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– DA INFÂNCIA À MATURIDADE: identidades e desejos

A questão do ser-mulher perpassa dois aspectos distintos, porém correlacionados. Um pertinente à condição específica de fertilidade inerente à mulher, o outro, de caráter geral, conexo ao desejo enquanto traço inerente ao ser humano.

Ambos os aspectos se fazem presentes na criação rosiana como um todo e, particularmente, em Corpo de Baile que, desde seu título, indicializa tanto uma totalidade corpórea quanto sua estruturação conjugada.

No que diz respeito à unicidade desse corpo, são questões relevantes as interlocuções e a subjetividade cujas análises estruturais discursivas poderão, ou não, atestar a alteridade como fundamento da identidade dos protagonistas. Os elementos constitutivos dessas interações balizarão tanto unidade e integração do material quanto seus desdobramentos nas articulações entre forma e conteúdo.

A propósito da segunda compleição, destaque-se as diversas relações entre os protagonistas, acentuadamente masculinos, e as várias personagens-mulheres a que estes se associam sob formas distintas de interações.

Panoramicamente, temos: Miguilim – Nhanina; Manuelzão – Dona Quilina; Pedro Orósio – namoradas; Lélio – Lina; Soropita – Doralda e Miguel – Maria da Glória, entre outras.

Desse modo, se evidenciam dois termos carecendo de fundo comum, com o primeiro formado pelas novelas Campo Geral, Uma estória de amor e O recado do Morro, e o segundo, A estória de Lélio e Lina, Dão-Lalalão e Buriti

Por ora, detenhamo-nos no primeiro termo, qual seja, o conjunto formado por Campo Geral, Uma estória de amor e O recado do Morro, em que se destacam, para a primeira novela, as personagens de Nhanina – mãe, Vó Izidra – tia, Mãitina e Rosa – agregadas e Drelina e Chica – irmãs. Para a segunda, Dona Quilina – progenitora, Leonísia – nora, Joana Xaviel – contadora de estórias externa a fazenda, e na terceira novela, Dona Vininha – fazendeira apenas nominada e Nelzi – jovem moradora da cidade.

Neste grupo feminino, temos um traço predominante, com um dissonante.

O dominante diz respeito às mulheres-mães – Nhanina, D. Quilina, Leonísia, Dona Vininha e Nelzi, cuidadora dos irmãos menores. O traço dissonante é Joana Xaviel, a capioa subversiva dos padrões patriarcais.

Considere-se que, se a exceção confirma a regra, o perfil desse grupo se caracteriza por uma subjetividade atrelada ao perfil social, logo histórico, em que o feminino, em seus vieses sociocultural, político e econômico, se insere – ou é inserido – em categorias construídas e balizadas enquanto aportes institucionais que vão da individualidade até o ser social

Vista no conjunto de aspectos que pontuam a criação rosiana, particularmente no caso das três novelas componentes do primeiro termo, ainda que não se possa perder de vista seu caráter verossímil, principalmente em sua contextualização, temos como suporte temático a problematização da subjetividade e sua relação com a verdade.

A partir desse viés, temos questionamentos como: que relação o sujeito estabelece consigo a partir de verdades que culturalmente lhe são atribuídas? Ou as práticas sociais de aprisionamento e de encarceramento acarretam a produção de sujeições?

As possíveis respostas a estas questões nos indicarão as relações subjetivas com o mundo imediato, o que, em termos dos enredos em questão, remonta vivência e, consequentemente memória.

Considerado o percentual de mulheres-mãe, e seu afim – Nelzi, o contexto se redimensiona uma vez que respostas também acoplam incertezas. Entre subjetividade e sujeição, há a maternidade, vinculada à fertilidade, logo à manutenção da espécie a despeito de seu aspecto sociocultural; no que diz respeito ao direito feminino, contudo, circunscrito a governabilidade do espaço doméstico,

Quanto às composições das novelas, postos tratar-se de narrativas, sua construção plural pertence a toda e quaisquer personagens enquanto determinada concepção de tempo e espaço anexos à memória, o que nos encaminha às concepções benjaminianas de narrador em sua capacidade de intercambiar experiências. Trata-se, portanto, de que

A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte a que recorrerarn todos os narradores, E, entre as narrativas escritas, as melhores são as que menos se distinguem da, histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. Entre estes, existem dois grupos que se interpenetram de múltiplas maneiras. Á figura do narrador só se toma plenamente tangível se temos presentes esses dois grupos (...) o narrador como alguém que vem de longe. Mas também escutamos com prazer o homem que ganhou honestamente sua vida sem sair do seu país e que conhece suas histórias e tradições. Se quisermos concretizar esses dois grupos através dos seus representantes arcaicos, podemos dizer que um é

exemplificado pelo camponês sedentário, e o outro pelo marinheiro comerciante (...) (BENJAMIN, 1994, p. 198 – 199).

