• Nenhum resultado encontrado

Arbitragem, título executivo idôneo para embasar a ação de execução da qual o presente recurso especial se origina, razão pela qual é desnecessária a homologação por esta Corte.

7. Recurso especial provido para restabelecer a decisão proferida à e-STJ, fl. 60174.

Logo, em sendo proferida em território brasileiro, temos uma sentença arbitral doméstica; uma vez proferida fora desse território, temos uma sentença arbitral estrangeira.

A Lei Brasileira de Arbitragem dedicou um capítulo específico para tratar do reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras.

A importância dada pelo sistema jurídico brasileiro para a homologação das sentenças estrangeiras é tão grande que, desde 2004, com a alteração dada pela Emenda Constitucional n. 45, a Carta Magna expressamente previu a competência exclusiva do Superior Tribunal de Justiça para a homologação de sentenças estrangeiras (anteriormente, a competência dessa homologação era do Supremo Tribunal Federal, conforme art. 102, I, h, da Constituição Federal, revogado pela citada ED n. 45/04).

A legislação processual brasileira também dedicou um capítulo específico sobre o tema (capítulo VI - da homologação de decisão estrangeira e da concessão do exequatur à carta rogatória – arts. 906 a 965 do Código de Processo Civil), gerando não só a segurança jurídica acerca dos procedimentos que devem ser adotados pelo Superior Tribunal de Justiça, mas também a certeza acerca dos requisitos necessários para que essa sentença seja homologada (importante ressaltar que os arts. 961 e 965 devem ser aplicados subsidiariamente em razão do disposto no art. 36, da Lei de Arbitragem176).

Para reconhecimento ou execução no Brasil deverão ser respeitados os tratados internacionais com eficácia no ordenamento interno (como, por exemplo, a Convenção de Nova Iorque sobre o Reconhecimento e Execução de Sentenças Arbitrais Estrangeiras, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro por intermédio do Decreto n. 4.311/2002), e, na sua ausência, estritamente de acordo com aquela lei.

A sentença arbitral estrangeira deverá, necessariamente (e unicamente), ser homologada perante o Superior Tribunal de Justiça, que, apesar da sua competência para delibação, negará essa homologação quando o réu demonstrar que (art. 38):

I - as partes na convenção de arbitragem eram incapazes;

176 Que faz referência aos arts. 483 e 484 do CPC revogado.

II - a convenção de arbitragem não era válida segundo a lei a qual as partes a submeteram, ou, na falta de indicação, em virtude da lei do país onde a sentença arbitral foi proferida;

III - não foi notificado da designação do árbitro ou do procedimento de arbitragem, ou tenha sido violado o princípio do contraditório, impossibilitando a ampla defesa;

IV - a sentença arbitral foi proferida fora dos limites da convenção de arbitragem, e não foi possível separar a parte excedente daquela submetida à arbitragem;

V - a instituição da arbitragem não está de acordo com o compromisso arbitral ou cláusula compromissória;

VI - a sentença arbitral não se tenha, ainda, tornado obrigatória para as partes, tenha sido anulada, ou, ainda, tenha sido suspensa por órgão judicial do país onde a sentença arbitral for prolatada.

Além disso, o Superior Tribunal de Justiça poderá denegar a homologação para o reconhecimento ou execução da sentença arbitral estrangeira se constatar que o objeto do litígio não era suscetível de ser resolvido por arbitragem ou se a decisão ofender a ordem pública nacional, conforme estabelecido no art. 39 da LBArb177.

Note-se, portanto, que não obstante as hipóteses de restrição de homologação da sentença estrangeira, não há qualquer competência do STJ, ou de qualquer outro órgão do Poder Judiciário para questionar a validade dessa sentença. Tal competência, se for o caso, será do órgão judicial do país em que foi proferida, inclusive em face da disposição contida no inciso VI, do citado art. 38 da LBArb.

Teresa Arruda Alvim Wambier178 já teve oportunidade de se manifestar nesse sentido, em parecer jurídico elaborado acerca da inviabilidade da demanda de anulação da sentença arbitral estrangeira.

177 Art. 39 - A homologação para o reconhecimento ou a execução da sentença arbitral estrangeira também será denegada se o Superior Tribunal de Justiça constatar que: (Redação dada pela Lei n.

13.129, de 2015)

I - segundo a lei brasileira, o objeto do litígio não é suscetível de ser resolvido por arbitragem;

II - a decisão ofende a ordem pública nacional.

