e suas

variantes no universo discursivo brasileiro contemporâneo, num recorte temporal de 2001 até 2011.

O objetivo é analisar em que medida "educação a distância" funciona como um "lugar" privilegiado para "compreender a forma como os diversos atores sociais organizam, por meio dos discursos, as relações de poder e de opinião" (Krieg- Planque, 2010, p. 09), ao mesmo tempo em que participa de (e constitui) um processo de aceitabilidade social das modalidades de ensino não-presenciais. A principal conclusão é que está em curso uma mudança nos sentidos de "educação a distância", observável nas reformulações do sintagma. Indícios dessa mudança foram localizados por meio de uma análise diacrônica que parte de conotações negativas relacionadas à ocorrência de "teleducação", passando pela forma "educação a distância" e chegando à atualidade como "educação online/virtual". Além disso, as reformulações acontecem em meio a uma intensa polêmica, indicativa da relação interdiscursiva e da gênese de um discurso próprio de uma suposta nova forma de ensinar e aprender. (OLIVEIRA, 2013, p. XIII).

Tem-se assim, de forma bastante resumida, uma exposição de alguns pesquisadores e seus estudos sobre o funcionamento dos discursos, características e aspectos da EAD os quais acredita-se demonstrarem tanto a possibilidade quanto a necessidade de continuidade e aprofundamento de pesquisas acerca dos elementos constitutivos desta modalidade, já que este trabalho assume-se inscrito na Análise de Discurso e desta assunção busca-se compreender as redes de filiações e trajetos de sentidos constituídos na EAD.