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Da instrumentalização e registro das deliberações

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 163-168)

affectio societatis

4.6 Da instrumentalização e registro das deliberações

As deliberações dos sócios, obrigatoriamente, devem ser instrumentalizadas na forma de ata de reunião ou assembléia, conforme a quantidade de sócios e as disposições contratuais, nos termos aqui já descritos.

Com efeito, para que as referidas atas produzam eficácia, segurança e publicidade, é preciso registrá-las, dependendo do caso no Registro de Empresa Mercantil, a cargo das Juntas Comerciais – sociedades empresárias, ou, no caso de tratar-se de sociedade simples, a inscrição do contrato social deverá ser requerida no Registro Civil das Pessoas Jurídicas do local de sua sede.

Observe-se que a distinção ocorre de acordo com os preceitos inerentes às sociedades empresárias ou sociedade simples – sempre levando em conta o elemento de empresa e, por conseguinte, o nível organizacional –, este último relativo às sociedades empresárias.

Vale destacar que este artigo dá maior atenção às sociedades empresárias, visto que no âmbito do direito societário esse gênero aglutina maior interesse econômico, negocial e jurídico.

De volta ao tema – instrumentalização e registro das deliberações sociais nas sociedades limitadas –, tomadas em reunião ou assembléia e após as devidas convocações por edital (Diário Oficial e jornal de grande circulação), far-se-á o arquivamento das atas perante o órgão executor do registro competente, que deverá conter, também, um ato apartado de instrumento de alteração de contrato social, pois, só assim, o ato deliberatório produzirá os

efeitos

desejados.

É de bom tom esclarecer que o registro público reconhece, apenas, os

seguintes instrumentos contratuais: constituições, alterações e extinções (cancelamento) de sociedades. Razão pela qual, atas que retratam reuniões e assembléias, não obstante a possibilidade de arquivamento, não possuem a devida eficácia para alterar registros societários – somente dão conhecimento perante terceiros

Em outras palavras, a deliberação social para ter efeito deverá conter:

i) a apresentação de convocações por edital em jornal de grande circulação e diário oficial por três vezes seguidas, visto que entre a primeira inserção e a da realização da reunião ou assembléia deve intermediar oito dias, e entre a última inserção e a referida data de realização deve haver o prazo de cinco dias;

ii) a apresentação de instrumento lavrado em forma de ata de reunião ou assembléia, de forma sumária, devendo o presidente e secretário subscrevê-la;

iii) a apresentação de instrumento de alteração social apartado à referida ata (doc. 01 e doc. 02), subscrito pelos sócios detentores do poder de controle, conforme o

quorum

exigido pela lei.

Consta, dessarte, que a ausência de qualquer desses preceitos macula a eficácia do ato deliberatório, dada a importância do aspecto formal para o Direito Societário, como já se disse várias vezes neste trabalho.

Cumpre esclarecer, no que toca às sociedades empresárias, que o Registro Público de Empresas Mercantis – Junta Comercial – erra ao não analisar completamente os pontos abordados neste capítulo, pois o que tem ocorrido é a inobservância dos preceitos formais ou o extrapolamento de suas competências, exigindo elementos além daqueles previstos na lei.

Os órgãos executores do Registro Público devem ater-se ao controle formal dos documentos societários, deixando as atribuições relativas ao controle material sob a responsabilidade do Poder Judiciário.

Para ilustrar o que ora se expõe, lembro-me de certa feita em que a Junta Comercial – tratando de assuntos deliberatórios –, além das convocações por edital, exigiu que o sócio majoritário (detentor do poder controle/

quorum

necessário pela legislação) apresentasse (além das aludidas convocações por edital) a convocação da reunião por carta registrada, com aviso de recebimento.

Data venia

, errou a Junta, haja vista a evidente extrapolação de suas competências. Mas não é só pelo excesso que o Registro de Empresa pode equivocar-se na efetivação de suas atribuições. Em outra oportunidade, em vez da exigência das tomadas dos preceitos convocatórios, deferiu-se determinado ato, sem nenhum rigor formal, ou seja, além de não observar a constância das

convocações, não se exigiu que se procedesse aos atos através de dois instrumentos – ata e alteração contratual (doc. 01 e doc. 02).

De sorte, em ambos os casos, o Poder Judiciário reformou os desastrados procedimentos da Junta Comercial.

Enfim, no que toca à instrumentalização e registro das deliberações sociais nas sociedades limitadas, torna-se premente dar especial atenção ao aspecto formal, obedecendo-se à sistemática imposta pelo Código Civil, em especial, nos arts. 1.073, 1.074 e 1.152.

4.7 Da conclusão

Diante de todo o exposto, fica evidente que o assunto deliberatório nas sociedades limitadas tem como ponto principal os quóruns exigidos pelo atual Código Civil brasileiro.

