Tabela 06 Atividades desenvolvidas pelos professores surdos no período de participação do
4.3.4 Da forma de captura das discussões (imagens)
O procedimento usado para registro dos dados foi a vídeo gravação, pois possibilitava o registro da “dinâmica do grupo” e, assim facilitou a análise do processo a partir da posterior visualização do pesquisador, possibilitando-me uma análise exotópica34 dos encontros.
A preparação do local para as reuniões favoreceu a interação entre os participantes. Usamos uma sala com cadeiras confortáveis dispostas em círculo com mesa na lateral e quadro branco para registro, quando fosse necessário.
Utilizamos equipamento para registrar as discussões, duas filmadoras dispostas frente a frente (Figura 17) a fim de que cada uma delas capturasse a imagem de três participantes.
34 Análise exotópica em pesquisas de ciências humanas consiste da relação de tensão entre o eu
e o outro, em que o pesquisador toma uma posição única, a partir do espaço/tempo que ocupa, e expõe-se ao devir. Como ser cognoscente, o pesquisador constrói uma visão sobre o todo. Assim, os discursos enunciados no GFR são inacabados e parte integrante e inconclusa da experiência do pesquisador, estando disponível para o acabamento, para sua interpretação e para a construção de novos conhecimentos sobre eles. “Assinar é iluminar e validar o pensamento com aquilo que somente do meu lugar pode-se ver ou dizer. Esse lugar único daquele que pensa ou cria é aquele do conceito de exotopia [...]” (AMORIM, 2006, p. 25).
151 Figura 17: Sala de aula – disposição das filmadoras
Figura 18: Visão da filmadora 1 Figura 19: Visão da filmadora 2 4.3.5 Da forma de registro das enunciações
Na investigação sobre a constituição de sujeitos, em especial no que concerne a processos que se apresentam em contextos educativos, o campo da educação pautado na matriz histórico-cultural vêm recorrendo a uma abordagem metodológica referida como “análise microgenética”.
De um modo geral, trata-se de uma forma de construção de dados que requer a atenção a detalhes e o recorte de episódios interativos, sendo o exame orientado para o funcionamento dos sujeitos focais, as
152 relações intersubjetivas e as condições sociais da situação, resultando num relato minucioso dos acontecimentos (GÓES, 2000, p. 9).
Segundo Góes (2000), a concepção e termo “genética” usado nessa matriz se origina nas proposições de Vygotski sobre o funcionamento humano e a análise minuciosa de um processo, de modo a configurar sua gênese social e as transformações do curso de eventos. Na análise, há uma centralidade do entrelaçamento das dimensões cultural, histórica e semiótica no estudo do funcionamento humano.
As enunciações que compõem os episódios das reuniões de grupo de estudo foram selecionadas a partir das filmagens do processo de discussão do grupo, e desses trechos, os diálogos foram traduzidos35 da Libras para português escrito. Os episódios foram fonte para análise conforme as categorias levantadas nesta pesquisa.
A expressão dos professores de Libras e da pesquisadora foi a matéria a ser compreendida. A filosofia da expressão nos ajudou a apreender esse complexo processo, ou seja, a expressão desses professores como o campo de encontro de duas consciências, as do eu e a do outro. Para Bakhtin “o problema da compreensão como visão do sentido, não uma visão fenomênica e sim uma visão do sentido vivo da vivência na expressão, uma visão do fenômeno internamente compreendido, por assim dizer autocompreendido” (BAKHTIN, 2010 [1940], p. 396).
O método de construção de dados incluiu análise de interações entre professores de Libras e pesquisadora. Em função de o grupo de estudo ser composto por surdos usuários de Libras (colaboradores da pesquisa), a língua de discussão escolhida foi a Libras. As interações ocorriam majoritariamente pelo uso da Libras, mas como alguns surdos eram oralizados, por vezes falavam e sinalizavam, e em momentos específicos, apenas falavam em português oral. A escrita também esteve presente nas interações. Desse modo, o processo de coleta de dados da pesquisa dependeu de uma série de equipamentos específicos para documentar os diálogos nesta língua viso-gestual. Considera-se material permanente essencial para a execução dessa pesquisa no mínimo duas filmadoras que capturassem as discussões dos participantes do grupo de estudo.
