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3 NIETZSCHE EM OPOSIÇÃO A KANT

3.1 DA IMPOSSIBILIDADE DA ÉTICA DO DEVER DE KANT

crítico feroz da ética dos deveres formulada por Kant, considerando-a impraticável no mundo real, uma fuga à natureza autêntica do homem, pois esta repleta de termos do além, que pouco significam, operando como consolo em um mundo idealizado na filosofia (ou “Teologia”) kantiana.

Já no início de sua radical obra, O Anticristo, Nietzsche (1895), destila seu desprezo à obra de Kant:

[...] qual a razão da convicção alemã, que ainda hoje encontra eco, de que Kant iniciou uma mudança para melhor? Foi o instinto de teólogo no erudito alemão que adivinhou que a partir de então era outra vez possível...Abriu-se uma passagem secreta para o velho ideal, os conceitos de “mundo verdadeiro” e de moral como essência do mundo (os dois erros mais perniciosos que existem!) eram novamente, graças a um ceticismo ardiloso e esperto, se não demonstráveis, pelo menos não mais refutáveis...A razão, o direito da razão não vai tão longe...Fez-se da realidade uma aparência; transformou-se um mundo completamente inventado, o do ente, em realidade...O êxito de Kant é meramente um êxito de teólogo: do mesmo modo que Lutero, que Leibniz, Kant foi um entrave à retidão alemã, já em si carente de firmeza. (NIETZSCHE, 2009, p. 23).

De início, resta evidente a distância entre os dois modos de tratar o tema, pois Nietzsche denota uma filosofia profundamente existencial, fundada no caráter, no egoísmo, nas paixões, no cuidado de si, na pessoalidade e no interesse próprio. Desse modo, a filosofia baseada em um imperativo incondicional do dever fundado na razão, assegurado em regras a serem seguidas à risca independente da situação fática, seria prontamente afastada, pois não alcança as possibilidades de ação do ser humano, se traduzindo em mero construto formal, teórico, repleto de retórica sobre um mundo idealizado.

Nessa perspectiva, Nietzsche compreende que o apelo ao universal da filosofia kantiana tinha o poder de nivelar por baixo os homens. Por isto, denominava Kant de o “chinês de Konigsberg”, por atribuir aos chineses tal característica nociva à natureza grandiosa e imponente do homem. Assim, Nietzsche vai atrás de uma moral do indivíduo forte ou maduro, dotada de pessoalidade, que busca confessadamente a vantagem própria, ou seja, têm objetivo inverso ao programado por Kant.

Vejamos no aforisma 95, de Humano, demasiado humano, o tipo de moralidade que este admite:

95. Moral do indivíduo maduro.- Até agora a impessoalidade foi vista como a verdadeira característica da ação moral; e demonstrou-se que no início foi a consideração pela utilidade geral que fez todas as ações impessoais serem louvadas e distinguidas. Mas não estaria iminente uma significativa transformação dessa maneira de ver, agora que cada vez mais se percebe que justamente na consideração mais pessoal possível se acha também a maior utilidade para o conjunto; de modo que precisamente o agir estritamente pessoal corresponde ao conceito atual de moralidade (entendida como utilidade geral)? Fazer de si uma pessoa inteira, e em tudo quanto se faz ter em vista o seu bem supremo – isso leva mais longe do que as agitações e ações compassivas em favor de outros. Sem dúvida, todos nós sofremos ainda com a pouquíssima atenção dada ao que é pessoal em nós; ele está mal desenvolvido – confessamos que dele subtraímos violentamente nosso interesse, sacrificando-o ao Estado, à ciência, ao carente de ajuda, como se fosse a parte ruim que tivesse de ser sacrificada. E agora queremos trabalhar para o próximo, mas apenas enquanto vemos nesse trabalho nossa vantagem suprema, nem mais, nem menos. Trata-se apenas de saber o que se entender por vantagem própria, justamente o indivíduo imaturo, não desenvolvido e grosseiro entenderá isso no sentido mais grosseiro. (NIETZSCHE, 2010, p. 67).

