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Da esquerda para a direita, uma das filhas de Geraldo

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Entre os trabalhos realizados por Numzimane, destaca-se sua relação com os mandawu ou “espíritos da água” e suas habilidades de reza e canalização de energia, bem como a realização de cerimônias de purificação através das águas dos rios ou oceanos. Ela também executa o sistema de adivinhação thokosa de “jogar ossos”, ferramenta utilizada para diagnóstico, e usa uma grande variedade de ervas e tratamentos. Finalmente, recorre ao som através de cantos tradicionais, ao uso de tambores e à dança.53 Numzimane é conhecida ainda por iniciar não-africanos na tradição

sangoma, como podemos ver no trecho da notícia transcrito abaixo,

no qual aparece mais uma vez a idéia da integração entre diferentes linhas espirituais e “xamânicas”, incluindo caminhos não-indígenas ou Ocidentais e “caminhos tradicionais”.

Conforme o mundo está mudando e se unindo, muitas pessoas de caminhos espirituais e xamânicos não-africanos têm sido iniciadas como thokozas por Gogo Numzimane, e muitos desses novos ensinamentos e caminhos tem sido integrados ao caminho africano tradicional, criando uma nova forma que permanece enraizada nas tradições africanas.

(http://www.santodaime.org/community/news/floripa_zulu.htm, tradução minha)

Além de viajar anualmente para o Brasil e mediar a vinda de outros visitantes da África do Sul, como Gogo Numzimane, o casal do Sunmoon Lodge atualmente organiza viagens de grupos sul- africanos para o Brasil, bem como viagens de grupos brasileiros para a África do Sul. Um exemplo neste sentido são as viagens anuais que desde 2007 as lideranças da comunidade Céu do

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Patriarca fazem para a África do Sul com o objetivo de realizar ritos daimistas e cerimônias do Fogo Sagrado. Estas viagens são mediadas e organizadas pelo Sunmoon Lodge. Transcrevo a seguir um email que recebi recentemente através da newsletter do

Sunmoon Lodge divulgando uma dessas cerimônias realizadas

pelos daimistas brasileiros na África do Sul, a ser realizada em abril de 2010.

Dear Isabel

Join us, as we welcome back our Brazilian Family, Enio, Beth & Gui to South Africa.

We will be holding a „Four Tobacco ceremony‟ here at Sunmoon Lodge, (in the Maluti Mountains, Eastern Free State) over the weekend of the 2nd to 5th April 2010 opening with a Temazcal/Sweat Lodge & Chanupa Ceremony on Friday. The ceremony will be held around the sacred fire with the Medicines on Saturday evening, closing on Sunday morning.

The previous „Four Tobacco ceremony‟ that was held in this valley was in Sept 2007, days before the major Rustlers Fire. So much has been shifted & cleansed in this time & the people of this land, look forward to sharing in this sacred ceremony once again.

If you would like to see more information about the Red Path ceremonies such as the Four Tobacco ceremony or the Sun Dance please click here http://www.fogosagradodobrasil.com.br

After this, other Ceremonies will be held in Graaf Reinet & Greyton in the Western Cape. Please contact me for more info about this & other upcoming ceremonies.

Love Leeane

O email convida os interessados para participar de uma cerimônia de quatro tabacos que será conduzida no Sunmoon

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Segundo a divulgação, durante o final de semana do evento também acontecerão um temazcal/sweat lodge e uma cerimônia de shanupa. Sabemos através da mensagem que esta será a segunda cerimônia de medicina do Fogo Sagrado realizada neste local, sendo que a primeira ocorreu em 2007. O email também remete ao site do Fogo Sagrado do Brasil para aqueles que desejarem saber maiores informações a respeito dos ritos.

Já a divulgação dos dois eventos que estão sendo organizados pelo Sunmoon Lodge para 2010 faz uma ponte para a discussão a respeito dos atores que mais recentemente ingressaram na rede da aliança das medicinas: membros do grupo indígena Kaxinawa da Amazônia Brasileira. Em fevereiro de 2010, o Sunmoon Lodge organizou a viagem de um jovem representante Kaxinawa para a África do Sul, com o objetivo de realizar rituais com ayahuasca para não-indígenas, divulgados como “cerimônias de nixi pae”. A divulgação das atividades realizadas por Yawa Bane em sua segunda visita à África do Sul também menciona o uso do rapé,54 do

kampô55 e do tabaco, bem como a possibilidade da realização de “pajelanças individuais” para os interessados. De acordo com o site do Sunmoon Lodge:

54 De acordo com o site do Sunmoon Lodge, a “medicina do rapé” consiste numa

mistura de tabaco natural com cinza de árvores amazônicas, que é soprada dentro do nariz da pessoa com um aplicador especial; “o rapé é uma medicina muito especial para o povo Huni Kuin, que traz a cura e abre nossas conexões com a criação e com o criador”

(http://www.sunmoon.co.za/Kaxinawa.html, tradução minha).

