A vida é com certeza o maior bem dos seres humanos e deve ser continuamente cuidada, preservada e protegida ao máximo. Estuda-se muito sobre a origem do planeta terra e tudo o que nele contem. Para aqueles que são crentes em Deus, segue-se confiando plenamente na sua engenharia perfeita e muito bem planejada.
Para os que não acreditam, cultiva-se uma explicação científica construída a base de pesquisas e estudos que apontam prováveis hipóteses da possível formação nuclear da vida humana e planetária.
Entretanto, também existem aqueles que seguem num mar de muitas dúvidas e questionamentos, no qual julgam que tudo continua sendo um grande mistério, mas, contudo, certamente todos, sem exceção, entendem que mesmo sem ter
a certeza da exata origem da vida, sabem que todos os seres vivos devem ser tratados com a devida dignidade e respeito.
São muitas as ideias e os estudos que tratam da origem dos seres humanos com intuito de definir exatamente os seus valores axiológicos, todavia, importa saber que a partir do seu surgimento, a criatura humana se tornou o portador da evolução e deste então não parou mais.
Sofre constantemente profundas transformações em si mesmo e foi considerado o único ser vivo que possui a capacidade de comunicação e raciocínio e o principal da sua essência é o bem do mal. Vive socialmente na busca da própria felicidade e assim constrói concepções no dever ser além da natureza. E nessa sintonia, surgem às primeiras ideias sobre o que vem a ser o humanismo, e por esse motivo, um conhecimento amplo se criou em torno dele, contudo, não trouxe as respostas exatas para as maiores aflições da humanidade. Dentro das várias realidades existentes é de suma importância que o homem se coloque como um fim em si mesmo, ou seja, como valor absoluto. Conforme já comentado, o ponto principal se sustenta na dignidade da pessoa humana e ao respeito pela vida, assim, a partir desse conceito surge um novo humanismo com novas definições por meio das aberturas biológicas e pelos conflitos morais envolvidos que decorrem das novas descobertas em torno da ciência da vida (FABRIZ, 2003).
É claro que cada sociedade atribui um valor diferenciado aos valores da vida de acordo com o entendimento estabelecido a partir de cada cultura e seus costumes. Agora, passaram-se muitos anos até que se reconheceu a vida como um bem jurídico, para então apenas protege-la como tal. Mesmo não havendo garantias sobre a sua proteção, aquele que não a respeitasse e atentava “contra ela, era punido”. As evoluções nesse sentido foram ocorrendo gradativamente. No Brasil, por exemplo, o Código Penal passou a condenar o homicida desde 1830, contudo, estabeleceu-se uma efetiva garantia sobre o direito à vida apenas na Constituição de 1988 em seu artigo 5º, determinando que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.” (FREIRE DE SÁ; MOREIRA, 2015, p. 68).
Pelo exposto acima, nota-se que o direito a vida não é garantido somente aos brasileiros, mas também a todos que estiverem em território nacional. É um direito que se sobrepõe a todos os demais direitos garantidos constitucionalmente, o que justifica a sua essencialidade. Um direito considerado personalíssimo e intransferível que trata do bem maior, devendo, justamente por esse motivo, ser respeitado e garantido ao máximo. Contudo, resta saber qual é o exato limite do direito à vida, pode de fato ser considerado como absoluto? Diga-se de passagem, que o assunto é bastante controverso e extremamente conflitante, são princípios que entram em total conflito. O direito penal, por exemplo, tem por objetivo proteger ao máximo o direito a vida, começando pela “vida intrauterina, desde que o feto não ponha em risco a saúde ou a vida da mãe.” O que de igual forma também é problemático, sendo que, está se protegendo
uma vida para abrir mão da outra, no caso o feto. A proteção deve-se estender desde a vida individual até ao direito de conviver em sociedade, por meio das garantias constitucionalmente asseguradas para uma vida digna. O Estado tem a incumbência de tutelar aos indivíduos a garantia do acesso aos Direitos Fundamentais que garantem o mínimo existencial, agora, quando um ser humano se encontra em estado de absoluto sofrimento terminal, sem chance de melhoras, entra-se num ponto completamente divergente, que trata do direito de morrer com dignidade (FABRIZ, 2003, p. 266-273).
“O respeito à vida constitui o princípio mais invocado, pelo menos na cultura ocidental, como justificação das normas morais, das regras do direito, das políticas sociais e dos direitos humanos.” A vida acima de tudo, é considerada um valor absoluto que deve ser protegido a todo custo. Para a religião, somente Deus é o mestre da vida e para os descrentes a vida é inviolável e fundamental (DURAND, 2012, p. 153).
Diante de todas as considerações feitas até o momento, elucidando a importância da vida, bem como a autonomia exercida sobre ela em todos os aspectos, é necessário analisar os requisitos e a incidência do valor absoluto da vida humana nas suas extremidades, que no presente caso trata da terminalidade ou em estado grave de saúde.
As ponderações seguem com base na investigação ocorrida no Hospital Evangélico de Curitiba/PR, onde a chefe e sua equipe da Unidade Geral de Tratamento Intensivo, foram acusados de antecipar a morte de vários pacientes com o intuito de liberar vagas. Nesse sentido, considerando os pacientes acometidos de alguma enfermidade e presos numa UTI com chances de sobreviver ou não, pode-se decidir sem uma prévia autorização sobre a vida do paciente, ainda mais no Brasil onde a Eutanásia configura crime de homicídio?! (CONFLITO DE COMPETÊNCIA CRIME Nº 1.296.464-0, do foro central da comarca da região metropolitana de Curitiba. Tribunal de Justiça do PR. Relator Presidente TELMO CHEREM, julgado em 5 de fevereiro de 2015).
Entendendo o valor da vida e as suas formas de protegê-la, quais são os verdadeiros limites de proteção e intervenção? Em que momento a vida deixa de ser absoluta e passa a ser relativa, a exemplo da situação acima, em estado grave numa Unidade Intensiva de Tratamento, principalmente quando surge a suspeita de violação e atentado a vida através da interrupção dos cuidados e desligamento dos aparelhos?
Até que estágio a vida é absoluta e irrenunciável? Com base na situação supracitada e os princípios trabalhados, segue-se para uma possível compreensão.
Usa-se tanto da liberdade, que se nega até mesmo “a existência do próprio Criador” e com isso, por muitas vezes usando da liberdade extrapola-se os limites causando ainda mais sofrimento ao próximo. “Sofrimento nosso ou sofrimento dos outros. Afinal não somos seres isolados no universo, mas estamos todos fortemente interligados”. É válido pontuar que em qualquer gesto que um indivíduo manifesta, interfere de alguma forma na vida do seu semelhante e considerando a forma como muitas vezes certas ações são externadas, acaba causando sofrimentos a um grupo maior de “pessoas, ou a toda coletividade”. (D’ASSUMPÇÃO, 1998, p. 86).