A FALA MÍTICA: CICATRIZ EPISTEMOLÓGICA DO ESTATUTO HUMANO Estudos do Livro Terceiro: “Da Descoberta do Verdadeiro Homero”
3.3. Da inatingível Faculdade Poética de Homero
Inicialmente, Vico, pela constatação anterior da ausência de filosofia em Homero, analisa as proposições de Horácio em Arte poética. Horácio admite a dificuldade em conceber novos personagens depois de Homero, isto é, novos caracteres – emprestando-os para modelar as tragédias. A comédia Nova e seus personagens resultam de uma organização, de uma polis e, sobretudo, de uma lei articulada por nova ordem de valores. Seus personagens forjados pela realidade trazem o falso representado, enquanto que Homero é verdadeiro na origem. As características específicas desses gêneros literários serão em outro momento analisadas com mais rigor e detalhes, permitindo que tal dissertação concentre os esforços e tempo na análise mais profunda do texto viquiano.
A origem do verdadeiro em Homero de acordo com o método viquiano traduz a antecedência e aqui, confirma o estatuto epistemológico apresentado na Sabedoria Poética; a saber, as fábulas são verdadeiras histórias no percurso do tempo, alteradas e corrompidas, chegando a Homero dessa forma. Os poetas heróicos são classificados por Vico como: os da primeira idade responsáveis pela criação das fábulas, dos caracteres sustentados pelos significados imaginados fortemente e, assim, vividos e praticados comunitariamente como verdadeiras narrações. Na segunda idade dos poetas heróicos, houve a alteração e corrupção das primeiras criações. Na terceira, os caracteres chegaram a Homero que, assim, os conservou e posteriormente os registrou em escrita rude e limitada. Os gregos reuniram em cada caractere todos os diversos particulares – significativos e narrativos – pertencentes a cada um dos gêneros poéticos. Assim, Aquiles na Ilíada e Ulisses na Odisséia constituíram dois caracteres que formaram uma nação, imaginados uniformemente pelo senso comum, pelo decoro – que é a expressão da divina providência, isto é, a permanência humana no aprimoramento das suas faculdades, conferindo – assim – beleza e graça às fábulas que são, primordialmente, a fala, o feito.
O caráter sublime da poesia deve, portanto, acompanhar o vulgo responsável pela legitimidade do verdadeiro na narrativa e nos feitos. Os caracteres poéticos imaginados presenciavam os trabalhos, experiências e criações no momento da concretização do imaginativo mundo civil para, posteriormente, constituírem as regras norteadoras dos costumes, os exemplos para as organizações coletivas. Os signos traduzem os elementos agregadores do social mantenedor da espécie humana, enquanto que o caractere é o fruto do trabalho e do trabalhador que ao criá-lo torna a terra modelada de significado a partir da inserção do seu suor e da sua imanência sobre o mundo, assim, transformado.
O senso comum, que expressa a providência e garante a formação do mito e da fábula, pode ser sentido por todo um povo como uma ordenação do gênero humano porque é um juízo isento de qualquer reflexão. Ele é sentido e assim sua legitimidade avança no tempo e na obscuridade das primeiras mentes, chegando até os poetas heróicos e deixando seus rastros na memória dos povos para que suas fundamentações contribuam para o contínuo aprimoramento da sociedade. Assim, os primeiros autores são uma ordenação na forma do gênero humano reunido.
As idéias uniformes presentes em todos os povos, desconhecidos e separados no tempo e no espaço, apontam para a existência de um motivo comum de verdade, isto é, de origem, de material para a criação e de maneiras constructas das respostas procuradas. O certo no direito natural é, enfim, o critério dado pela providência divina (esforços e expressões todos do conjunto cognitivo que enfrenta, individualmente e coletivamente, sua própria obscuridade para a superação das dificuldades ameaçadoras); e esse critério universal (o senso comum, a providência) certifica o entendimento das unidades substanciais de cada feito, de cada caractere poético. O direito natural ordenador das práticas, cultos e comunidades é o certo criado e não uma determinação transcendental - as leis são metafisicamente processuais e humanas – sua origem obscura e inalcançável repousa no superior divino presente nas mentes e nos seus movimentos; constituindo, assim, o espaço de legitimidade encontrado por todos os povos e nações.
A história ideal eterna para Vico se configura pela permanência da espécie humana no mundo que se realiza pelo trabalho da história ideal compreendida como a construção da história de todas as nações inscrita no tempo. As diferentes línguas articuladas existentes expressam o dicionário mental originário das articulações da fala e dos feitos precursores e mantenedores da história ideal eterna. Por meio do mesmo critério epistemológico, o direito é
ordenado pelos costumes humanos, isto é, pelo mesmo dicionário mental e por toda sua criação, demonstra o cerne da providência divina, que o cria em cada espaço privado de cada nação separadamente, reconhecendo e considerando os aspectos comuns das leis e ordenações universalmente para todo o gênero humano após o contato, por comércio, guerra e outros. Esse aspecto é reconhecido pela uniformidade da necessidade de ordenação, primeiramente; e também pela semelhança na organização – isto é, nas fábulas criadas durante o desenvolvimento das nações.
E aqui se faz importante reflexão: se os povos se fundaram com as leis; e se as leis, entre todos foram ditadas em versos, e as primeiras coisas dos povos, também em verso se conservaram, é necessário que todas as primeiras coisas dos povos, também em verso se conservaram, é necessário que todos os primeiros povos tenham sido poetas. (Sn44, § 470)
Enfim, a faculdade poética de Homero torna-se inatingível; no entanto, seu percurso nas mentes dos povos e no mundo civil delineia rastros capazes de sustentar tanto o processo de permanência humana no mundo, quanto o de aperfeiçoamento das suas capacidades. A memória é o recôndito espaço em que o obscuro alimenta as potencialidades da própria memória. O inatingível é assim denominado pela análise dos rastros nos quais a descoberta do verdadeiro Homero elucida, aos poucos, o estatuto epistemológico viquiano capaz de humanizar o próprio humano – um ser cuja substância se apresenta unicamente pela travessia no mundo, compreendida pelos desdobramentos do próprio rastro.