35 Agradeço a Lara Ferreira dos Santos pela discussão a respeito desta questão. Alertando-me de
que dado o objeto da minha pesquisa ser o discurso, não se fazia necessária a transcrição em glosa de todos os vídeos. O registro foi feito por meio da escrita, sendo esta a forma de tradução da Libras para o português, assim como feito por Harrison (2006).
153 Uma série de estudos vem sendo desenvolvida para aprimorar os procedimentos de coleta de dados no campo da análise da conversa, e em especial de conversas em línguas de sinais36.
Foi preciso desenvolver uma estratégia de tradução e visualização das falas que, em uma interação natural, por vezes se sobrepunham, do registro dos gestos e feições que dão o feedback para quem toma o turno de fala.
Câmera 1
Câmera 2
T E M P OClaudia Solange Pesquisadora Renata Adriana Gustavo 00'35''
a 01'27''
Corta o
papo Olá, vamos começar... arrumando a (está bolsa)
(ausente) Pode falar
Tabela 07: Ficha de tradução dos enunciados do grupo focal reflexivo
A tabela (tabela 7) indica quais participantes eram registrados por cada uma das câmeras, em função dos lugares ocupados no momento da filmagem, identificando por qual câmera foram capturados. Desenvolvemos a tradução de suas falas para o português registrando no seu campo correspondente, sendo estes enunciados sobrepostos no mesmo tempo. O tempo do vídeo (gravação) foi registrado na primeira coluna da tabela.
36 SACK e SCHEGLOFF (2003) descrevem que “[...] estivemos engajados em pesquisa, usando
gravações de conversas espontâneas, que foi cada vez mais direcionada para a extração, a caracterização e a descrição das inter-relações dos vários tipos de organização sequencial operantes na conversa.” GAGO (2002) indica a necessidade de, na transcrição de uma conversa, se dar um tratamento às pausas da conversa e aos risos, por exemplo. Dessa forma, se torna mais consciente e torna-se explícito os procedimentos de cedência de turno ou de espera de uma resposta. No âmbito das línguas de sinais, pesquisadores têm desenvolvido sistemas de transcrição linguística. Ferreira-Brito, (1995) e Felipe (2001) desenvolveram um sistema similar de transposição dos sinais para o papel, levando em consideração aspectos linguísticos da Libras, como a espacialidade. Entretanto, Lacerda (2006) preocupou-se em registrar também a interação no uso da linguagem, com uma visão enunciativa da língua de sinais, o que demanda outros elementos de marcação. Mais recentemente, McCleary e Viotti (2007) e Leite (2008) fazem uso de um programa de computação denominado ELAN, também com foco na descrição linguística, um sistema mais sofisticado para registrar os traços da língua que envolve vídeo e escrita. Pesquisadores da área da surdez têm usado ora um, ora o outro sistema de transcrição, a depender dos objetivos de sua pesquisa.
154 A tabela foi criada por nós para favorecer a compreensão e tradução das falas. Os desenhos também são de nossa autoria. Para a produção dos desenhos, usamos o Pixton, programa online onde os usuários criam Histórias em Quadrinhos (HQ), personagens, cenários e episódios usando elementos pré-desenhados.
No programa, se tem uma visão de editor de imagens, em que são selecionadas as caraterísticas dos personagens. Para cada sujeito dessa pesquisa, selecionamos traços bem particulares que lembrem os participantes. Com o intuito de não identificar os sujeitos da pesquisa, os nomes são fictícios.
Figura 20: Editor de história em quadrinhos do Pixton
No processo de transcrição, precisamos visualizar os vídeos das duas câmeras simultaneamente e o espaço para a escrita do texto.
155 Figura 21: Disposição dos programas para a atividade de tradução/transcrição.
Chamo a atividade de tradução/transcrição, pois são duas funções, primeiro de transpor de uma língua gestual visual para a modalidade escrita de uma língua oral auditiva, o português – configurando um processo de tradução; concomitante a isto desenvolvemos o processo de verter a língua da interação face a face em escrita, configurando um processo de transcrição.