55 Segundo o site do Sunmoon Lodge, “kumpum é um veneno extraído de um sapo

que vive na Amazônia. É uma medicina poderosa, e é necessário que a pessoa tenha treinamento tradicional para aplicá-lo. Kumpum é usado para limpar as energias negativas presentes no nosso sistema, que eventualmente se manifestam fisicamente em nossos corpos na forma de doenças. Ele funciona como um estimulante, ativando todas nossas células e permitindo que a energia flua mais livremente” (http://www.sunmoon.co.za/Kaxinawa.html, tradução minha). (Ver nota a respeito do kampô no capítulo 1).

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Yawa Bane Huni Kuin tem viajado pelo Brasil ao longo dos últimos cinco anos, trazendo as forças de cura da floresta para as pessoas da cidade através das medicinas sagradas ayahuasca, rapé, kumpum e outros. Bane é um jovem líder, e o próximo cacique para seu povo, descendendo de uma longa linhagem de caciques e pajés.

Nixi pae, o nome usado pelo povo de Bane para as cerimônias com ayahuasca, é uma bela oportunidade de experienciar a cura em todos os níveis do ser, em uma cerimônia indígena tradicional cujas práticas são transmitidas de geração a geração. Foi através da jiboà (jibóia), a grande cobra branca, que o povo Huni Kuin (Kaxinawa) recebeu sua sabedoria e as tradições da ayahuasca. Durante o nixi pae, Bane canta para invocar a força da jiboà, que traz a cura e a sabedoria, e para invocar as forças da floresta, das árvores, das flores, da água, do sol e dos animais. Os cantos são ancestrais e consistem numa parte integrante da cerimônia (http://www.sunmoon.co.za/Kaxinawa.html, tradução e edição minhas).

Neste texto, podemos ver que considera-se que o jovem Kaxinawa traz as “forças de cura da floresta” para as pessoas da cidade, utilizando “medicinas sagradas” como a ayahuasca, o rapé e o kumpum. A cerimônia com ayahuasca é descrita aqui como “tradicional” e como uma forma de “experienciar a cura em todos os níveis do ser”. Também menciona-se a relação dos Kaxinawa com a

jiboà (sic), ser que traz a “cura e a sabedoria” e o uso de “cantos

ancestrais”.

Já o convite abaixo é para um retiro de 20 dias no interior do Rio de Janeiro organizado pelo Sunmoon Lodge e direcionado para estrangeiros, que inclui em sua programação uma dieta e cerimônias de nixi pae. Aqui encontramos mais uma vez a menção à ayahuasca e ao rapé como “medicinas sagradas”, bem como a elementos da natureza, como a floresta, a água e as rochas.

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Também afirma-se que o condutor dos rituais, um “jovem líder do povo Huni Kuin”, há seis anos vem trazendo sabedoria e medicinas da floresta para as pessoas da cidade.

Na seção seguinte, discutiremos mais a respeito da recente inserção dos Kaxinawa na rede da aliança das medicinas, apontando para alguns possíveis desdobramentos deste processo.

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Figura 2 Convite para retiro com os kaxinawa no interior do Rio de Janeiro

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5. Os Kaxinawa

Os Kaxinawa são o grupo Pano mais conhecido, havendo grande material etnológico e histórico a seu respeito. Sua população é estimada em 7.000 indivíduos, que habitam a Floresta Amazônica de ambos os lados da fronteira entre o Leste peruano e o Noroeste brasileiro, no Estado do Acre, onde representam o grupo indígena mais numeroso (Lagrou 2007). Não pretendo me aprofundar aqui na discussão sobre este grupo indígena, entretanto não é possível ignorar sua inserção na aliança das medicinas.56

Ao longo da última década, alguns jovens indígenas Kaxinawa começaram a realizar rituais com ayahuasca direcionados para um público não-indígena em grandes cidades do Brasil, como São Paulo, Rio de Janeiro e, mais recentemente, Florianópolis. Nesta cidade, a partir de 2008, representantes Kaxinawa vêm conduzindo cerimônias eventuais no espaço Tempo do Vento e na comunidade Céu do Patriarca. Sua expressiva participação no Encontro de Medicinas de 2009, bem como a viagem realizada para o Acre por alguns dos integrantes do Céu do Patriarca no final de 2009 para conhecerem as aldeias Kaxinawa na região do rio Jordão, apontam para o destaque que os membros deste grupo indígena vêm adquirindo no contexto da rede da aliança das medicinas.