178 WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Inviabilidade da demanda de anulação da sentença arbitral estrangeira ajuizada perante o Poder Judiciário brasileiro. Pareceres - Teresa Arruda Alvim Wambier, v. 1, pp. 145-181, out. 2012. Disponível em:

https://revistadostribunais.com.br/maf/app/resultList/document?&src=rl&srguid=i0ad82d9b000001842 4043078544c91df&docguid=I8dd305c0296c11e29273010000000000&hitguid=I8dd305c0296c11e292

73010000000000&spos=10&epos=10&td=514&context=77&crumb-action=append&crumb-label=Documento&isDocFG=false&isFromMultiSumm=&startChunk=1&endChunk=1. Acesso em: 29 out. 2022.

As normas que definem os limites da jurisdição de um Estado são normas que encontram respaldo no princípio da soberania nacional.

Sendo assim, não podem ser objeto de disposição pela vontade das partes interessadas, por se tratar de normas de ordem pública.

As partes não podem, dessa maneira, ampliar, nem restringir referidas normas. As partes podem no máximo modificar a competência territorial, mas não podem modificar a extensão da jurisdição nacional13.

Assim, ao analisar o caso concreto, o juiz deve, primeiro, verificar se o litígio encontra-se dentro dos limites da extensão da jurisdição nacional. Na hipótese negativa, ou seja, caso conclua que o litígio encontra-se fora dos limites da jurisdição nacional, estará diante da ausência de um pressuposto processual de existência, devendo extinguir o processo, com fulcro no art. 267, IV, CPC (LGL\1973\5).

Além de tudo, neste contexto, é imprescindível que se chame atenção para o princípio da efetividade.

O chamado princípio da efetividade é limitador do exercício da jurisdição estatal.

De acordo com o princípio da efetividade, assevera a doutrina, o Estado não poderá exercer a função jurisdicional quando a sentença que proferir não tenha possibilidade de ser executada14. Isto se explica porque o exercício da função jurisdicional seria absolutamente inútil (...).

Assim, no caso submetido à nossa apreciação, a sentença arbitral só poderia ser anulada pelo juiz do local em que foi proferida, no caso Miami, Flórida, Estados Unidos. As partes escolheram a sede da arbitragem em Miami, definindo, portanto, a jurisdição que tem controle sobre a sentença arbitral proferida. Tendo sido definida, na convenção de arbitragem e na ata de missão, que seriam aplicadas as regras da Corte Internacional de Arbitragem da Câmara de Comércio Internacional (ICC), o procedimento arbitral se pautava por essas regras e, também, pelas regras processuais observadas pelos tribunais locais, únicos órgãos dotados de jurisdição para analisar qualquer questão decorrente do processo arbitral.

Com o pedido de homologação da sentença arbitral estrangeira, busca-se, portanto, apenas um juízo de delibação, ou seja, a existência dos requisitos mínimos legais para a efetiva homologação, sem se adentrar no mérito do julgamento realizado pelo Tribunal Arbitral.

A competência limitada do STJ foi, inclusive, reconhecida por sua corte especial, em recente decisão proferida179 quando da elaboração deste estudo:

SENTENÇA ARBITRAL ESTRANGEIRA CONTESTADA.

COMPETÊNCIA DO STJ. JUÍZO DELIBAÇÃO. CHANCELA CONSULAR. APOSTILA. HOMOLOGAÇÃO DEFERIDA.

179 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. HDE 5431 / EX Homologação de Decisão Estrangeira 2021/0199320-6. Rel. Min. Francisco Falcão, Corte Especial. Data do julgamento: 03 ago. 2022. Data da publicação: 18 ago. 2022. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp. Acesso em: 29 out. 2022.

I - O Superior Tribunal de Justiça tem competência para emitir juízo meramente delibatório acerca da homologação de sentença estrangeira. Assim, eventual deferimento do pedido de homologação, portanto, limita-se a dar eficácia à sentença estrangeira, nos exatos termos em que proferida, não sendo possível aditá-la para inserir provimento que dela não conste.

II - A competência do Juízo arbitral pode ser aferida pela sentença arbitral proferida nos limites da própria convenção que permitiu sua instauração.

III - A Convenção sobre Eliminação da Exigência de Legalização de Documentos Públicos Estrangeiros, promulgada por intermédio do Decreto n. 8.660/2016, prevê a substituição da chancela consular brasileira pela apostila emitida pela autoridade competente do Estado no qual o documento é originado.

