2 ANCESTRALIDADE, MEMÓRIA E RECONHECIMENTO QUILOMBOLA EM HELVÉCIA
2.2 HISTÓRIA DA ORIGEM OU ORIGEM DA HISTÓRIA?
2.2.1 Da invisibilidade ao reconhecimento
Uma refundação territorial restabelece e/ou resgata elementos socioculturais que sinalizam uma identidade. Entre pesquisadores, de diversas áreas, é consenso que identidades são construídas. Desse modo, ao descrevermos a luta pelo reconhecimento identitário quilombola, em Helvécia, pensa-se identidade como uma categoria operativa através da qual se pode explicar/interpretar comportamentos e atitudes individuais e coletivas frente à cultura ou à sociedade. Identidade é um elemento constitutivo da vivência dos sujeitos sociais, e, em concordância com Santos (2006, p. 135), “identidade são, pois, identificações em curso”.
A luta pela construção da identidade afrodescendente, quilombola, articulada pelo movimento de 07 mulheres e 03 homens, os quais, posteriormente viriam a compor a Associação Quilombola de Helvécia, demandou uma reflexão inicial acerca do papel desempenhado pela referência quilombo na vida dos moradores16. O que significa colocar-se como quilombo para uma população que aprendeu nas ruas, na vida cotidiana e, sobretudo, na escola e na igreja, a apagar sua memória e suas manifestações culturais mais características?17Parafraseando Bhabha (2010), em Interrogando a identidade, entendemos que este questionamento faz emergir o que é invisível ou mesmo, indagar- se: o que faz um ser olhar sem ser visto?
Santos (2006), ao discutir Modernidade, identidade e a cultura de fronteira, chama atenção para o fato de que, mesmo sendo as identidades aparentemente sólidas, escondem negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidade em constante processo de transformações e que, em última instância, são responsáveis pela sucessão de configurações hermenêuticas que, de tempo em tempo, “dão corpo e vida a tais identidades” (SANTOS, 2006, p.135). Ainda, segundo esse autor, quem pergunta pela sua identidade, de fundo, está questionando as referências hegemônicas; contudo, ao fazê-lo, coloca-se na posição de outro e, simultaneamente, numa situação de carência e, por isso, de subordinação. Para ele, “é, pois, crucial conhecer quem pergunta pela identidade, em que condições, contra quem, com que propósitos e com que resultados”
16 Helvécia tornou-se legalmente Comunidade Remanescente de Quilombo, conforme portaria nº 7 do dia 6 de abril de 2005, da Fundação Cultural Palmares e publicação no Diário Oficial da União, nº 74, secção 1 (SANTANA, 2008).
17Compreende-se que tanto a escola, como a Igreja, têm papéis importantes para preservação ou negação da identidade quilombola, na medida em que são centros usuais de discursos religiosos-pedagógicos, por isso, espaços onde os mecanismos de inculcação têm ritos fecundos de efetivo resultado.
(SANTOS, 2006, p.135). Referindo-se à Europa, Santos (2006) diz que raramente os artistas europeus tiveram que perguntar pela sua identidade. Entretanto, os africanos e latino-americanos, oriundos de países vistos apenas como fornecedores de mão-de-obra, ao trabalharem na Europa, “foram forçados a suscitar a questão da identidade” (SANTOS, 2006, p. 135).
Essas assertivas coadunam-se com as reflexões em torno do movimento de luta pelo reconhecimento quilombola, em Helvécia, sobretudo com os elementos norteadores desse requerer identitário. Identidade é um elemento constitutivo da vivência dos sujeitos sociais, e, em concordância com Santos (2006, p.135), “identidades são, pois, identificações em curso”. Desse modo, à medida que as mulheres negras rememoravam, descobriam e assumiam a cultura ancestral, descobriam e assumiam a si mesmas como partes dela, e, do mesmo modo, questionavam as referências de grupos hegemônicos18a que sempre foram submetidos os afrodescendentes, explicitando jogos e conflitos fronteiriços que, velados, ficaram registrados no entredito. Apropriando-nos do discurso de Bakhtin (2010), este existir não foi definível pelas categorias de uma consciência teórica não participante, “mas somente pelas categorias da participação real, isto é, do ato, pelas categorias do efetivo experimentar operativo e participativo da singularidade concreta do mundo” (BAKHTIN, 2010, p.59). No caso de Helvécia, um rito de passagem dos significados e das relações espaço-temporais, antes configurado como espaço de negros rurais, hoje, espaço quilombola. Com o novo rótulo categorial, ampliaram-se os aspectos imateriais silenciados ou vistos pejorativamente.