A inserção recente de alguns representantes Kaxinawa num circuito ayahuasqueiro urbano fez com que eles se conectassem a amplas redes nacionais e internacionais relacionadas ao consumo da ayahuasca, o que tem tido como desdobramento a realização de cerimônias e workshops realizados por esses indígenas não só no

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Para maiores informações a respeito dos Kaxinawa, ver Lagrou 2002 e 2007, entre outros.

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Brasil, mas também em outras partes do mundo.57 Através da entrada desses jovens indígenas num amplo circuito ayahuasqueiro transnacional, os Kaxinawa vêm hoje sendo crescentemente representados como “os índios originários da ayahuasca”, o que repercute numa valorização de suas práticas, ritos e conhecimentos dentro deste circuito.

Entretanto, apesar da centralidade que a ayahuasca parece vir adquirindo hoje para os grupos Kaxinawa, em uma pesquisa realizada com dois jovens desta etnia no início do século 20 Capistrano de Abreu (1941 citado Calávia Saez 2009), embora mencione uma lista de plantas e bebidas utilizadas pelos Kaxinawa, não se refere em momento algum ao uso da ayahuasca. Já para outros povos indígenas da região amazônica, como os Yawanawa, o cipó aparece dentro e um conjunto, que inclui elementos como datura, tabaco e pimenta (Calávia Saez 2009).

Neste sentido, Oscar Calávia Saez, num artigo escrito recentemente no qual se propõe a fazer uma espécie de revisão da literatura a respeito do uso indígena da ayahuasca, indica que, embora hoje esta bebida venha sendo eleita como um dos principais

57 Como o fenômeno é muito recente, ainda não há reflexões antropológicas

consistentes a respeito deste processo e seus desdobramentos. As únicas referências a respeito na literatura das quais tenho conhecimento encontram-se no projeto de doutorado de Thiago Coutinho (2010), que se propõe a pesquisar a realização de ritos com ayahuasca por jovens Kaxinawa em cidades; e na dissertação de mestrado de Rafael Mendonça Costa (2009), na área de psicologia. Este trabalho, que enfoca os estados visionários produzidos pela ayahuasca, contém um capítulo dedicado aos Huni Kuin, incluindo relatos sobre a estadia do autor nas aldeias Kaxinawa; uma menção a um rito Kaxinawa realizado no Rio de Janeiro; bem como indicações sobre modificações dos ritos realizados nas aldeias kaxinawa decorrentes do contato com o Santo Daime. Já Ingrid Weber (2006) mostra em seu livro como a atual intensificação dos ritos de cipó nas aldeias kaxinawa, da presença de cantores que conhecem os “cantos do cipó” e de mulheres que sabem tecer os desenhos kene estão ligados à atual expansão do discurso da “valorização da cultura”, amplamente empregado no âmbito da política indigenista, bem como por um grande número de povos indígenas no Brasil e em outros países.

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símbolos diacríticos dos grupos indígenas brasileiros, especialmente os amazônicos, e seja representada dentro dos circuitos new age como tendo uma origem indígena remota e ancestral, existem indícios de que, primeiramente, há não muito tempo atrás a ayahuasca constituía apenas mais um elemento dentro de um amplo e variado conjunto de plantas e substâncias psicoativas utilizadas pelos grupos indígenas e, em segundo lugar, de que em muitos casos seu uso pode não ser tão antigo como se imagina.58 Desta maneira, a centralidade que a ayahuasca vem adquirindo hoje para os Kaxinawa indica que seu xamanismo, longe de ser fixo ou estático, constitui um sistema dinâmico, emergente e em constante transformação.

