Casebres em ruínas
Muros
Escalavrados...
E a lesma – na sua liberdade de ir nua
Úmida! (BARROS, 2001)
Figura 6 – Caramujo-Flor
Neste tópico analisamos a cena de abertura de Caramujo-Flor. Num efeito de sentido
construído, Joel Pizzini presentifica a matéria verbal de Manoel de Barros investindo
sensorialmente com o objetivo de levar seus leitores a viver corporalmente sua experiência de
leitura vivenciada na obra do poeta.
Em Retrato do Artista quando Coisa (1998, p. 371), em nota de rodapé, Barros diz
que:
A fim de percorrer uma lesma desde o seu nascer até sua extinção,
terei que compreender como é que ela recebe as manhãs,
como é que ela anoitece.
Terei de saber como é que ela reage ao sol, às chuvas, aos escuros, ao abismo, ao alarme do
papagaios.
Vou ter que encostar meu ouvido no chão para o devido rastejo.
Terei que produzir em mim a gosma dela a fim de lubrificar os caminhos da terra [...] terei de
aprender a marcar com a minha saliva o chão dos poemas.
Joel Pizzini transubstancia a linguagem verbal de Barros. O novo texto produzido por
Pizzini a partir da leitura de Barros se transforma em voz e imagem. Não mais verbal, não
somente verbal, mas verbal e também visual. O novo texto elaborado por Pizzini se constitui
na imagem dinamizada na linguagem de um modo singular em que a natureza passa a ser
expressiva e o sentimento sensorial passa a ser corporificado na própria imagem.
A imagem evocada que dá abertura ao curta-metragem evidencia o movimento do
caramujo-flor na parede, esse vaguear de corpo mole, amorfo, gosmento, que vai deixando
seu rastro por onde passa; é a própria visualização do caramujo vagueando sem rumo, sem um
plano. A imagem é aqui verbal, escrita, cursiva, manual. A cor preta representa a parede e a
cor branca o caminhar do caramujo por sobre a parede. Na descrição do poeta Manoel de
Barros, conforme já apresentado: ―Os caramujos-flores são um ramo de caramujos/ que só
saem de noite para passear‖. Molusco de hábitos noturnos, esses seres: ―De preferência
procuram paredes sujas, onde se pregam e se pastam‖. Ambos: caramujo e parede se entregam
e se doam numa completude: ―Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles essas paredes / Ou
se são por elas pastados‖.
A imagem – inquietante e incomum – se reveste de conteúdo formalizado e apela para
a sensação conferindo um novo significado. Pizzini apropria-se do verbal manoelino e relê
esse verbal em imagem estética e poética, ou em imagem estético-poética. O cineasta espera
que seus leitores, também num gesto de leitura, releiam a imagem que o tocou e que também
sintam as sensações quando do momento em que releu Os Caramujos Flores. Que a poesia
enquanto aparência se transforme em visão.
O material verbal e o material visual, isto é, a poética de Manoel de Barros e as lentes
de Joel Pizzini “se pregam e se pastam [...] Provavelmente se compensem”, se
“transubstancializem”.
A palavra grafada numa cor branca sobre um fundo negro permite que o leitor tenha
essa ―expressão do sentimento sensorial‖ com que Pizzini (1988) define seu ―projeto estético‖
Caramujo-Flor. Em seu ―projeto estético‖, Pizzini, através de seu jogo de imagens, luz e
cores mostra de outra forma a poesia de Manoel de Barros, isto é, transforma,
―transubstancializa‖ em imagens e oralidade as figuras e as sonoridades expressas na poesia
de Barros.
O caramujo vagueando, pregando e pastando pelas paredes no poema alia-se à imagem
de abertura e apresentação do curta-metragem de Joel Pizzini criando um efeito de sentido de
que as lentes da câmera de Pizzini vagueando, pregando e pastando sobre a obra de Manoel
de Barros ―provavelmente se compensam”, como a “parede” e o “caramujo”. A imagem é
construída por Pizzini por meio de uma analogia sensorial. A mesma sensação expressa por
Barros é uma forma de presença semiótica em Pizzini.
