3.5 Do art. 557 CPC e a sua aplicação no processo penal
3.5.1 Da interpretação extensiva e analogia prevista no art. 3º do CPP
O art. 3º do CPP prevê literalmente a possibilidade de utilizar a interpretação extensiva e aplicação da analogia, o que significa que o legislador entendeu, naquela ocasião, que não se trata de apenas buscar o real significado da lei, mas efetivamente de aplicar o direito ao caso concreto.
A normatização da interpretação extensiva e aplicação analógica transmitem a segurança jurídica necessária para aqueles que dela se utilizam, porque não existem dúvidas acerca da possibilidade de sua aplicação no Processo Penal.
Como exemplos, temos o seguinte: a) o art. 207 do Código de Processo Civil prevê a possibilidade de se transmitir por telefone uma carta de ordem ou precatória, dependendo somente da confirmação do emissor. Não havendo dispositivo semelhante no Código de Processo Penal, tem-se usado tal preceito para justificar a transmissão e ordens de habeas corpus, para a soltura do paciente, justamente porque mais eficaz; b) não há um número especificado no Código de Processo Penal para ouvir testemunhas no caso de exceção de suspeição apresentada contra o juiz, razão pela qual deve - se usar o disposto no art. 407, parágrafo único, do CPC, ou seja, três para cada fato.
(NUCCI, 2011, p.134)
Interpretação Extensiva consiste no método que procura estender o alcance da lei a situações semelhantes e analogia é um processo de integração que procura, diante de uma situação não prevista em lei, aplicar outro preceito que regula situação semelhante.
Entretanto ambas são diferentes entre si, como ensinaBobbio (1995, p.219):
Limitando-se a fazer indicações bastante sumárias, diremos que a interpretação extensiva é uma forma menor de raciocínio por analogia.
Enquanto na analogia legis se formula uma nova norma, semelhante a uma já existente, para disciplinar um caso não previsto por esta última, mas similar àquele por ela regulado, na interpretação extensiva amplia-se a hipótese estabelecida por uma norma, isto é, aplica-se esta
138 norma a um caso por ela não previsto, mas similar àquele expressamente regulado. É difícil individualizar o critério distintivo dessas duas formas de interpretação, visto que, na realidade, a interpretação extensiva é uma forma atenuada de interpretação analógica e tem a função prática de admitir, em medida reduzida, o recurso à analogia naqueles setores do direito (como no penal) em que é vedada.63
Este trabalho propõe a utilização de um preceito legal não existente no código de processo penal que regulamenta hipótese semelhante com a possibilidade de ser aplicado a um caso concreto, que somente será feito através da analogia, em que o juiz relator deve julgar recursos e ações de impugnação com utilização do art. 557 do CPC, como exposto no julgamento realizado pelo STF no HC nº 10719064:
EMENTA HABEAS CORPUS. ESTUPRO. ROUBO
QUALIFICADO PELO EMPREGO DE ARMA DE FOGO.
TENTATIVA DE LATROCÍNIO. REFORMATIO IN PEJUS.
ADMISSIBILIDADE DO RECURSO ESPECIAL. JULGAMENTO MONOCRÁTICO DE RECURSO ESPECIAL. NULIDADE.
INOCORRÊNCIA. 1. Reformatio in pejus ocorre quando há reforma da decisão recorrida desfavoravelmente à Defesa sem que tenha havido recurso da Acusação, o que não se verifica na hipótese dos autos, em que foi dado provimento ao recurso especial interposto pelo Parquet. 2. Compete ao Superior Tribunal de Justiça decidir sobre a admissibilidade do recurso especial. Não cabe habeas corpus, como regra, para rever decisão do Superior Tribunal de Justiça quanto à admissibilidade do recurso especial. Violação no especial da Súmula nº 07 do Superior Tribunal de Justiça não reconhecida. 3. O julgamento monocrático de recurso ou de ação de impugnação no âmbito dos Tribunais é válido quando amparado em jurisprudência consolidada. O art. 557, §1-A, do Código de Processo Civil é aplicável ao Processo Penal em vista do que dispõe o art. 3º do Código de Processo Penal. 4. Pleito de desclassificação do crime de tentativa de latrocínio para roubo qualificado não conhecido à falta de submissão ao conhecimento das instâncias anteriores. 5. Habeas corpus parcialmente conhecido e, na parte conhecida, denegado. (HC 107190, Relator(a): Min. ROSA WEBER, Primeira Turma, julgado em 04/06/2013, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-206 DIVULG 16-10-2013 PUBLIC 17-16-10-2013).
