CAPÍTULO 1 – DO CONCEITO DE IDENTIDADE ÀS IDENTIDADES DO
1.2 Processo histórico da formação do pedagogo no Brasil: multiplicidade de
1.2.1 Da escola normal à criação do curso de Pedagogia em 1939
Segundo Brzezinski (1996), para se chegar à gênese do curso de pedagogia no Brasil é necessário retomar a evolução da Escola Normal. Para a autora, foi por meio da expansão da escola elementar no final do Império que se passou a exigir a formação do professor em nível médio na Escola Normal.
10 A função de pedagogo era conferida pela certificação para atuar como professor do ensino secundário
(nomenclatura utilizada à época). Atualmente o professor de ensino secundário é denominado professor do ensino médio de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação nacional n. 9394/96.
Levando em conta esse fato, a Escola Normal foi o local obrigatório para a formação de professores atuantes na escola fundamental, na escola complementar e na própria Escola Normal, e isso se perdurou por quase um século (BRZEZINSKI, 1996). Portanto, nesse período, a formação para o magistério nos segmentos acima descritos era realizada nas Escolas Normais. A primeira Escola Normal foi criada no município da Corte, no ano de 1880, para professores e professoras.
No período pré-republicano, em 1880, no município da Corte, instalou-se a escola noturna para professores e professoras, sob a direção de Benjamim Constant, criada para formar professores primários, a Escola Normal do Distrito Federal viria a tornar-se, nos anos 30 do nosso século, com outra organização, o centro de referência nacional dos estudos pedagógicos em nível superior (BRZEZINSKI, 1996, p. 21).
Em contrapartida, a demanda da escola elementar cresceu muito e com isso, precisava cada vez mais de professores para atuar nessas escolas. Entretanto, a Escola Normal estava instável, o que fez com que Leôncio de Carvalho, em 1879, aprovasse a
reforma da “instrução pública”:
Ainda que de duração efêmera, essa reforma acentuou a pseudo- profissionalização do professor, descaracterizando sua formação e seu exercício profissional, uma vez que o relatório apresentado à Assembléia Legislativa por Leôncio de Carvalho (1978) facultava o exercício profissional do magistério aos leigos, ao postular que poderiam ensinar todos àqueles que para isso se julgarem habilitados sem dependência de provas oficiais de capacidade ou prévia autorização; e que a cada professor seja permitido expor livremente suas idéias e ensinar doutrinas que repute verdadeiras pelo método que melhor atender (BRZEZINSKI, 1996, p. 20, sic).
Como podemos notar, tal reforma foi pensada de modo a atender uma necessidade emergente que acontecia à época. Entretanto, cabe destacar que não se pensou na formação do professor; não houve a preocupação com a formação do profissional para atender tal demanda. Portanto, houve um processo de desprofissionalização. Dessa forma, qualquer um poderia ser professor, apenas julgando que poderia estar habilitado para tal. E que, atualmente, por meio da lei n° 13.415 de 2017, retornamos a essa situação, em que se vislumbra o “notório saber”.
A única formação dada ao professor, quando possível, era a ofertada em Escolas Normais e como salienta Brzezinski (1996, p. 23) “a utopia brasileira de elevar os estudos de formação de professores ao nível superior não se tornou realidade nas
Tem-se, nesse contexto, que o curso de pedagogia no Brasil foi criado na década de 1930. Segundo Brzezinski (1996), os pioneiros da Escola Nova11 faziam parte de
movimentos sociais de educadores que empreendiam a luta para a criação da universidade no País.
As décadas de 1920 e 1930 foram palco de movimento de modernização da educação e do ensino. Nos anos 20 foram efetivadas reformas nos Estados coordenadas por educadores apoiados nos democráticos e republicanos e no ideário da Escola Nova de John Dewey, expoente máximo do escolanovismo nos Estados Unidos. O principal articulador da Pedagogia Nova no Brasil foi o Anísio Teixeira, discípulo de Dewey (BRZEZINSKI, 1996, p. 26-27).
Em meio ao movimento dos Pioneiros da Escola Nova, em um contexto da sociedade brasileira que passara do modelo agrário-comercial-exportador dependente para o modelo capitalista-urbano-industrial e de educação como fator de reconstrução social (BRZEZINSKI, 1996), é instituído o curso de Pedagogia. O curso de Pedagogia foi instituído no Brasil por ocasião da constituição da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1939, por meio do Decreto-Lei n° 1.190/ 39.
