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CAPÍTULO III – DO PROCESSO DE ENVELHECER SOZINHO DEPOIS

3. ÂMBITO DAS ESTRATÉGIAS PARA SE MANTEREM A ENVELHECER

3.3. Da espiritualidade: a procura da transcendência

Da análise dos dados, emerge de uma forma evidente no âmbito da espiritualidade, a procura da transcendência nos Independentes e Resignados, pela possibilidade de encontro de um propósito e ações significativas como ajudar os outros e pela confirmação das relações com Deus através da oração e da participação em cerimónias religiosas, ajudando os Independentes a sentirem-se realizados mesmo vivendo sós e os Resignados a conformarem-se em viver sós.

Sendo assim percebemos que ajudar os outros é para alguns dos Independentes e Resignados, intrínseco à sua natureza: Acho que é o meu coração, que comanda tudo, porque o meu coração reflete os meus pensamentos. Primeiro foi a educação que tive da minha mãe, o respeito e fazer o bem. Eu obedeço ao meu coração. Ele dita-me as coisas. Ele é que fala e que diz o bem que hei de fazer e dá tudo certo e quando tenho um palpite, sai certo. Fui sempre assim desde criança.

ESTRATÉGIAS: ÂMBITO DAS RELAÇÕES SOCIAIS

OS AMARGURADOS Vivem despojados de

estratégias que os mantenham em relação com os outros, tornando-se ainda

mais vulneráveis. Podem optar por votar-se ao

isolamento social. OS RESIGNADOS

Importam-se em fazer perdurar e manter as relações sociais, cultivando os laços sociais com a família,

amigos e vizinhos. Quando existem conflitos

familiares procuram apaziguar a mágoa e resolver

o conflito no sentido da manutenção da relação

familiar. Combatem o isolamento social e mantêm-se ativos socialmente, procurando sair

de casa para interagirem com os vizinhos e amigos, uma vez que os filhos têm vidas mais distantes da deles. OS INDEPENDENTES

Cultivam os laços sociais com a família, amigos e vizinhos,

através de um padrão de interações frequentes. Mantêm-se socialmente ativos, integrando-se em grupos onde desenvolvem

atividades de interesse, convivem com outras pessoas, o que lhes confere bem-estar e satisfação com a

vida.

Participam em atividades ligadas à Igreja, frequentam

universidades senior, ginásios e mesmo centros de

dia onde por vezes criam laços afetivos que comparam

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Naquilo que eu puder ajudar os outros estou sempre pronta (P 8) e que os faz sentirem- se úteis: Os meus netos quando me chamam, porque um dos bisnetos adoeceu e não pode ir para a escola, vou logo (…).Vou a correr, porque é um dia bem passado. Só tenho medo que me chamem, dois no mesmo dia. Gosto de me sentir útil (P 12). Ajudam particularmente os filhos e netos com as refeições: Todas as terças-feiras faço um almoço aqui em casa com as minhas filhas e os meus netos e sempre que a minha filha precisa faço alguma refeição rápida para todos e também a ajudo com a roupa. Passo-lhe a roupa uma vez por semana. Sinto-me útil a poder ajudá-la (P 25), financeiramente: Não faço mal a ninguém. Sempre procurei fazer o bem. Ainda agora procuro ajudar o mais possível os meus filhos que têm alguns problemas financeiros (P 14) e ainda fazendo companhia a familiares com problemas de saúde: Tenho uma irmã num lar com uma demência e para mim é muito importante ir visitá-la. Vamos lá, quase todos os dias. (…). Ela fez muito por mim e pelos meus filhos quando o meu marido estava doente e isso eu não esqueço. (…) enquanto puder pelo menos procuro fazer-lhe a maior companhia possível. É a minha forma de lhe ser útil! (P 25).

Mas para João, a ajuda que deu a quem já partiu, evidenciasse na sensação de dever cumprido: Não faço mal a ninguém, só tenho feito bem, mesmo às minhas duas mulheres que já partiram, cuidei do que era preciso. Fiz tudo por elas. É por isso que eu digo que são os melhores dias da minha vida (P 16).

Os Independentes denotam uma atitude de maior abertura à relação com os outros que vai para além da família, olhando para os da sua idade em situação de maior vulnerabilidade, como pessoas que necessitam de alguém que as ouça e fazem assim voluntariado junto delas para assim estarem mais próximos e poderem de algum modo ajudá-las com a sua presença.

Vou todas as semanas fazer um pequeno voluntariado num centro de dia aqui próximo, para estar com pessoas da minha idade e principalmente ouvi-las. (…) gosto de sentir que ainda sou útil (P 15).

O que eu procuro é tentar ser útil para alguma coisa. Sou voluntária no Hospital de Santo António, duas manhãs por semana, visito pessoas doentes e sozinhas (…) Os pessoas idosas estão no fim da vida e as crianças estão a começar a vida. No fundo estão mais próximos de morrer e realmente tenho queda para falar com eles, ouvi-los e muitas vezes estou no hospital, na urgência que é onde estou agora e encontro muitas pessoas idosas que precisam mesmo de falar e que não têm quem os ouça e agradecem-me por os ouvir (P 26).

