3 USOS URBANOS E A CONSTITUIÇÃO DO LAZER DE MULHERES
3.1 Da escola para a universidade: mulheres esclarecidas e
feminina, os movimentos que defendiam a chamada “contracultura”, a invenção da pílula anticoncepcional vem acrescentar mudanças nas atitudes juvenis brasileiras. Lugares como a escola e as universidades abrem-se para um universo, além da educação, que também poderiam ser chamados “não-lugares”, devido à rejeição dos comportamentos estudantis tradicionais às mulheres e a abertura ao novo que surgia por meio da educação. Na fase juvenil, estes configuraram espaços e lugares também de vínculos de amizades e entretenimentos. Porém, é somente a partir de 1980 que as dissonâncias dessa onda transformadora e marcadora de gerações, se evidenciou no Brasil. Conforme explicita Arend:
No caso brasileiro, em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador, esses movimentos como em outros países tiveram seu início ainda nos anos de 1960, somente produziriam ecos em uma parcela significativa da população a partir de meados de 1980, em função das restrições das liberdades individuais impostas pela Ditadura Militar implantada em 1964. Uma perspectiva mais igualitária entre homens e mulheres passaria a nortear os valores e práticas familiares, provocando mudanças na socialização das meninas no Brasil.133
Nessa década, permeavam as expectativas e sonhos do sujeito mulher, em fase juvenil, as mudanças no estilo e na forma de pensar os projetos de vida e carreira. Nesse sentido, tanto os padrões de matrimônio como a constituição familiar se modificavam na construção de projetos de futuro para esses indivíduos. Arend aponta os efeitos que surgiam nos comportamentos ditos femininos:
O casamento permanecia no horizonte. Porém, a carreira profissional, que implicava autonomia financeira com relação ao pai e ao cônjuge, assumia cada vez mais maior importância entre as expectativas das meninas. [...] A perspectiva de um maior controle dos processos relativos à reprodução humana, conjuntamente com o discurso da chamada contracultura, que preconizava a liberação sexual, produziu efeitos sobre as práticas afetivas e sexuais das jovens.
133 AREND, 2013, p. 77.
Em Teresina, essa prática surgia nas atitudes das jovens que ousavam e buscavam certa independência em relação à família e ao lazer. É interessante notar que os espaços de sociabilidades eram definidos pelas práticas familiares desde a infância e a adolescência. Nesse sentido, para as mulheres, os espaços de diversão e lazer se concentravam nos lugares que eram permitidos pelos pais. Mesmo com o movimento de intensa busca pela liberdade feminina, algumas mulheres mostravam- se dependentes da família para ocupar espaços ditos de lazer.
Ainda no início da década, o templo da igreja Católica incorporou a imagem de um lugar de sociabilidades, lazer e diversão. Os rituais como festejos, missas, passeios domingueiros eram práticas que ainda se manifestavam entre as mulheres ditas de família. E na maioria das vezes, a liberdade de ir e vir sem a presença dos pais iniciava pelos rituais católicos. Como revelou Rita Magalhães em sua fala:
As cerimônias religiosas... Eu sempre fui da religião católica, participava bastante, como falei anteriormente, havia a missa para os jovens e todos os domingos eu estava lá na missa, participava de todos os eventos religiosos, correspondentes a cada época, então, semana santa, páscoa... Então, eu sempre me envolvi na igreja, inclusive eu fazia parte do grupo de liturgia da igreja do meu bairro, onde eu era a cantora... cantava na época, e fazia leituras. Eu sempre gostei, desde muito nova e até hoje eu faço parte da leitura, de liturgia da minha igreja.134
Contudo, as experiências de namoro e a liberdade de participação em festinhas permaneciam ligadas aos padrões religiosos. E, nesses espaços, iniciavam também as experiências de liberdade fora do espaço familiar. Algumas mulheres aprendiam práticas mais livres, como a apreciação à música, à arte, a escolha de uma linha política, nos próprios espaços religiosos. A relação igreja e política do início dessa década, é configurada por Queiroz:
Nesse período, a forte politização e a ação social de algumas frações da igreja católica traziam para o embate político parcela do episcopado brasileiro, a dita ala progressista, à frente bispos como os de Fortaleza (D. Aloízio Lorscheider) e de São Paulo (D. Evaristo Arns) e o Teólogo da Teologia da Libertação, frei Leonardo Boff. Nesse contexto também se salienta a atuação de instituições como a Conferência Nacional dos
134 MAGALHÃES, Rita. Enfermeira. Professora Mestre do CTT- UFPI. Entrevista Concedida a J.V.C.B
Bispos do Brasil (CNBB) e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). A Igreja já institucionalizara sua opção preferencial pelos pobres.135
Embora à época fosse impressa uma aura de liberdade para as mulheres de classe média que ainda viviam sob a forte educação com traços patriarcais, conseguir sair de casa sozinhas para festinhas de aniversários, clubes ou mesmo para a igreja aos domingos significou a impressão de novos hábitos de lazer.
Nos espaços religiosos a prática política também atraía as mulheres que vinham de classe média baixa e que aprendiam, em especial, e ligados aos valores religiosos, a valorização da resistência à desigualdade social. Essa, contudo, não era uma prática nova, mas definia-se ao momento político pelo qual passava a década. A depoente Sônia Terra revela que aprendeu a gostar das leituras críticas nas reuniões dos grupos da igreja e sob a influência das leituras da Teologia da Libertação, demonstrando o vínculo com sua religião:
[...] a consciência feminista ela veio justamente nesse processo que era o processo auge também que a gente vivia, nessa década de 80, principalmente, porque foi um momento muito forte, né? Como falei antes, porque era um momento da Teologia da Libertação, dos movimentos sociais, de construção e desconstrução também, não é? Pra gente se situar nesse mundo que a gente vivia, de que lado que nós estávamos e quem somos e de onde vínhamos. Isso demarcou e demarca até hoje essa minha formação, dessa construção desse ser mulher e, sobretudo, de ser mulher negra.