Nesse contexto, o foco destinado às mulheres que, como quaisquer seres humanos, são sujeitos do desejo tanto remete à propensão, anseio, necessidade ou movimento em direção a um objeto cujo fascínio espiritual ou sexual é sentido pela alma e pelo corpo quanto acomoda vieses como filosofia da consciência e do sujeito enquanto análise existencial, principalmente em sua essência estética.

A esta condição narrativa rosiana corresponde novos horizontes epistemológicos em que a dimensão semântica a ser atingida exige considerar experiências de letras que vão além dela, ou mais propriamente, se enderece até a relação problemática entre vida e realidade, principalmente quanto ao aspecto feminino.

Assim, a atinente e indissolúvel reflexão sobre prática poética, a partir da peculiar escrita rosiana, nos encaminha para a colocação em jogo não só da sua própria consistência expressiva, mas também por este intermédio se vincula ao espírito humano em que

Há seres que só desejam ser sugados no vórtice da origem. Outros há que, ao contrário, mantém com ela uma relação reticente e circunspecta, engenhando-se para, na medida do possível, não serem engolidos pelo maelstrôm1. Outros, enfim, mais pávidos ou ignaros, nem sequer ousaram alguma vez lançar um olhar em seu interior (AGAMBEN, 2018, p. 86)

Nos enredos, temos um contexto rural e sua necessidade de produção – riqueza –, principalmente vinculada a um poder que nominadamente é oculto, ou parcialmente referendado, caso de Uma estória de amor, mas estruturalmente presente e definidor de destinos da vida humana. Com vistas à produção, por um lado, e à sobrevivência, de outro, são colocados diante de um mero “adestramento dos corpos” incorporado tanto nas relações sociais como nas de ordem íntima.

A este aspecto corresponde o conceito de biopolítica cunhado sobremaneira por Foucault, qual seja, obedece aos organismos biológicos dos indivíduos enquanto parte integrante do cálculo de mandato do poder em uma série de variáveis, representadas pelo clima, pela disposição geográfica do local em que se encontra, pelos valores morais e religiosos compartilhados, etc. (FOUCAULT, 2008), que no caso dos enredos denomina-se sertão mineiro.

1Maelstrom, moskoëstrom, mælstrøm, mailström ou também moskstraumen, palavra escandinava, refere-se a um grande turbilhão de água.

Ainda relacionado a esta questão, de forma igualmente relevante, Agamben (2002) nos fala da entrada da Idade Moderna, que a vida do homem e os processos biológicos inerentes ao ser humano passaram a fazer parte do cálculo do poder.

Apesar de, em Rosa, experiência brasileira e grega estarem reunidas, entrelaçando a história com o mito, fica patente a relação dos enredos com a política brasileira da segunda metade do século XIX, principalmente em seus aspectos patriarcalistas.

Diante dessa complexidade – histórico / mitológico, a opção pelo método analítico destinado a cada uma das novelas e, por meio de categorias antitéticas, buscar hermeneuticamente desvelar a produção rosiana como um todo em Corpo de Baile, nos conduz a uma dupla articulação interna do conteúdo que aqui são vistas da perspectiva do feminino enquanto termos 1 e 2, com destaque nesse momento para o termo 1 e as novelas supracitadas.

LEITURA DE CAMPO GERAL

Campo Geral, primeira novela do primeiro volume da tripartição de Corpo de Baile, efetuada por Rosa, “Manuelzão e Miguilim” traz, desde o início, a viga-mestra das obras rosianas, a viagem.

O enredo, tendo por suporte elementos temáticos e estruturais, se compõe da relação entre a infância e a maturação, a partir da qual o percurso do protagonista de “Campo Geral”, Miguilim, busca pela educação do olhar e do consequente aprendizado da alegria, contemplar a revelação do mundo através da palavra poética.