Considerando que a proposta do trabalho não é de uma análise linguística descritiva, mas sim dos discursos que emergiram do grupo focal reflexivo, optamos pela tarefa de tradução/transcrição. Desta forma, os vídeos com as enunciações em Libras foram assistidos e escritos em português, considerando que as interações abrangem o uso da língua de sinais face a face. Sentimos a necessidade de adotar uma forma de transcrição dos marcadores da interação face a face. Assim, para o processo de transcrição do material gravado, adotamos as normas abaixo, adequadas aos objetivos da presente pesquisa, a partir de adaptações das normas de transcrição indicadas por Nogueira e Fiad (2007) de transcrição de áudio-gravação e de Gesser (2006) de vídeo gravação.
Ocorrência Marcação
Enunciação entre os interlocutores em Libras. Itálico
156 /p/a/l/a/v/r/a/
Escrito no quadro ou no caderno ITÁLICO E LETRA MAIÚSCULA
Gestos ou comportamentos dos interlocutores – interpretação da ação feita pela pesquisadora
(entre parênteses)
Enunciação em língua portuguesa falada simultaneamente à Libras
sublinhado
Que não foi dito, mas está implícito [entre colchetes]
Dito apenas oralmente Tachado
Indicação de que a fala foi tomada ou interrompida em determinado ponto
(...)
Citações literais ou leitura de texto, durante a gravação
“entre aspas"
Comentários transcritivos do pesquisador (( )) Quando não há intervalo entre o final de um
turno e início do próximo
= Fala simultânea entre dois ou mais interlocutores
Quando parte da fala foi retirada pela pesquisadora
(...)
Ao final da enunciação se estende a mão, passando o turno
éh::::
Interpretação de Frames Ele era lindo! {ironia} Expressões Fáticas ah, éh, eh, ahn, ehn, uhn, tá
Tabela 8: Notas de transcrição dos enunciados
Estudos sobre transcrição de línguas orais podem nos ajudar a construir uma proposta de tradução/transcrição das interações em línguas de sinais. Por exemplo, os
frames são considerados como campos de conhecimentos delimitados (emoldurados),
pois ao interpretarmos a fala do outro a categorizamos, e Preti (2000) indica que essa interpretação é construída não apenas pelas palavras, mas também pelas expressões faciais, entonação etc. Avança para a compreensão para além das palavras, mas também pela própria estrutura de determinado tipo de discurso, utilizando de pistas contextuais.
Os frames têm ligações socioculturais favorecidas por modelos cognitivos
(esquemas de conhecimento), desta forma é importante que o pesquisador conheça profundamente a língua que medeia seu objeto de estudo (PRETI, 2000). Neste
157 trabalho, a pesquisadora é fluente em Libras e foi a mesma pessoa que mediou as relações no grupo focal reflexivo. Todavia, conhecer a língua não exime qualquer participante de perder informações ou desenvolver interpretações equivocadas no fluxo da interação, por isso, se fez fundamental a filmagem para que como pesquisadora revisitássemos as discussões e sistematizássemos os dados.
Dessa forma, consideramos que optar por marcar na transcrição os risos, a direção do olhar, a sobreposição de fala, entre outros elementos definidos em nossa tabela de transcrição, pode contribuir para que nosso leitor construa suas interpretações, perpassadas, é claro, pelas interpretações já construídas pela pesquisadora que se deteve aos processos de tradução/transcrição em "visitas" aos vídeos em exaustão.
Faz-se fundamental explicar que, como o objeto de estudo foi o discurso, optamos pela tradução/transcrição. Todavia, há episódios em que, no processo de análise, nos remetemos a algum sinal da Libras – tema da discussão, ocasião em que se fez importante explicitar ao leitor qual sinal (item lexical) foi usado. Nestes casos, elegemos manter a tradução/transcrição no quadro em que apresentamos os enunciados e em nota de rodapé registrar o sinal da Libras. Para este registro, utilizamos então a foto da pesquisadora reproduzindo o sinal realizado pelo sujeito na videogravação, a descrição da produção do sinal e disponibilizamos um link para a visualização da produção do sinal em Libras (vídeo).
Problematizamos a atual forma de fazer pesquisa e registrar em português interações em Libras. O processo de tradução e transcrição é complexo e, por vezes, perde-se com a aplicação deste processo. Consideramos que a disponibilização da vídeo-gravação da enunciação em Libras é, por enquanto, a partir dos recursos tecnológicos que dispomos, a melhor opção para que o leitor da pesquisa tenha acesso à produção do sinal.