IV - Homologação deferida.

Importante, neste momento, diferenciar o conceito de sentença estrangeira com sentença internacional.

Utilizando as palavras de Thomas Law180:

A sentença internacional consiste em ato judicial emanado de órgão judiciário internacional de que o Estado faz parte, seja porque aceito a sua jurisdição obrigatória, como é o caso da Corte Interamericana de Direito Humanos (Costa Rica) ou do Tribunal Penal Internacional (TPI) -, seja porque, em acordo especial, concordou em submeter a solução de determinada controvérsia a um organismo internacional, como a corte Internacional de Justiça (Haia).

O próprio STJ reconheceu a diferenciação entre sentença estrangeira e sentença internacional, ao negar a homologação de sentença proferida pela Corte Permanente de Justiça Internacional de Haia181:

SENTENÇA ESTRANGEIRA. DECISÃO PROFERIDA PELA CORTE PERMANENTE DE JUSTIÇA INTERNACIONAL DE HAIA, EM 1929, TENDO COMO PARTES O GOVERNO BRASILEIRO E O GOVERNO FRANCÊS. ILEGITIMIDADE DE EMPRESA ESTRANHA À DECISÃO PARA POSTULAR A SUA HOMOLOGAÇÃO. ADEMAIS, DECISÃO QUE NÃO SE SUBSUME AO CONCEITO DE SENTENÇA ESTRANGEIRA E CUJA HOMOLOGAÇÃO AFRONTARIA A SOBERANIA NACIONAL.

I - Inexiste sentença estrangeira a ser homologada, em nome da parte requerente. A decisão submetida à validação do Judiciário brasileiro advém da Corte Permanente de Justiça Internacional de Haia, que, à época, proferiu decisão arbitral em contenda instalada entre os

180 LAW, Thomas. O reconhecimento e a execução de sentença arbitrais estrangeiras no Brasil.

2. ed. Belo Horizonte: Editora D´Plácido, 2018, pp. 73-74.

181 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. SEC 2707 / NL Sentença Estrangeira Contestada. Rel. Min.

Francisco Falcão, Corte Especial. Julgado em: 03 dez. 2008. Publicado em: 19 fev. 2009. Disponível em: https://scon.stj.jus.br/SCON/pesquisar.jsp. Acesso em: 29 out. 2022;

Governos Brasileiro e Francês, quanto a empréstimo por aquele efetuado nos idos de 1909 e os juros aplicáveis.

II - Assim sendo, carece Gesparte Comércio e Participações Ltda. de legitimidade para postular a homologação da decisão referente a dois Estados soberanos, sendo imperioso relevar que, consoante bem lembrado no parecer ministerial, “a busca de outros caminhos compatíveis com os compromissos assumidos pelos empréstimos tomados pelo governo brasileiro junto ao governo francês, torna evidente o empenho destes em definir suas pendências, dentro dos parâmetros legais estabelecidos pelas leis dos países sobre a matéria”.

III - Noutras palavras, o próprio governo francês jamais reclamou a observância da decisão proferida pela Corte Internacional, não sendo possível que, passado quase um século, venha empresa particular solicitar a sua homologação no Brasil.

IV - De se considerar, ademais, que a Corte Internacional não profere decisão que se subsuma ao conceito de “sentença estrangeira”, visto que é órgão supranacional. A propósito, relevo o documento expedido pela Corte Internacional de Justiça, em 24 de outubro de 2007, juntado pelo requerente, às fls. 323, em que se esclarece: “a CPIJ, assim como a Corte Internacional de Justiça, não são cortes ou tribunais estrangeiros, cujos julgamentos não são decisões judiciais ou sentenças estrangeiras que requeiram qualquer tipo de exequator ou homologação.

V - Em conclusão, não há sentença estrangeira stricto sensu a ser homologada e, tampouco, é legítima a empresa Gespart Comércio Participações Ltda. para solicitar tal homologação a qual, enfim, afrontaria a soberania nacional.

VI - Pedido denegado.

Portanto, em razão de suas diferenças, a sentença internacional não é objeto de homologação pelo STJ, diferentemente de uma sentença estrangeira.

Veja-se, portanto, a que a competência do Poder Judiciário brasileiro, mais especificamente do Superior Tribunal de Justiça, está adstrito à homologação da sentença arbitral estrangeira (delibação), podendo afastar essa situação se ocorrer uma das hipóteses já mencionadas no presente item.

12.3 Das fontes do direito aplicável homologação da sentença arbitral