Enquanto livro da aprendizagem, Campo Geral aborda os valores, saberes, desejos e medos do protagonista que, em sua “pureza” primitiva, aprende a alcançar beleza e dor em sua relação com a mãe, o pai, os irmãos, os peões e os animais da fazenda.

Miguilim é o personagem símbolo cuja trajetória representa o caráter cosmogônico que transversa a obra rosiana. Com sua percepção do mundo, não mediatizada pela lógica do universo adulto, estabelece correlação entre animais e

homens e demarca o Mutum como o lugar do mito. A partir desse caráter fundador, o espaço do enredo se torna edênico visto que abriga seres humanos e não humanos em suas metamorfoses. É nesse espaço que

A (...) dicção característica do universo sertanejo faz de Miguilim um menino sensível às sutilezas ocultas na brutalidade de sua vida familiar. A tristeza da mãe, a violência do pai e os castigos a que é exposto não impedem seu profundo amor pelo irmão Dito, sua afeição pelos animais, seu interesse pelo mundo dos vaqueiros, sua curiosidade pelos mistérios que envolvem a fé de vó Izidra ou as feitiçarias de Mãitina. Miguilim é o observador atento que busca compreender a essência do Belo, que se encanta e sofre diante das descobertas. (CASTRO, 2005, p. 51)

Em face dessa sensibilidade inauguradora, Campo Geralapresenta um contexto enunciativo excepcional em que ocorrem as possibilidades de entendimento a respeito do “homem na língua” no sentido de instauração subjetiva visto que destaca a inserção do sujeito nas relações de espaço e tempo.

Como linguagem e enunciação são notadamente actanciais, ambos formalizam interações entre sujeitos imersos na vastidão das relações sociais.

Nesse sentido, compreender o enredo de Campo Geral pressupõe um olhar atento sobre seu personagem principal, Miguilim, e as intersubjetividades das quais ele participa.

Nossos objetivos estão, portanto, relacionados à visão que, por um lado, toma as perspectivas enunciativas e intertextuais como vias de acesso a personagens-sujeitos discursivos que, pelo diálogo, interagem tanto com sua precedência como com a presentificação do seu vir-a-ser, ou seja, a prática dialógica e pragmática dos atos de interlocução, fundamentados linguisticamente, comporta sujeitos ativos do e no discurso.

Por outro lado, a enunciação, por ter como suporte materiais semióticos, possui base dialética e ideológica, viabiliza a alteridade e constitui indivíduos que refletem e refratam o outro dinamicamente, o que tanto o altera de forma constante como o consolida socialmente por meio de sua consciência.

Rosa, ao engendrar um objeto estético como Campo Geral em que o desenvolvimento da linguagem é paralelo ao desenvolvimento da consciência, constrói personagens-sujeitos que torna reconhecível ao leitor tudo aquilo que é, ao mesmo tempo, complexo e singular.

Ao abdicar de uma representação calcada em princípios realistas, ao preterir a objetividade em favor dessa lógica do estranho, o artista engendra um objeto estético anormal, que exige do leitor uma atitude igualmente anti-objetiva. Não é por acaso que muitos leitores, ao se depararem, pela primeira vez, com um texto de Rosa, qualificam-no de hermético ou de incompreensível. Parte dessa impressão tende a se diluir com a progressão da leitura. Porém, é exatamente na confluência dissonante entre incompreensibilidade e fascinação que reside um dos pilares da lírica moderna. Mesmo sem apreender intelectualmente o conteúdo de certas passagens, mesmo sem entendê-las objetivamente, o leitor de Guimarães Rosa é capaz de, através de certas sugestões fônicas e semânticas que o texto apresenta, apreendê-lo − absorvê-lo − de forma não-racional. O papel da intuição é fundamental. A Poesia e seu enigma residem justamente aí − no conteúdo que nunca é desvelado por completo, mas que, por via subterrânea, produz no âmago do leitor um estranhamento essencial. (RADUY, 2007, p. 06).

Isto posto, considere-se o conjunto de representações mentais que se interconectam a partir de referências de alteridade, particularmente da base que tanto o gerou como o sustenta desde antes de seu nascimento, encaminhando-o de forma a habilitá-lo em seus relacionamentos com o mundo, caso em especial da relação do protagonista Miguilim com seus genitores, entre outros que participam de sua trajetória.