A inscrição criada na tela cinematográfica do nome do filme tal como evocado -
- é matéria de composição do curta-metragem enquanto cena materializada em
grafia pelo cineasta, chamando a atenção do espectador para a importância da palavra escrita,
a matéria verbal transformada agora em discurso visual, mas mantendo-se ao mesmo tempo
verbal, sugerindo o movimento do próprio caramujo, tendo como fundo sonoro os sons do
mar. Esse movimento do caramujo verbalizado por Manoel de Barros como caramujos que
“se pregam e se pastam” e em que “paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores /
E os caramujos-flores [emprestam] às paredes sua gosma”, são agora visualizados no
discurso estético e cinematográfico de Joel Pizzini como um caramujo que, ao perpassar uma
superfície plana, “paredes sujas” “de noite”, vai deixando sua gosma que, quando seca,
depois da escuridão, ―desabrocham como os bestegos”,mostrando o próprio nome do
curta-metragem.
Pizzini, tal como o poeta Manoel de Barros – ―desimportante‖ -, transforma seu curta
num bestego através da recorrência das figuras e dos temas, num eterno processo de
transubstanciação.
Pizzini não apenas identifica a ―matéria de poesia‖ de Barros, mas também exibe
visual e sensorialmente constatações particulares por meio de observações sinestésicas.
Pizzini dá luz, cor, som e movimento à ―matéria de poesia‖ de Barros por meio de uma
prática sensível de análise sensorial. Se para Pizzini: ―O cinema é um instrumento de poesia‖
ou ―revelação de mundos sensíveis‖, reler Manoel de Barros requer um revisitar de imagens,
requer sensibilidade para criar uma nova linguagem que acentue a plasticidade e o caráter
performático da palavra e que vá além da mera transmissão de mensagens.
O plano da expressão que é sonoro, verbal na obra de Manoel de Barros é visualizado
e sonorizado na obra de Pizzini através de figuras visuais e de outras ordens sensoriais. As
imagens formuladas por Barros apelam para a experimentação sensorial pela combinação de
componentes da natureza e de invenções poéticas, conforme o próprio poeta assinala numa
epígrafe contida em Memórias Inventadas: a Infância: ―Tudo o que não invento é falso‖.
Assim, as imagens poéticas obtidas por meio da ―matéria de poesia‖ de Barros não são apenas
utilizadas, mas encenadas, trabalhadas e tocadas.
Barros e Pizzini ―se pregam e se pastam‖.Joel Pizzini transfere alguns fragmentos da
sonoridade de Manoel de Barros para a visualidade performática dos atores de Caramujo-Flor
através de uma rede de discursos e imagens que se projetam e se inter-relacionam dando curso
à materialidade visual do curta-metragem.
Segundo Manoel de Barros, no poema Os Caramujos: ―No geral os caramujos têm
uma voz desconformada por dentro/ talvez porque tenham a boca trôpega‖. De acordo com o
Dicionário da Língua Portuguesa (NASCENTE, 2000, p. 629), o vocábulo Trôpego é um
adjetivo e significa aquele ―Que anda com dificuldade, movendo os pés arrastada e
penosamente‖. Que tem dificuldade ou impossibilidade de mover qualquer dos membros.
Dadas as características do caramujo, de corpo mole, invertebrado, de pele supersensível e
que por isso ―só saem a noite para passear‖, em silêncio ‗trabalham‘ ―talvez porque tenham a
boca trôpega‖. No seu andar com dificuldade ―Eles carregam com paciência o início do
mundo‖ e ―há um comportamento de eternidade nos caramujos‖. Esses conteúdos descritos
por Barros: ―trôpega‖, ―paciência‖, ―comportamento de eternidade‖ ―pequenos moluscos‖ são
materializados em expressão na leitura realizada Pizzini na imagem em epígrafe. Pizzini
pratica uma leitura dos poemas Os Caramujos e Os Caramujos-Flores de Manoel de Barros
de forma estilizada, filtrada através dos sentidos e transfigurado em linguagem confirmando
mais uma vez que o caramujo constitui a chave de leitura do discurso audiovisual de Pizzini,
recuperando também a sensorialidade visual e tática tanto nesta imagem quanto na imagem
em que aparece o caramujo sobre a boca de Cabeludinho.
No documento
ITINERÁRIOS SEMIÓTICOS EM “CARAMUJO-FLOR”, CURTA- METRAGEM DE JOEL PIZZINI, SOBRE A POESIA DE MANOEL DE
(páginas 102-105)