Enquanto, como aponta Saez, o consumo indígena da ayahuasca sempre esteve ligado a redes que conectavam diferentes povos e dentro das quais trocavam-se saberes e substâncias,59 hoje essas redes tornaram-se mais amplas e passaram a incluir, além dos grupos indígenas, o que, por falta de um termo melhor, poderíamos chamar de “mundo não-indígena”, transbordando fronteiras culturais, linguísticas e geográficas e estendendo-se às mais diferentes partes do globo. A rede da aliança das medicinas constitui um exemplo neste sentido. Desta forma, podemos afirmar que, de certa maneira, a ayahuasca continua exercendo seu papel de mediadora entre povos e de sintetizadora de veículos de

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Ver, por exemplo as discussões de Peter Gow a respeito de como o xamanismo da ayahuasca irradiaria desde o espaço colonial e urbano em direção à floresta, onde alguns grupos não conhecem a bebida ou então conferem a ela um espaço menos central (Gow 1994 citado em Calávia Saez 2009).

59Segundo Calávia Saez, o xamanismo da ayahuasca está repleto de “indícios de

uma ecumene: cantos, desenhos e mitos desbordam limites étnicos ou linguísticos”, apontando para a existência de um “comércio entre etnias, ou mais exatamente entre praticantes de etnias diferentes” (2009:10).

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expressão verbais, musicais e visuais (Calávia Saez 2009), num mundo agora pós-colonial, pós-moderno e globalizado.

Por outro lado, a ligação crescente, que manifesta-se de diferentes formas, entre membros de grupos indígenas e circuitos urbanos e new age tem um impacto na representação dos xamanismos indígenas, que passam a ser cada vez mais vistos como uma espécie de medicina. O papel terapêutico que a ayahuasca em geral desempenha nas religiões ayahuasqueiras, onde o uso da bebida aparece vinculado principalmente a temas como o conhecimento de si e do universo, é estendido aos usos indígenas da ayahuasca. Uma das consequências deste processo é uma simplificação e mesmo uma redução dos xamanismos indígenas, que ao transporem-se para um universo new age urbano passam a ser destituídos de seus aspectos constitutivos relacionados à feitiçaria, guerra e predação (Calávia Saez 2009). Nas palavras de Saez, o xamanismo é submetido a um “processo de moralização e vegetalização” que não faz jus às complexidades dos xamanismos indígenas (Calávia Saez 2009:5).

O estabelecimento de uma série de traduções, analogias e equivalências entre conceitos indígenas e concepções presentes no discurso new age indica que a agência indígena tem um papel importante nesses contextos de diálogos interculturais. Nas divulgações dos rituais Kaxinawa incluídas acima e abaixo, podemos ver como noções indígenas são adaptadas e traduzidas de maneira que possam se tornar inteligíveis para um público urbano, não-indígena e, muitas vezes, estrangeiro. Entretanto, essas traduções são muitas vezes intermediadas por atores não indígenas, que colaboram na organização, divulgação e realização das

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cerimônias que membros deste grupo indígena realizam em contextos extra-aldeia.

A inserção dos grupos sul-africanos e de representantes kaxinawa na aliança das medicinas também indica que esta rede vem se conectando a outras redes, nacionais e internacionais, relacionadas ao consumo da ayahuasca e adquirindo um caráter crescentemente transnacional. Entretanto, mapear essas outras redes transcende os limites do presente trabalho. Deixo aqui apenas uma indicação, no sentido de apontar para a dimensão e a complexidade que este fenômeno vem assumindo no mundo contemporâneo.

Figura 3 Convite para cerimônia Kaxinawa no Tempo do Vento

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Capítulo 3: Fogo Sagrado de Itzachilatlan

Tudo que é irreal desaparece quando exposto ao “Fogo da Verdade”. Através da investigação direta de sua natureza, de que quem você realmente é, apenas o real permanece, eternamente.

(www.fogosagrado.org.br)

(fonte da imagem: www.fogosagrado.org.br)

O nome oficial do Fogo Sagrado é Igreja Nativa Americana do

Fogo Sagrado de Itzachilatlan, numa referência ao vínculo

reivindicado com a NAC – Native American Church. Também é conhecido como Caminho Vermelho ou, simplesmente, Caminho.60 Este grupo consiste numa organização internacional, que conta com ramificações atualmente presentes em diversos países do

60 Caminho Vermelho ou red road é uma concepção pan-indígena e new age do

caminho de vida correto, inspirada por algumas das crenças encontradas em uma variedade de grupos nativas norte-americanas. Estes grupos são diversos e, em algumas deles, a noção de “caminho vermelho”, pode estar relacionado à guerra e combate (http://en.wikipedia.org/wiki/The_red_road, acesso em novembro de 2009).