A experiência da liberdade da leitura e da sociabilidade são marcadores importantes das descobertas da depoente, enquanto indivíduo. Nesse universo, observa-se a desterritorialização que é impressa ao alargamento dos seus domínios do conhecimento. Essa impressão remete a construção do indivíduo, defendida por Guatarri:
O ser humano contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado, com isso, quero dizer que seus territórios, etológicos, imaginários- corpos, clã, aldeia, culto, corporação... não estão mais dispostos a um ponto preciso da terra, mas, se incrustam no essencial, em universos incorporais.136
135 QUEIROZ, 2006, p. 213. 136 GUATARRI, 2006, p. 169.
As aspirações dos sujeitos constituíram importantes vetores à efetivação da materialização do indivíduo independente, por consistir na justificativa dos valores atribuídos às suas próprias oportunidades, do alcance de seus desejos e da emergência de vivenciá-los. Observou-se o valor atribuído a esse vetor no relato da depoente Reia Rios, ao rememorar sua trajetória de escolarização:
Eu estudei na Escola São Francisco de Assis, que é ali perto da Igreja São Benedito. Era um colégio bom! Considerado dentro dos colégios públicos, né? Bom! Então, eu tive que fazer secretariado, que não preparava para a Universidade. A minha mãe queria que a gente fizesse o Pedagógico. Eu me recusei, porque eu queria fazer universidade. As condições possíveis, era fazer o pedagógico, ou fazer um curso de secretariado. Então, eu não me conformei e, sempre, fui estudar por minha conta. Já que meu pai não podia pagar, eu me dediquei muito e consegui. E eu entrei na Universidade com 17 anos para o Curso de Serviço Social.137
Por outra ótica, percebe-se uma angústia acadêmica na trajetória de Tailândia Maia, com a descontinuidade do ritmo juvenil que o ofício do trabalho inerente à conquista da graduação exigia à época. Os projetos de carreira significaram pilares necessários à época para sua construção individual, essa cobrança ainda presente convergia com a função de esposa e mãe. Como a depoente esclarece, a ansiedade por retardar a entrada à universidade, em detrimento do trabalho e da família:
Então, nesse processo todo, eu casei, né? Trabalhando como professora pedagógica, mas, assim, trabalhando ainda sem curso superior, mas, extremamente incomodada, né? Porque, enquanto isso, como eu falei, muitos amigos foram embora, então comecei a ver meus amigos lá, com a graduação, porque naquele tempo a graduação já era muita coisa...[...] E o que acontece? Tive que correr atrás, aí já tava casada, já tava com filho.... Eu, na minha cabeça, inconscientemente, dizia que eu não poderia chegar aos 40 sem ter um curso superior, porque começou a incomodar muito. Ai, então, eu fui fazer Administração...138
Ao analisar as posturas de homens e mulheres de classe média nos anos 1960, Vaitsman revela que à época, os significados de individuação estavam atrelados à concepção de feminino e masculino. E, com base nesse fragmento, observa-se que
137 MAGALHÃES, Reia Silvia Rios. Professora Doutora da UFPI do Curso de Serviço Social.
Entrevista Concedida a J.V.C.B em 14 set. 2015a.
dessas mulheres emergiu um leque de possibilidades e de autonomia fora do casamento, com a abertura para os estudos superiores, que mais tarde, provocariam as mulheres dos anos 1980:
As mulheres foram atrizes principais deste processo do qual se redefiniram os papéis sexuais sociais dicotomizados. A entrada para o mundo da universidade plantou as bases para projetos de individuação que reconstruíram os significados do feminino e masculino predominantes até então. Predominantes, mas, que muitas vezes contradiziam as próprias práticas em relação às mulheres.139
O registro crescente das mulheres no trabalho apontava nas tabelas estatísticas do IBGE, por toda a década. O percentual de mulheres brasileiras que estudavam, na década de 1980, atingiu um dado relevante nas pesquisas realizadas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) nos anos de 1988 a 2007. De acordo com os dados da pesquisa, foi registrado na amostra do ano de 1988, no Brasil, que o número de mulheres que passam a trabalhar e estudar são consideráveis. A tabela evidencia também uma marcante porcentagem de mulheres que estudam e trabalham, com escolaridade média e superior. A pesquisa da FGV registrou os dados que na tabela da PEA masculina e feminina por escolaridade, as taxas que são correspondentes aos anos de 1970, 1980, 1983, 1985. É possível observar que nas taxas que correspondem às mulheres, houve o aumento favorável nas porcentagens referentes à amostra dos anos citados no dado. Conforme os dados da tabela a seguir:
139 VAITSMAN, 1994, p. 97.
Tabela 1 – Distribuição dos ocupados por sexo e setor de trabalho
Fonte: IBGE / Censo Demográfico 1970.
A amostra do cenário educacional de Teresina não se revelou diferente. Com base na amostra examinada pelo Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, os resultados alcançados, ao final da década, em Teresina e publicados em 1991 registraram que “a escolaridade da População de 25 anos ou mais em 1991, correspondeu à taxa de 20,9% da população da capital”.
Nesse sentido, o número de mulheres na educação superior, ao final da década em estudo, foi considerado crescente. Fator que promoveu um ritmo bastante acelerado no mercado de trabalho. A expansão da economia com o crescimento do comércio e da industrialização, bem como o anterior avanço da escolaridade das mulheres na década de 1970 possibilitou a construção de novos signos e não-lugares nos espaços urbanos.