O Curso de Pedagogia foi configurado a partir da proposta de formação de bacharéis, para atuar como técnicos de educação, e de licenciados, objetivando desenvolver a docência nos Cursos Normais. A estrutura curricular dessa faculdade estava dividida em quatro seções fundamentais: filosofia, ciências, letras e pedagogia; e uma seção especial de didática, denominada curso de Didática (CAMPOS, 2009, p. 22).
Dessa forma, o discente egresso no Curso de Pedagogia recebia o título de bacharel, podendo, após a conclusão deste curso, complementar seus estudos, a fim de obter o título de licenciado. Campos (2009) aponta ainda que essa formação concedeu às licenciaturas um papel de apêndice dos cursos de bacharelado. Ou seja, os três primeiros anos de formação eram dedicados aos fundamentos gerais da educação, para a formação do bacharel e o último ano seria de fundamentos de Didática, que abarcaria a formação dos professores para os cursos normais.
11 Movimento de educadores brasileiros conhecido como movimento dos pioneiros da Educação Nova.
Foi feito um documento em 1932 intitulado: Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Nesse documento os educadores brasileiros defendiam uma educação pública, gratuita, obrigatória, laica e mista, além de defender uma educação mais centrada no aluno onde prevalecessem os interesses dos mesmos e respeitassem as individualidades de cada um. Esse manifesto foi assinado por 26 educadores, dentre eles: Anísio Teixeira, Lourenço Filho, Afrânio Peixoto, Roquete-Pinto, Sampaio Dória, Almeida Júnior, Mario Casassanta, Atílio Vivaqua, Francisco Venâncio Filho, Edgar Süssekind de Mendonça, Armanda Alvaro Alberto, Cecília Meireles.
As disciplinas que compunham o curso de Bacharel em Pedagogia, de acordo com o Decreto Lei n° 1190/1939, artigo 19 eram:
na primeira série - Complementos de matemática, História da filosofia, Sociologia, Fundamentos biológicos da educação e Psicologia educacional; na segunda série - Estatística educacional, História da educação, Fundamentos sociológicos da educação, Psicologia educacional e Administração escolar; na terceira série - História da educação, Psicologia educacional, Administração escolar, Educação comparada e Filosofia da educação. O artigo 20 do mesmo decreto-lei tratava nas disciplinas do curso de didática por um ano: Didática geral, Didática especial, Psicologia educacional, Administração escolar, Fundamentos biológicos da educação e Fundamentos sociológicos da educação (BRASIL, 1939, s.p.).
Saviani (2004), em relação a esse modelo de curso de bacharel em pedagogia, chama a atenção para o fato de que a disciplina de psicologia educacional se destaca, pois permanece em todas as séries; em seguida, história da educação e administração escolar e reitera que pelos nomes das disciplinas percebe-se certa influência do ideário da Escola Nova.
Brzezinski (1996) critica o modo pelo qual se configurou o currículo do curso de pedagogia daquela época. “Essa complementação de estudos em didática dissociava o conteúdo da pedagogia do conteúdo da didática em cursos distintos, provocando a ruptura entre conteúdo dos conhecimentos específicos e o método de ensinar esse
conteúdo” (BRZEZINSKI, 1996, p. 44). Dessa forma, a autora alerta para uma
dicotomia entre conteúdo e método, a qual não deveria existir.
Brzezinski (1996) critica ainda o currículo do curso ofertado em relação à atuação do profissional:
É interessante notar que os egressos da licenciatura em pedagogia seriam os futuros professores da Escola Normal que formava professores primários. Entretanto, o currículo dessa licenciatura não contemplava o conteúdo do curso primário. Certamente, os licenciados aprendiam esse conteúdo por encanto, ou talvez, na “prática”, se o futuro bacharel já fosse professor primário (BRZEZINSKI, 1996, p. 45).
Com isso, a autora questiona como pode o licenciado estar preparado para algo que não havia obtido na formação, revelando, assim, uma inexistência de conteúdos específicos.
1.2.2 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n° 4024/1961, Golpe Militar