Evidencia-se, portanto, que o aludido diploma legal, no que tange ao aspecto deliberatório nas sociedades, adota uma sistemática anacrônica, sendo certo, inclusive, o seu abandono por outros países que a adotaram na década de 1940, como a Itália.

Para Paulo Penelva Santos, o aludido expediente foi abandonado tendo em vista “as evidentes inconveniências que dele decorrem” (DE LUCCA, 2005, p.

381).

Ademais, as direções que são adotadas pelas sociedades limitadas – em reuniões ou assembléias – nem sempre são efetivadas pelos que são mais bem qualificados e motivados; são sim efetivadas pelos que possuem maior poder de controle, ou, em outras palavras, detentores de quóruns exigidos pelo Código Civil.

É interessante analisar que não obstante o

quorum

exigido para as modificações societárias, via de regra, 75%, para algumas importantes e relevantes matérias, como, por exemplo, a exclusão extrajudicial de sócios, exige-se apenas o

quorum

de 50%.

De maneira grosseira, poder-se-ia indicar que para abrir a filial de uma sociedade necessita-se de 75% dos votos societários – hipótese de modificação de contrato social –, enquanto para a efetivação descrita no parágrafo anterior basta 50%.

Diante desse quadro, indaga-se: i) o que causa mais impactos para uma

sociedade – a exclusão extrajudicial de um sócio ou a abertura de uma filial? ii) o que causa maiores repercussões –, no âmbito negocial ou societário? Ademais, outros expedientes societários deliberatórios remanescem indefinidos, especificamente, no que tange ao

quorum

exigível para a tomada de algumas decisões que impactam profundamente no dia-a-dia negocial”.

É oportuno, nesse contexto, analisar como John Kenneth Galbraith define determinados sistemas negociais empresariais: “(...) as empresas foram dominadas pela administração –

a burocracia

–, embora não seja assim denominada (...)” (GALBRAITH, 2004, p. 47 e 48).

Conclui-se, portanto, que é premente que a sociedade civil, liderada pela classe dos operadores de direito e com o auxílio da classe dos sócios e administradores de sociedades (verdadeiros responsáveis pelo desenvolvimento empresarial), mobilize-se para as mudanças legislativas necessárias no que toca, por exemplo, às exigências de quóruns específicos para determinadas deliberações societárias, a fim de alcançar a agilidade e dinâmica operacional que as sociedades limitadas, na era da globalização e da velocidade exponencial dos negócios, exigem no plano econômico.

REFERÊNCIAS

BARBOSA FILHO, Marcelo Fortes.

In

: PELUSO, César (Coord.). Código Civil comentado. São Paulo: Manole, 2007.

BOBBIO, Norberto. Elogio da serenidade e outros escritos morais. São Paulo:

UNESP, 2002.

BORBA, José Edwaldo Tavares. Direito societário. 9. ed. Rio de Janeiro:

Renovar, 2004.

CAMPINHO, Sérgio. O direito de emptesa à luz do novo Código Civil. Rio de Janeiro: Renovar, 2005.

CARVALHOSA, Modesto. Comentários ao Código Civil: parte especial – do direito de empresa (arts. 1.052 a 1.195). São Paulo: Saraiva, 2005.

FIUZA, Ricardo. Código de direito civil comentado. São Paulo: Saraiva, 2005.

GALBRAITH, John Kenneth. A economia das fraudes inocentes. São Paulo:

Companhia das Letras, 2004.

DE LUCCA, Newton.

In

: ARRUDA ALVIM; ALVIM, Thereza (Coords.).

Comentários ao Código Civil brasileiro. Rio de Janeiro: Forense, 2005.

RIZZARDO, Arnaldo. Contatos. 7. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2008.

ROVAI, Armando Luiz. Direito de empresa. São Paulo: Campus/Elsevier, 2007.

____. Revista da Escola Paulista da Magistratura, ano 7, n. 1, jan./jun. 2006.

WALD, Arnoldo. Comentários ao novo Código Civil: do direito de empresa.

Sálvio de Figueredo Teixeira (Coord.). Rio de Janeiro: Forense, 2005.

1 É interessante ressaltar que ainda não se tem uma Jurisprudência relevante sobre o assunto e que a doutrina não é unânime em diversos pontos, restando a Lei – fonte direta de Direito – como meio mais consistente para tratar do tema.

2 O Enunciado n. 67, aprovado na Jornada de Direito Civil, promovida pelo Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal, dispõe que, em razão da exigência de justo motivo, a quebra de affectio societatis não é causa suficiente para exclusão do sócio.

3 José Renato Nalini cita trecho do livro de Bobbio relevante para o que aqui se aduz: “uma situação de tolerância existe quando um tolera o outro. Se eu o tolero e você não me tolera, não há um estado de tolerância, mas, ao contrário, prepotência” (A herança de Bobbio, Jornal da Tarde, 12 jan. 2004, Caderno A, p. 2).

No documento DADOS DE ODINRIGHT (páginas 163-168)