A analogia como processo de integração da norma, pode ser vista de duas formas: analogia legis, a integração sempre será realizada por outra norma, e analogia iuris, em que serão utilizados os princípios gerais do direito. Neste caso, foi adotada a analogia legis para justificar a aplicação do art. 557 do CPC no Processo Penal.
63 Grifos do autor.
64BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Jurisprudência. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/
jurisprudencia/listarJurisprudencia.asp?s1=%28habeas+corpus+relator+557%29&base=baseAcor>
acesso: 15 nov. 2013
139 Quando o juiz relator no Processo Penal verificar que a matéria recursal está em confronto com jurisprudência dominante e súmula e, diante da analise dos pressupostos recursais, notar a existência de causas que impossibilitam ingressar no mérito recursal, não poderia abreviar o trâmite recursal por ausência de regra específica.
A ausência de previsão processual penal para decidir isoladamente o mérito recursal nas instâncias superiores será suprida com emprego da analogia que permite utilizar a regra do art. 557 do CPC quando, no caso concreto, ficar constatada hipótese semelhante, cujo julgamento tem objetivo de produzir os mesmos efeitos da seara processual civil.
Assim, quando se fala em interpretação por analogia, já se está falando em interpretação analógica. E, com efeito, já se está utilizando a aplicação de uma norma prevista para regular situação diversa, para resolver situação semelhante, não regulada. Ao contrário, no processo de interpretação extensiva, a operação que se realiza localiza-se no âmbito da mesma norma, cuja eficácia é ampliada. Não se reclama, pois, a atuação de uma outra norma, mas da extensão do sentido daquela utilizada para resolver hipóteses semelhantes, ou ubieadem ratio, ibieadem iuris (mesma razão, mesmo direito), isto é, a mesma ratio legis.65 (OLIVEIRA, 2011, p.20)
Por tais motivos, quando há a mesma razão aplica-se o mesmo direito (ubieadem ratio, ibieadem iuris) e, ficando comprovado a igualdade de circunstâncias no caso concreto penal, será permitido que o juiz relator julgue isoladamente o mérito do recurso criminal e ações de impugnação dentro das hipóteses previstas no art. 557 do CPC, de forma que acabará proporcionado a aplicação do direito material tempestivamente.
A analogia será a fundamentação idônea para justificar a utilização desta regra, que somente existe no Processo Civil e nos regimentos internos nos tribunais superiores, para contemplar hipótese semelhante no processo penal que carece de preceito específico, como aponta Avena (2013, p.88-89):
Logo, nada impede o uso, por analogia, de regra do Código de Processo Civil para normatizar uma situação emergente no âmbito penal. A título de exemplo, decidiu o STJ que “ o artigo 557,§ 1º-A, do Código de Processo Civil, que permite ao relator proferir decisão de mérito, dando provimento ao recurso, se a decisão atacada estiver em manifesto confronto com súmula ou com jurisprudência dominante do Supremo Tribunal Federal ou Tribunal Superior, aplica-se
65 grifos do autor
140 analogicamente, nas mesmas circunstâncias, no âmbito do Processo Penal, inclusive em habeas corpus, nos termos do artigo 3º, do CPP”.
É pacífica a utilização da analogia em Processo Penal, o que torna possível ao juiz relator utilizar a regra do art. 557 do CPC em hipóteses semelhantes com a produção das mesmas consequências jurídicas, estando habilitado a julgar sozinho o mérito recursal ou ação autônoma de impugnação, assumindo toda a carga legislativa desta regra em seus exatos termos.