DO PROCESSO DE ENVELHECER SOZINHO DEPOIS DOS 80: OS RESULTADOS

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Ajudar os outros é algo que está vetado aos Amargurados já que não têm condições funcionais e de saúde para o fazer: Nem ajudar posso! A minha vida agora é ver um dia atrás do outro, sem grande sentido! (P 6). É então na oração que encontram a possibilidade de transcendência e através da qual entregam as suas vidas a Deus, nomeadamente a sua morte: Também rezo a Deus para que ao menos me dê uma boa morte! P 6) e pedem para que os acompanhe a lidar com a situação de fragilidade em que se encontram: Então sento-me a rezar e a pedir a Deus que esteja sempre ao meu lado neste meu final tão triste (P 13). Grande parte deles reza pela manhã e à noite e alguns também durante o dia, sentindo-se menos sós quando o fazem por sentirem a companhia de Deus na oração: Para mim rezar é muito importante. Rezo todas as manhãs e todas as noites. (…) Às vezes vivo assim muito só e a oração ajuda-me (P 13).

A oração associada à fé e crença em Deus surge como um meio de diálogo com Deus muito presente também na vida dos Independentes e dos Resignados. Pedem a força para lidar com os problemas e dificuldades com que se deparam, nomeadamente para evitar acidentes: Olhe peço ao Senhor que me continue a dar sempre aquilo que eu tenho tido, e as dificuldades, vou pedindo ao Senhor, vou rezando até para não cair e que a Nossa Senhora do Rosário de Fátima que ande sempre comigo que é para ver se eu me seguro (P 1); mas também saúde: Tenho aquela devoção. Julgo que fico mais protegido. Parece que peço e que cada vez tenho mais saúde para poder andar! (P 16); proteção para a família e amigos: Rezo muito. Rezo pelo meu marido, rezo pelos meus filhos, pelos meus netos, pelas pessoas amigas, rezo por toda a gente (P25); paz espiritual: Sabe que eu fui educada a pensar que Deus nos castiga pelo mal que fazermos e às vezes fico muito angustiada porque penso que Ele não me vai perdoar por certas coisas. (…). Então a oração traz-me alguma Paz (P 25) e para não terem medo da morte nem do sofrimento: Peço todos os dias a Deus para não ter medo da morte. Mas a gente tem sempre um bocadinho. Peço para não ter medo de ir para debaixo da terra (P 20). Através da oração confiam e entregam ainda a Deus a sua vida: (…) eu quando falo com Deus, é com esse Deus Natureza e falo mesmo com ele e digo-lhe: “Oh Deus Natureza, eu não te vejo, Cristo existiu mas eu a Ti nunca te vi, mas confio em TI. Tu és tudo o que nos envolve (P 8) e a daqueles que lhes são próximos: Rezo todos os dias. Logo de manhã faço uma pequena oração para Deus me proteger durante o dia, depois rezo o terço, faço as minhas orações. Só para

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rezar pela família que já partiu e por pessoas conhecidas, imagine o tempo que ocupo. Já quase só estou cá eu. Os meus irmãos já partiram todos (P 21).

Independentes e Resignados consideram ainda como algo importante na sua vivência espiritual, participar em cerimónias religiosas: Geralmente vou lá [à comunidade religiosa a que pertence] só ao domingo às cerimónias que me faz bem (P 10). A religião para mim é das coisas mais importantes na minha vida. Procuro ir à missa quase todos os dias. Senão vou de manhã, vou de tarde (P 25). Já os Amargurados não o podem fazer pela condição de vulnerabilidade em que se encontram.

Ilustramos a seguir “As Estratégias no âmbito da espiritualidade” para se manterem a envelhecer sozinhos depois dos 80, de acordo com as diferentes atitudes face à vida de quem se encontra neste contexto (Figura 10).

Figura 10 - Ilustração da subcategoria “Estratégias: âmbito da espiritualidade”.

ESTRATÉGIAS: ÂMBITO DA ESPIRITUALIDADE

OS AMARGURADOS Impossibilitados de encontrar um propósito e

ações significativas como ajudar os outros, dada a precariedade e perda de

autonomia. Encontram na oração, o único meio de diálogo com Deus que os faz sentirem-se

menos sós. Pedem a Deus que os acompanhe nos graves problemas e dificuldades e que lhes dê uma morte sem

sofrimento. Abandonam as suas vidas a

Deus. OS RESIGNADOS

Procuram ajudar os outros, particularmente familiares,permitindo-lhes continuar a olhar para a vida

com sentido. Encontram na oração um meio de diálogo com Deus a quem pedem força para lidar

com os problemas e dificuldades, proteção para a

família, paz espiritual e a Ele confiam e entregam a sua vida e a daqueles que lhes

são próximos. Vivenciam a sua espiritualidade através da participação em cerimónias religiosas. OS INDEPENDENTES

Procuram ajudar os outros o que lhes permite continuar a

olhar para a vida com sentido, alargando esta ajuda

aos da sua idade mais vulneráveis. Encontram na oração um meio de diálogo com Deus a quem pedem força para lidar

com os problemas e dificuldades, proteção para a

família, paz espiritual e a Ele confiam e entregam a sua vida e a daqueles que lhes

são próximos. Vivenciam a sua espiritualidade através da participação em cerimónias

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