Dessa forma, e de igual modo com que se dão diversas formações sociais, o enredo de Campo Geral apresenta um grupo de pessoas cujo núcleo poder-se-ia designá-lo como familiar, com várias extensões pertinentes a este tipo de coletividade. Seus membros são pai, mãe, irmãos, outros familiares – presentes ou não, amigos, conhecidos, etc. que vão, cada qual por seu turno, fornecendo subsídios para a formação do sujeito Miguilim, no contexto enredado do Mutum.

Considere-se também que nesse microcosmo, as várias esferas sociais estão presentes como divisões ou segmentações do grupo sob a forma de papéis que definem os personagens tanto na sua peculiaridade como nas funções que desempenham na composição do grupo. Grosso modo, pode se dizer que estamos diante de uma dinâmica social com super e infraestruturas.

Em relação à diligência social, posto que temos por objeto de análise um discurso, poético no caso, é fundamental considerar que os signos, em seu caráter ideológico, indicam tanto interesse social quanto luta de classes.

Nesses últimos aspectos, a realidade textual ficcionalmente articula vivências, logo interações verbais, a partir das quais são construídas identidades correspondentes tanto à infraestrutura como à superestrutura visto que, enquanto interfaces de uma mesma realidade, tomam como referências os mesmos objetos e designações com valores socialmente atribuídos.

Dessa conjunção, temos no enredo a trajetória familiar sob a perspectiva do olhar do protagonista-menino, o míope e sensível Miguilim.

O mundo ficcional rosiano resgata a essência das pequenas coisas, fazendo com que elas sejam vistas por uma perspectiva que revela aspectos essenciais, esquecidos pelo hábito. (...)com um olhar ainda não contaminado pela convenção, desestabilizando a lógica e a coerência da realidade impregnada de senso comum dos adultos ao inverter noções e conceitos preconcebidos. Para Guimarães Rosa, infância e sonho são termos afins (...) essa definição [serve] para também associar o procedimento de escrita de Guimarães ao universo lúdico da criança e, por sua vez, ao onírico (ALVES, 2017, p. 35)

É o caso da família e agregados que se dividem em grupo das mulheres, das crianças, dos homens e até mesmo de animais que recebem qualificações praticamente humanas; isto porque, para Rosa, o sertão / mundo não se compõe de natureza de um lado e seres humanos, de outro. Só há a natureza e, dentro dela, o animal homem, com suas peculiaridades.

Entre o humano e os demais entes, a diferença entre vida vivida e vida experienciada desfaz as fronteiras entre o dentro e o fora do corpo, entre o corpo e o espírito, e se conceber imensamente povoado mesmo em aparente solidão, é viver desde sempre e cada dia como se fosse o último e o primeiro.

MIGUILIM-SUJEITO E SEUS INTERLOCUTORES

No enredo em questão, principalmente em face dos problemas materiais que marcam o Mutum, os adultos quase sempre se apresentam brutalizados pelas dificuldades, dentre elas o pai – Nhô Berno é quem mais se altera diante de situações problemáticas, em particular com Miguilim, personagem principal de Campo Geral, primeira novela de Corpo de Baile.

Em consonância com o contexto sertanejo, as interlocuções de Miguilim se dá notadamente com o gênero masculino – o pai, o tio, e principalmente com o irmão. Contudo, como veremos, as personagens femininas são fundamentais para sua subjetividade.

Personagem emblemático na formação do protagonista, Nhô Berno é uma figura complexa uma vez que tanto maltrata quanto se esforça pelos filhos, inclusive Miguilim. Rico psicologicamente, o pai e Miguilim passam todo enredo em embates que podem ser considerados um dos polos centrais da trama. De caracterização oposta, enquanto Nhô Berno representa o utilitarismo dos adultos, Miguilim se pauta pela sensibilidade lúdica da infância.

Em um contexto socioeconômico precário, o pai tem a responsabilidade de assegurar a subsistência da família, o que explica em parte a severidade extremada e pouco afetuosa, atrelada a uma moralidade que um menino não poderia alcançar.

Para além da concepção de infância como imaturidade ou inadequação, em Rosa a criança é a elaboração do homem humano, da verdade que não é o ritual religioso ou laço familiar.

O protagonismo da infância em “Campo Geral”: instintivo na elaboração da linguagem, poético em seu olhar inaugural sobre o real precário que cerca Miguilim, transgressor na capacidade de construção da experiência vital por meio do imaginário. Esta noção de prolongamento da infância, apontada por Lisboa, fortalece a ideia de uma infância transbordante, que não se encerra nos protagonistas, mas confere o tom às narrativas em que se apresenta, trazendo a todo o momento, a estupefação diante do “móvel mundo”.

