SUMÁRIO
5 A FORMAÇÃO E ESTRUTURAÇÃO DO CAMPO ORGANIZACIONAL DE FRUTAS E HORTALIÇAS EM SANTIAGO RS
5.2 DA FEIRA LIVRE AO HORTOMERCADO (1978 1992)
A primeira iniciativa de comercialização direta de frutas, hortaliças e outros alimentos iniciou em 1978 com a Feira Livre da Praça dos Brinquedos. Inicialmente, 12 feirantes comercializavam nas manhãs de quartas e sábados, junto aos veículos e charretes, dispondo os alimentos em caixas de madeira sobre as calçadas, como demonstra a figura 3. Nessa época, segundo relato, a feira não tinha uma estrutura organizada e “A gente estacionava e colocava tudo no cordão da calçada, tudo nas caixas, no chão. Até a balança ficava no chão. Naquela época era tudo a vontade, quem quisesse ir lá podia ir” (Agricultor_hortomercado_4).
Figura 3 – Vista parcial da Feira da Praça dos Brinquedos em sua origem
Fonte: Núcleo de Comunicação da Prefeitura Municipal de Santiago
A idealização da Feira foi da Prefeitura Municipal que mobilizou os agricultores, concedeu o uso do espaço físico e disponibilizou um servidor municipal como Fiscal. O Fiscal da Feira tinha a função de motivar os agricultores, fazer cumprir os horários, autorizar a venda de alimentos, tabelar e supervisionar os preços. Primeiramente, participavam da feira os agricultores e atravessadores que revendiam alimentos adquiridos na região colonial, ou de fruteiras da cidade. A comercialização de produtos cárneos somente era permitida na forma de animais vivos, especialmente galinhas caipiras, que deviam ser abatidas no domicílio do consumidor.
A EMATER/RS-ASCAR, doravante denominada simplesmente como Emater, começa a participar das atividades da feira a partir de 198424. Além do acompanhamento por meio de visitas técnicas aos estabelecimentos rurais, também iniciou o processo de habilitar os agricultores para melhor atender os consumidores e de cuidar da aparência e a higiene dos alimentos. Houve nessa época as primeiras melhorias na infraestrutura da feira, com a disponibilização de tendas, construídas em ferro e cobertas por lona, para abrigar dos ventos e chuvas mais fortes. Em dias diferentes daqueles de realização da feira na Praça dos Brinquedos, alguns agricultores realizavam feiras itinerantes em outros bairros, como no Bairro da Vila Nova e São Jorge.
O aumento da produção de hortigranjeiros foi beneficiada pela instalação em 1984 do supermercado da Cooperativa Regional Tritícola Santiaguense Ltda., que buscava aumentar a aquisição de alimentos locais. Esse fator permitiu que alguns feirantes dessem início na produção para o fornecimento para os varejistas, como denota a fala de um entrevistado: “Eu saía bem cedo. O guarda da cooperativa abria e recebia a alface. Eu colocava para dentro às 6 horas da manhã. Depois eu ia para a Feira. No final voltava na cooperativa para controlar o que tinha ficado (Historiador_4). A possibilidade de entrega regular tornara-se um fator para a profissionalização da produção. Segundo May (1985), nessa época, 42% dos consumidores do município davam preferência de compra para a Cooperativa Tritícola, dada a diversidade de mercadorias, bem como os preços que eram praticados.
O Jornal A Razão de novembro de 1986 destaca a Feira do Produtor, ao mesmo tempo em que relata a inovação em plasticultura que já começa a despontar no município. Relato desse feirante informou que grande parte das hortaliças eram destinadas para atender o Supermercado da Cooperativa Tritícola (figura 4).