Nietzsche promulga, no lugar do dever ser, a ética do vir-a-ser. Postula que o homem, em sua individualidade, apresenta distintas necessidades, por expressarem a vivência enraizada em cada indivíduo, logo, o agir humano é manifestado pelo resgate de processos inconscientes já presentes. O homem, neste sentido, somente poderia agir a partir do que está circunscrito em si, não sendo coagido por princípios metafísicos ou procedimentos controlados a priori pela racionalidade.

A crítica principal à moral do dever nasce da impossibilidade de sustentar a moral por intermédio de procedimentos exclusivos da razão, que possam oferecer a validade absoluta e objetiva de suas regras. Dessa

forma Nietzsche anuncia de modo radical uma teoria metamoral ou genealógico-histórica, pois vislumbra uma revisão do estudo da moral feito até então, na qual ele pretende colocar em xeque a moral vigente, principalmente a moral provinda da religião cristã, bem como a de Kant, na sua pretensão à universalidade e a falácia do desinteresse de fins próprios.

Nietzsche aponta ainda que todo discurso sobre a moral foi criado e representa, emerge de uma moral vigente, em um dado tempo, lugar, não fazendo sentido construir um arcabouço moral que possa ser validado independente destes fatores supracitados. O professor Érico Andrade M. de Oliveira bem versa sobre a natureza da crítica de Nietzsche a moral:

A tese que anima essa busca pela origem da moral encerra a ideia fundamental de que todo discurso sobre a moral pauta-se na moral de uma época ou cultura. A moral reflete estruturas sociais, psicológicas e históricas do homem. Elevar uma moral, geralmente associada a um grupo, ao patamar de universal é uma maneira de impor um valor. É a vitória da maioria sobre o individuo. É a força do rebanho que arrasta a diferença para inscrevê-lo no seio da igualdade banal e impessoal. O rebanho é que dá à época seus contornos, sua feição. (OLIVEIRA, Érico, 2010, p. 173).

Desse modo, Nietzsche constrói um projeto crítico ao que denomina de moral de décadence, o tipo de moral identificada principalmente na ética do dever e na moral cristã, que o mesmo caracteriza como nociva à natureza humana, pois nega seus instintos de vida fundamentais, como o egoísmo, em prol de um “altruísmo”, de um desinteresse próprio, que submete o homem a uma atrofia, envenenando sua existência.

Nietzsche se coloca como inimigo número um da Ética Deontológica. Age assim, ao contrário da lógica empregada por seu antecessor, para denunciar a falácia da pretensão universalista de valores e da incondicionalidade destes deveres obrigatórios concernentes ao ser supostamente dotado de uma dada moralidade, a fim de melhor

demonstrar essas objeções. Atentemo-nos ao que Nietzsche nos diz sobre a antiga moral kantiana:

“[...]A antiga moral, notadamente a de Kant, exige do indivíduo ações que se deseja serem de todos os homens: o que é algo belo e ingênuo; como se cada qual soubesse, sem dificuldades, que procedimento beneficiaria toda a humanidade, e, portanto que ações seriam desejáveis; é uma teoria como a do livre-comércio, pressupondo que a harmonia universal tem que produzir-se por si mesma, conforme leis inatas de aperfeiçoamento. Talvez uma futura visão geral das necessidades da humanidade mostre que não é absolutamente desejável que todos os homens ajam do mesmo modo, mas sim que, no interesse de objetivos ecumênicos, deveriam ser propostas, para segmentos inteiros da humanidade, tarefas especiais e talvez más, ocasionalmente. - Em todo caso, para que a humanidade não se destrua com um tal governo global consciente deve-se antes obter, como critério cientifico para os objetivos ecumênicos, um conhecimento das condições da cultura que até agora não foi atingido. Esta é imensa tarefa dos grandes espíritos do próximo século”. (NIETZSCHE, 2005, p. 33).

Neste contexto, aferimos que, da perspectiva Nietzscheana, uma lei que vale para todos, por ser universal, não poderá, de modo algum, valer para uma individualidade singular legítima e autêntica, pois é genuinamente pessoal, de modo que “meu ideal” não pode ser o ideal de mais ninguém, sob o encargo de suprimir a individualidade única de cada ser humano.

3.2 CRÍTICAS AO CONCEITO DE IMPERATIVO CATEGÓRICO

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