(GOMES, 2015, p. 34)

Se nas organizações familiares há uma hierarquia, no Mutum – como via de regra, esta condição está atrelada à figura paterna que fornece, em termos de subjetividade, os parâmetros normativos da construção identitária dos filhos. Ocorre que Miguilim é especial no sentido da afetividade; para ele, certo / errado, bonito / feio não são meras qualidades, são vias de acesso para um bem maior, a alegria, que, logo de início, está relacionada à mãe, fonte primordial para Miguilim, da afetividade familiar.

Quando voltou para casa, seu maior pensamento era que tinha a boa notícia para dar à mãe: o que o homem tinha falado – que o Mutúm era lugar bonito... A mãe, quando ouvisse essa certeza, havia de se

alegrar, ficava consolada. Era um presente; e a idéia de poder trazê-lo desse jeito de cór, como uma salvação, deixava-o febril até nas pernas (...) e assim que pôde estar com ela só, abraçou-se a seu pescoço e contou-lhe, estremecido, aquela revelação. A mãe não lhe deu valor nenhum (...) No fundo de seu coração, ele não podia, porém, concordar, por mais que gostasse dela: e achava que o moço tinha falado aquilo era que estava com a razão. Não porque ele mesmo Miguilim visse beleza no Mutúm – nem ele sabia distinguir o que era um lugar bonito e um lugar feio. Mas só pela maneira como o moço tinha falado: de longe, de leve, sem interesse nenhum; e pelo modo contrário de sua mãe – agravada de calundú e espalhando suspiros, lastimosa. No começo de tudo, tinha um erro – Miguilim conhecia, pouco entendendo. (ROSA, 2001, p. 28-29).

A esta relação declaradamente amorosa com a mãe, se opunha a com o pai pelas razões que já colocamos entre outras. De todo modo, nas construções poéticas de Rosa, há sempre uma criança-símbolo da fidúcia no homem novo e nas possibilidades de um mundo renovado. A eleição da alegria como mola propulsora da existência humana pode ser entendida como proposta para que o homem se capacite a ir além dele mesmo.

Nestes termos, o diálogo com a natureza traz consolo e até alegrias para o menino. Miguilim se entrega aos prazeres da alma, por assim dizer, a partir tanto da consciência como da imaginação como podemos observar no trecho que segue.

O sanhaço, que oleava suas penas com o biquinho antes de se debruçar. O sabiá-peito-vermelho, que pinoteava com tantos requebros, para trás e para frente, ali ele mesmo não sabia o que temia. E o casal de tico-ticos, o viajadinhorepulado que ele vai, nas léguas em três palmos do chão. (...) Tudo caprichado de lindo!”

(ROSA, 2001, pg. 60)

Nesta relação, que podemos denominar sensório-poética, a subjetividade do protagonista perpassa um processo de ressignificação que o ajuda até mesmo diante da brutalidade paterna; é o que se vê na passagem em que castigado pelo pai, é separado dos irmãos e proibido de comunicação e trocas.

Diante do pai, que se irava feito um fero, Miguilim não pôde falar nada, tremia e soluçava; e correu para a mãe, que estava ajoelhada encostada na mesa, as mãos tapando o rosto. Com ela se abraçou.

Mas dali já o arrancava o pai, batendo e nele, bramando. Miguilim nem gritava, só procurava proteger a cara e as orelhas; o pai tirava o cinto e com ele golpeava-lhe as pernas, que ardiam, doíam como queimaduras quantas, Miguilim sapateando. Quando pôde respirar, estava sentado no tamborete, de castigo, e tremia, inteirinho o corpo.

(ROSA, 2001, p. 36).

Quanto às esferas sociais, aplicadas ao enredo, estas possuem dependência mútua visto que articulam as relações sociais e, em seu entrelaçamento interno, alimentam tanto competições como conflitos. Vejamos duas personagens femininas, parelhas quanto ao pertencimento de grupo, mas diversas entre si.