A participação da Emater, da Prefeitura e do Fiscal, tornaram-se fatores de motivação e de qualificação para as atividades de Feira. A recorrente visita nos estabelecimentos rurais, a melhoria na diversidade dos alimentos e a participação dos consumidores foram permitindo o aumento do número de feirantes, ao ponto de, em 1987, ter sido criada a Comissão Provisória de Feirantes, para instituir as primeiras regras de realização de uma feira livre. Esse regulamento excluía, desde então, a comercialização daqueles que não tivessem produção própria no município. Aqui começa a criação de um limite material e definidor das relações sociais que ocorrem no campo organizacional, o qual coincide com os limites geográficos do
24 Por mais que o Escritório Municipal da Emater tenha sido criado em 06 de dezembro de 1966, as atividades
município, bem como a decisão do pesquisador de tratar o município como o próprio território.
Com o início de uma nova gestão municipal, em 1988, foi estabelecida a Secretaria Municipal de Agricultura e Pecuária (SMAP), para atuar nas áreas de produção, gestão, comercialização, atração de investimentos e fomento às iniciativas locais na agricultura. Para avaliar a demanda local por frutas, hortaliças e alimentos da agroindústria caseira, nesse mesmo ano, a Emater realizou uma pesquisa de varejo, que constatou que 87% desses alimentos provinham de fora do município (RIO GRANDE DO SUL, 1990).
Figura 4 – Notícia vinculada ao Jornal A Razão em novembro de 1986, referente à produção de hortaliças e frutas em Santiago
Apoiados pela demanda crescente por hortaliças, esse período registra a expansão de inovações tecnológicas, a exemplo do cultivo em ambientes protegidos, que permitia produzir hortaliças mesmo em condições climáticas adversas. Para apoiar os primeiros investimentos, em 1988, a Fundação Legião Brasileira de Assistência fez uma subvenção financeira para aquisição de diversos itens25, dentre os quais a construção de estufas e a implantação de irrigação para a produção de hortigranjeiros. Mesmo que fossem beneficiados somente cinco agricultores, o crédito permitiu o aumento das áreas de cultivo e o desenvolvimento de inovações a exemplo da Estufa Modelo Santiago (Anexo B) que, segundo Borne (1989), era uma alternativa para o feirante de Santiago e foi precursora dos cultivos protegidos no Rio Grande do Sul. Segundo um entrevistado “Na época, foi o município que teve mais estufa do Rio Grande do Sul, chegando a ter 10 hectares de área coberta” (Fomento_extensão_1). Essas inovações no campo técnico estimularam o início das primeiras operações de crédito realizadas pela Agência local do Banco do Brasil, direcionadas para investimentos em equipamentos de irrigação, filmes plásticos, microtratores e outros instrumentos de trabalho.
A Associação Santiaguense dos Feirantes foi fundada por 20 agricultores, em 29 de abril de 1989, os quais buscavam “aperfeiçoamento técnico e melhorias na comercialização” (ASSOCIAÇÃO DOS FEIRANTES DE SANTIAGO, 1989, p. 5). O ato de fundação reuniu representantes da Prefeitura (Prefeito e Secretário de Agricultura), Câmara de Vereadores, Emater, Clubes Sociais e Núcleo de Voluntariado da Legião Brasileira de Assistência26, e entre as falas identifica-se o desafio para Santiago ser “autossuficiente em hortifrutigranjeiros” (ASSOCIAÇÃO DOS FEIRANTES DE SANTIAGO, 1989, p. 004).
Logo em seguida foram definidas as primeiras regras para a participação dos feirantes na Feira, dentre as quais: ser agricultor e possuir produção própria em Santiago; cuidar da apresentação e limpeza dos produtos; não reutilizar embalagens para alimentos in natura; fazer uso de avental; garantir o fornecimento ininterrupto de alimentos; apresentar os preços à vista para os consumidores e deixar a feira sempre limpa. O cumprimento das deliberações do regulamento e do Estatuto Social eram fiscalizadas pelo Fiscal da Feira. A discussão sobre o cumprimento das regras tomava a maior parte das conversas e reuniões entre os feirantes que começaram a ser recorrentes. As reuniões incluíam a participação de vereadores, presidentes de entidades, agentes públicos e representantes dos meios de comunicação, como as emissoras
25 O extrato de contrato entre a Fundação Legião Brasileira de Assistência e o Núcleo-Comunitário de
Santiago/RS foi publicado no Diário Oficial da União de 18 de Março de 1988. O objeto foi a criação de 15 microunidades produtivas de apicultura, hortigranjeiros, aquisição de junta de bois, tambo de leite, irrigação de hortigranjeiros, estufa, moinho colonial, beneficiando um total de 55 pessoas (BRASIL, 1988).