Em diálogo com as reflexões empreendidas por Arruti (2006), percebemos que a comunidade de Helvécia, com sua experiência de vida vocalizada em forma de canto- poema, elemento importante na luta pelo reconhecimento identitário, nunca pareceu tão complexa, nem tão difícil de ser aceita, uma vez que se tornou pública, patente e estigmatizada, ao requerer-se como território negro.
Conforme Leite (1991), em “Território negro em área rural e urbana – Algumas questões”, a noção genérica de território negro não esclarece a complexidade da apropriação do espaço. Ao contrário, estimula simplificações e reduções perigosas de situações complexas, porque, “quando assume perspectiva genérica, o projeto político
18 A expressão utilizada refere-se a grupos que, além de definirem os discursos e situações, controlam ações, produzem imagens, divulgam-nas e constroem sistemas de representação e o corpo de valores que reafirmam e reproduzem seus lugares de enunciação.
tende a criar um impasse: manter um tipo de singularidade pode ser de um lado, uma conquista e, de outro, a manutenção de uma certa situação de segregação” (LEITE, 1991, p.45).
O termo quilombo também propicia ambiguidades. Por esse sentido, as discussões em torno do mesmo não devem pautar-se apenas pelo discurso da historicidade, mas, sobretudo, pelo caráter socioantropológico. Se, pelo viés da historicidade, observamos a legitimação do termo, concomitantemente, é preciso averiguar o percurso semântico e as equivalências que se agregaram ao mesmo, uma vez que não há neutralidade quando se afere um sentido, mesmo porque um conceito não esgota a realidade.
Em Helvécia, os conflitos advindos com a categorização quilombola refletem os equívocos políticos quando da reparação de uma situação histórica que, aparentemente, ultimada em 1988, ainda persiste na conjuntura social brasileira através dos processos de segregação impostos aos afrodescendentes. Certamente, na ausência de um caminho favorável, o aquilombar-se tornou-se um mecanismo legal para adentrar no cenário político discursivo, cujas portas, ao longo do tempo, estiveram fechadas ou apenas entreabertas, sobretudo àqueles que, de um lugar socioantropológico, sabiam o que era preciso dizer e fazer saber.
Há muitas inquietações em torno do termo quilombo, de modo que pensar o tempo do agora, a aplicabilidade e autonomeação do termo a grupos que lutam para não serem segregados com a auto-segregação defensiva, é um ponto ainda passível de muitas discussões, em vista dos contextos e processos distintos de territorialização, conforme já fora pontuado por Gusmão (1990) e Leite (2000). Sobretudo porque, consoante Sodré (1988), as ações midiáticas, com seu aporte capitalista, acabam por transformar o princípio da diferença em elemento folclorizado, exótico, atemporal, desterritorializado.
A discussão do termo quilombo é uma encruzilhada19. Há muito que se discutir. Neste trabalho, ao nos apropriarmos dos termos quilombo e território negro, fazemo-lo em conformidade com as reflexões de Leite (1991), para pensá-los como estratégia legal de reparação à repressão histórica em Helvécia e, porque, através desse
19 O termo refere-se à concepção de Leda Maria Martins (1997). Para a autora, a encruzilhada é uma instância simbólica e metonímica, a partir da qual se processam vias diversas de elaborações discursivas, motivadas pelos próprios discursos que coabitam; do mesmo modo, oferece a possibilidade de interpretação do trânsito sistêmico e epistêmico que surge dos processos inter e transculturais, nos quais se confrontam e dialogam, nem sempre amistosamente, registros, concepções e sistemas simbólicos diferenciados e diversos (MARTINS, 1997, p. 28).
recurso/metodologia, aquela comunidade reacendeu diálogos importantes, no reconhecimento de si mesma, de sua história e de sua gente.