- “P’ra rezar, todos.” – Drelina chamava. Chica e Tomezinho estavam escondidos debaixo de cama. Agora não faltavam nenhum, acerto de reunidos, de joelhos, diante do oratório. Até a mãe. Vovó Izidra acendia a vela benta, queimava ramos bentos, agora ali dentro era mais forte. Santa Bárbara e São Jerônimo salvavam de qualquer perigo de desordem, o Magnificat era que rezava (ROSA, 2001, p. 45). (Grifo do autor)

Vovó Izidra quizilava com Mãitina:

- Traste de negra pagã, encostada na cozinha, mascando fumo e rogando para os demônios dela, africanos! Vem ajoelhar gente, Mãitina! (ROSA, 2001, p. 46).

Vovó Izidra ralhava. E reprovava Mãitina, discutindo que Mãitina estava grolando feias palavras despautadas, mandava Mãitina voltar para a cozinha, lugar de feiticeiro era debaixo dos olhos do fôgo, em remexendo no borralho! (ROSA, 2001, p. 47).

Vó Izidra e Mãitina são representantes da esfera religiosa em que uma está para a religiosidade oficial – santos, rezas, não obstante em um catolicismo tradicional enquanto Mãitina, um misticismo mais “primitivo”.

De fato, Rosa, em tom épico e com uma gesta medieval, traz a sensibilidade sob a forma de riqueza lírica contida no homem e na terra e com argúcia traduz a vertente psicológica em seus personagens. Mãitina é um dos muitos casos perfilados pela pura ternura e empatia.

A despeito disso, em Campo Geral, neste mesmo percurso, destacam-se os processos de marginalização, Mãitina tem por definição “feiticeira”, no sentido pejorativo desta palavra; está posto o caráter ideológico dos signos, qual seja, sua valoração dentro do quadro social em que é construído. No que diz respeito ao enredo, este é mais um aspecto ambíguo já que a sensibilidade do protagonista encontra acolhida em Mãitina. A própria construção vocabular de seu nome confere a ela o traço afetivo: MÃI – tina /m ã e/.

(...) Miguilim era mais pequeno, tinha medo de tudo, chegou lá sozinho para espiar, não tinha outra pessoa ninguém lá, só Mãitina mesmo, sentada no chão, todo o mundo dizia ela feiticeira, assim preta encoberta como que deve ser a Morte (...) Ele se assustou forte, deu grito. E, se agarrando nas costas dela, se abraçou com Mãitina. Ah, se lembrava. Pois porque tudo tinha tornado a se desvirar do avesso, de repente. Mãitina estava pondo ele no colo, macio manso, e fazendo carinhos, falando carinhos, ele nem esperava por isso, isso nem antes nem depois nunca não tinha acontecido. O que Mãitina falava: era no atrapalho da linguagem dela, mas tudo de ninar, de querer bem (...) a linguagem dela era até bonita, ele entendia que era só de algum amor (ROSA, 2001, p. 61).

A essa afetividade correspondem as fronteiras tanto espacial como temporais do Mutum. Se Mãitina recupera a simbologia da mulher negra, idosa, remanescente da escravidão é porque, não só em relação a ela, mas a todos, estão traçadas as categorias espaço-temporais definidoras da subjetividade correspondente aos personagens, em outra expressão, sua historicidade.

Do ponto de vista histórico, somos sujeitos ativos e inacabados, produzimos e somos produzidos histórica e descontinuamente. Segundo Bakhtin, para sermos sujeitos-históricos é necessário um segundo nascimento que se dá pela linguagem, com seu caráter valorativo. Na medida em que o discurso poético de Campo Geral atribui valor positivo à linguagem de uma Mãitina cujo espaço está à margem do grupo a que pertence, ele não só recupera uma trajetória social, como projeta na formação do sujeito Miguilim outra possibilidade de visão de mundo, uma, no mínimo, menos excludente.

Um signo não existe apenas como parte de uma realidade; ele também reflete e refrata uma outra. Ele pode distorcer essa realidade, ser-lhe fiel, ou apreendê-la de um ponto de vista específico, etc. Todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é: se é verdadeiro, falso, correto, justificado, bom, etc.). O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos:

são mutuamente correspondentes. Ali onde o signo se encontra, encontra-se também o ideológico. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico. (BAKHTIN, 1992, p. 32).

EmCampo Geral, a infância também se afigura uma esfera ainda que com traços peculiares. Suas representações se situam em um tempo histórico, que o narrador reelabora como matéria-prima para ritos de passagem que comporta, sob a égide de tempo, o sofrimento, a descoberta, a perda e a separação, conforme ocorre no episódio, testemunhado por Miguilim, em que Vovó Izidra usa de sua autoridade

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