de rádios. Também ocorrem atividades de confraternização (jantares, almoços, festas, escolha da rainha da feira) e a participação dos feirantes em atividades comunitárias como desfiles cívicos e festas típicas (Festa do Gaúcho). A Festa do Gaúcho foi idealizada pela Prefeitura Municipal como um evento de promoção da produção pecuária local, o tradicionalismo, e o modo de vida do gaúcho, onde os feirantes podiam comercializar produtos coloniais.
A possibilidade da construção de um prédio exclusivo para a Feira começou a ser projetado nas eleições municipais de 1987, como promessa de campanha do candidato do Partido Democrático Social (PDS), posteriormente eleito, diante da constatação da necessidade de um espaço mais apropriado para a realização da comercialização (contornos de um campo em expansão). Em 1989, foi criada a comissão responsável por definir o modelo do prédio a ser construído, a qual reunia agricultores, técnicos da Emater e Prefeitura. O recurso financeiro foi obtido com o Governo Federal e as obras iniciaram no segundo semestre de 1991, com inauguração no primeiro semestre de 1992 (figura 5). O terreno era localizado em uma região pouco urbanizada, mas próxima ao centro da cidade, havido por permuta com o Hospital de Caridade de Santiago. O modelo do prédio foi reproduzido conforme um pavilhão de feira livre de Cachoeira do Sul, conhecido por meio de uma visita técnica, e constituído por 41 boxes individuais, farmácia, mercearia e lancheria. Portanto, o embrião para a construção do hortomercado parte de uma decisão política.
Figura 5 – Inauguração do Hortomercado em 1992
A necessidade de redução da dependência de alimentos oriundos da CEASA-RS permanecia no discurso das autoridades locais como atesta o excerto do livro de Atas da Associação dos Feirantes “[...] o prefeito falou que os feirantes têm que plantar mais verduras para não vir da CEASA porque chegam aqui com o preço muito alto” (ASSOCIAÇÃO DOS FEIRANTES DE SANTIAGO, 1990, p. 016). Com esse objetivo, em 1990, a Prefeitura aderiu ao Programa Integrado de Produção e Abastecimento de Produtos Hortigranjeiros na Região de Santa Maria, o qual propunha interligar a produção e o consumo de hortigranjeiros e estimular os pequenos produtores para o abastecimento tanto em quantidade como em diversidade para as populações urbanas das cidades da região (RIO GRANDE DO SUL, 1990). Na justificativa, o programa sustentava que a oferta local de frutas, hortaliças e produtos coloniais não ultrapassavam 17% do consumo e o restante provinha da CEASA Porto Alegre ou de São Paulo, Bahia, Paraná, Espirito Santo, Santa Catarina, dentre outros estados (RIO GRANDE DO SUL, 1990). Caberia aos 18 municípios da região Central27, sob coordenação da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento através da Emater e CEASA-RS um conjunto de estratégias para reduzir essa dependência: criar uma Central de Abastecimento em Santa Maria; estimular o associativismo como forma de organização das comunidades rurais; implantar Associações de Produtores em todos os municípios e formar Conselho Consultivo dos municípios participantes da Central.
Na Fruticultura, a primeira iniciativa de fomento foi em 1990, pela adesão do município ao Programa Estadual da Citricultura da Secretaria de Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul. O Banrisul financiava os investimentos em pomares de citros através do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento dos Pequenos Estabelecimentos Rurais (FEAPER). Para sensibilizar os agricultores para o plantio, foi designado um técnico do Escritório municipal da Emater exclusivamente para esse fim. Até essa época, os pomares não tinham uma finalidade comercial e limitavam-se a videiras para a produção artesanal de vinhos e produção de poucas frutas para o autoconsumo.
5.3 OS AJUSTES NO HORTOMERCADO E AS INICIATIVAS NA FRUTICULTURA