Diante das reflexões sobre o aquilombar-se, evocamos o discurso de Tidinha, líder do movimento de reconhecimento de Helvécia como comunidade remanescente de quilombo. Índice e síntese do percurso que desejamos evidenciar nos tópicos anteriores. No relato, a voz se presentifica como um “querer dizer e vontade de existência” (ZUMTHOR, 2010, p. 9), um intercambiar de memórias e experiências individuais e coletivas que, a exemplo das fiandeiras, tece novos arremates no presente. Quiçá, o rompimento dos estigmas segregadores em cujos corpos e histórias dos negros ficaram assinalados. Entendemos que as palavras enunciadas por essa autoridade comunitária esmeram uma cartografia através da qual transitamos ao encontro das vozes poéticas, guardiãs da tradição no quilombo de Helvécia:
A questão do reconhecimento, ele surgiu na nossa comunidade por um motivo que a gente sentia de opressão. Como vocês sabem, nós estamos cercados pela monocultura de eucalipto. Então, a gente percebia que, parece que a intenção da empresa é essas comunidades ser extintas. E aí foi que surgiu essa luta nossa, essa preocupação de amenizar essa monocultura na nossa comunidade. E nesse mesmo período foi quando chegou a CAEMA, que é uma polícia que veio pra tomar conta dos eucaliptos, e aí a prática cultural do nosso povo que é de caçar, de pescar, de panhar lenha pra cozinhar no fogão à lenha. Então essas atividades elas estavam sendo inibidas pela, por esse policial. Inclusive às vezes se eles encontrassem as pessoas praticando essas atividades, na área que pertencia a essa empresa, que na época era a Aracruz. As pessoas às vezes eram espancadas, né? não perguntavam o que estavam fazendo, porque estavam ali. E aí a gente começou a nos preocupar, e com a visita do antropólogo [...] que estava fazendo uma pesquisa aqui, a gente sentiu assim a necessidade de buscar esse reconhecimento. Foi quando também o nosso deputado Luiz Alberto estava nos ajudando de buscar estudar a comunidade, essa forte permanência do negro, essas fortes manifestações culturais que aqui existiam. Então, segundo ele, um dos nossos direitos seria reconhecer Helvécia como comunidade quilombola. Então, esse foi o motivo que nos incentivou a agilizar mais o pedido. E a gente fez esse pedido e saiu com dois meses. Mas ao sair esse pedido do reconhecimento, houve uma não-aceitação da comunidade. É lógico, é os [...] de fazendeiros. A gente entende também que as grandes empresas, pra eles isso não eram positivo. Então começaram a trabalhar a negatividade na cabeça das pessoas da comunidade, e elas começaram a absorver isso como certo, que Helvécia ia voltar a ser quilombo, que ia voltar à escravidão, que ninguém ia ter nada, que ninguém é dono de nada, todas as informações que sempre acontecem nos demais lugares. E aí né, houve uma não-aceitação, e a gente que fazia parte desse movimento tivemos até que nos afastar um pouco, deixarem as coisas acontecerem naturalmente, como aconteceram. Porque eu, enquanto cidadã de Helvécia, eu percebo que o reconhecimento, uma das coisas que ele nos dá automaticamente é o respeito, tanto pelo poder público quanto pelo poder privado. Então a gente percebeu isso, e as coisas foram acontecendo. Porque se você fizer uma avaliação de Helvécia de 2005, foi quando saiu o reconhecimento, pra frente, a gente percebe o quanto né ela teve um progresso na questão de, das questões sociais mesmo. Hoje a gente tem uma escola que é de qualidade. A gente tem um posto de saúde, um PSF que antes não tinham. As praças, a rua em si,
calçamento. Então assim, eles nos veem com outros olhos. Eu vejo que é a questão do respeito. E aí a gente defronta, demanda com algumas questões que é muito, eu diria assim, é muito complicado porque o negro, a gente sabe que a sociedade ela foi muito cruel, a sociedade ela é muito injusta com o negro, então tudo que vem do negro, ele próprio vê como negativo [...]. Então são questões que a gente leva pra tá discutindo nas salas de aula. São temas que a gente discute nos 20 de novembro, nos 13 de maio e, no ano todo durante a escola pra que essa aceitação ela aconteça, principalmente nos nossos adolescente. No momento nós estamos deparando com uma das questões que tá dentro do reconhecimento que é um direito da comunidade, que é um direito nosso, é a questão do reconhecimento do território, quando o governo federal ele faz todo um trabalho com INCRA, com IBAMA, pra retomar essas terras que pertenceram a nossa, ao nosso povo. Até mesmo comprar das empresas, dos grandes fazendeiros que chegaram a tomar essas terras de maneira meio-duvidosa. Então o governo ele faz todo esse trabalho, ele compra esses títulos dessas terras e devolve essas terras pras pessoas da comunidade. E aí, nós hoje, nós estamos deparando com esse trabalho de reconhecimento do território. E aí a gente percebe que tá tendo um outro conflito interno, onde as pessoas que são os grandes latifundiários, os grandes fazendeiros, eles tão incutindo na cabeça das pessoas que ninguém hoje é mais dono de sua casa, ninguém hoje é mais dono de seu terreno, ninguém hoje é mais dono de seu quintal. E as pessoas realmente hoje tão absorvendo isso como verdade, e voltando à tona de novo essas questões de se voltar a trabalhar a eles, a informar que isso é positivo, isso é uma das vantagens, isso é um direito que nós quilombolas temos, que é o direito de trabalhar na terra. De plantar, é agricultura é aquilo que tá no nosso sangue. Então as pessoas vêm, passam informação equivocada, e eles tomam isso como verdade. E aí hoje nós tamo enfrentando essa demanda, mas que eu acredito que é mais uma luta que a gente vai conseguir vencer, ok. Pra que a gente pedisse o reconhecimento de Helvécia, as manifestações culturais também, que permanecem vivas até hoje, elas foram importante pra concretização desse pedido. Entre o, dentre o bate-barriga, o samba de viola [...]. Então o reconhecimento, ele nos favorece essa questão da forma de aquilombar pra buscar os nossos direitos que nos foi negado no passado. Então, tá aí essa importância dessas manifestações prevalecerem até hoje né, que a gente busca pra que ela perdure para sempre na nossa comunidade (Entrevistas cedidas em 2013).
O processo de categorização identitária em Helvécia, da invisibilidade ao reconhecimento, acionou a necessidade de intercambiar passado e presente. Recorrendo a Benjamin (2011), nas teses sobre o narrador, mesmo se referindo a outro contexto, tal comportamento aplica-se à ação das mulheres que precisavam legitimar a autonomeação, identificação e reconhecimento quilombola, no sentido de dar visibilidade e seguridade às experiências de grupo, desenvolvidas em coletividade. Para tanto, foi preciso ouvir as experiências, que, em quase 200 anos, passaram de pessoa a pessoa, “fonte a que recorrem todos os narradores (BENJAMIN, 2011, p.198)”, porque “a imagem da voz mergulha suas raízes numa zona do vivido que escapa às fórmulas conceituais” (ZUMTHOR, 2010, p.10-11).
No subcapítulo a seguir, apresentamos a importância do “pulsar da linguagem” das negras cantadoras que trazem, no corpo e na voz, inscrições de histórias e vivências,
o que entendemos como um sopro criador que ritualiza e reatualiza a tradição em Helvécia, revelador de saberes, atitudes, conflitos e amores partilhados nos dias da roda de canto e dança do bate-barriga, das rezas e dos embarreiros20.