2 CAPÍTULO II – FORMANDO OS ALICERCES DO ESTUDO
2.1 Da justificativa à pergunta chave
Segundo relatório de 2015 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime – UNODC, estima-se que 246 milhões de pessoas – um pouco mais do que 5% da população mundial com idade entre 15 e 64 anos – tenha feito uso de drogas ilícitas em 2013. Cerca de 27 milhões de pessoas fazem uso problemático de drogas, das quais quase a metade são pessoas que usam drogas injetáveis. Além disso, este contexto também é refletido nos demais segmentos da sociedade por sua relação comprovada com os agravos sociais, como: acidentes de trânsito e de trabalho, violência domiciliar e crescimento da criminalidade, doenças, homicídios e suicídios. Ainda segundo o estudo da UNODC, cerca de 1,65 milhão de pessoas que injetam drogas estavam vivendo com HIV em 2013 (UNODC, 2015).
No Brasil, o problema do uso indevido de drogas vem ganhando proporções gravíssimas nas últimas décadas, tornando-se um desafio de saúde pública em todo o país. O aumento da quantidade de usuários surge em decorrência da disseminação, sendo o país uma rota de tráfico internacional e um grande mercado consumidor. Os meios de comunicação nacionais noticiam que se pode fazer o uso de droga a qualquer hora do dia nas grandes cidades do país.
A UNODC (2015) relata que “indústria da droga” terminou a primeira década do milênio com um faturamento anual de US$ 870 bilhões e que a concentração no comércio de drogas ilegais corresponde a 1,5% de todas as riquezas produzidas no globo, o Produto Interno Bruto (PIB) mundial, e movimenta 40% das demais frentes de negócios mantidas pelo crime organizado globalmente, como tráfico de armas, de pessoas e lavagem de dinheiro, entre outros, que giraram US$ 2,1 trilhões, ou 3,6% do PIB global.
Em um estudo sobre benefícios auxílio-doença concedido pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social) entre os anos de 2008-2011, Soares et al. (2013) encontraram 144.159 benefícios por transtornos decorrentes do uso de álcool e outras drogas, situando estas patologias entre as dez causas mais frequentes de afastamentos do trabalho de origem psiquiátrica, e que custaram ao INSS a quantia de R$ 121.417.903,30.
Minayo e Deslandes (1998), em pesquisa sobre a relação de drogas e violência apontam para um estudo realizado por uma das autoras (DESLANDES, 1997), afirmam que das 176 agressões atendidas no Hospital Miguel Couto (no Rio de Janeiro), 33% envolveram o uso de drogas, enquanto que no Hospital Salgado Filho (no Rio de Janeiro), das 188 agressões, 37% tiveram essa relação. Tais dados apontam para o fato de que uma em cada três agressões envolveu o consumo de drogas, demonstrando assim a magnitude do problema na saúde pública, e após vasta discussão sobre o assunto, concluem que o desafio para a saúde pública, que hoje se preocupa tanto com o uso abusivo de drogas, quanto com a violência como fatores de risco para a qualidade de vida, é conseguir um quadro referencial para a reflexão e para a ação que inclua ao mesmo tempo o individual, o social e o ecológico.
Sanchez e Nappo (2007) realizaram uma extensa revisão da literatura descrevendo os principais estudos científicos que tratavam do papel da religiosidade no tratamento e na prevenção do consumo de drogas, e encontraram evidências significativas de que as pessoas que frequentam regularmente um culto religioso, ou que dão relevante importância à sua crença religiosa, ou ainda que pratiquem cotidianamente as propostas da religião professada, apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas e ilícitas.
Além disso, os dependentes de drogas apresentam melhores índices de recuperação quando seu tratamento é permeado por uma abordagem espiritual, de qualquer origem, quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente por meio médico. Os autores observaram ainda que esses estudos são baseados em dados obtidos por levantamentos epidemiológicos com características estritamente quantitativas, ou seja, grande parte desses estudos tem característica quantitativa e utilizam meios estatísticos para avaliar a correlação entre a religiosidade e o consumo de drogas, sem, contudo, enfocar os mecanismos estruturais do fenômeno.
Observa-se, assim, que os mecanismos ou as variáveis de causalidade não são enfocados. O que resulta em um amplo campo de pesquisa aberto nessa área de conhecimento, exigindo mais estudos que permitam a compreensão dos processos da ação da fé religiosa na prevenção primária do consumo de drogas e, especialmente, no tratamento da dependência.
Sabe-se que a perda da capacidade de controle do comportamento de busca e obtenção da droga faz com que o dependente se afaste do ambiente familiar, social e laboral. Observa-se a deterioração da vida da maioria dos indivíduos com dependência química grave, uma vez que para manterem o uso da droga expõem-se a comportamentos de risco, envolvendo- se com pessoas e/ou grupos que atuam junto a ou em ação permanente na criminalidade. Tal cenário nos leva a pensar que elementos vivenciais vinculados à espiritualidade poderiam fazer
rupturas com esse universo relacional que o sujeito com TUS adentra, e que experiências, como seus mapas cognitivos e desiderativos poderiam estar envolvidas no enfrentamento do uso abusivo de drogas pelo sujeito. Isso parece implicar, pois, saber do investimento afetivo do sujeito - quando e como ele investe - na dimensão espiritual.
É válido observar que a grande maioria dos estudos existentes que abordam essa relação é baseada em dados obtidos por levantamentos epidemiológicos com características estritamente quantitativas, não enfocando as variáveis de causalidade e nem permitindo a compreensão dos processos experienciais envolvidos na promoção da saúde, ou na prevenção primária do consumo de drogas e, especialmente, no tratamento da dependência, como enfatizam Sanchez e Nappo (2007).
Para Carter (1998), a eficácia do tratamento com manutenção de uma abstinência superior a cinco anos está diretamente ligada ao desenvolvimento da espiritualidade do paciente. O autor também faz a sugestão que sejam feitas pesquisas qualitativas que possam desvendar o papel real dessa espiritualidade na recuperação da dependência de drogas.
Comprovada a gravidade do assunto em questão e baseando-se especialmente nos estudos de Sanchez e Nappo (2007) e de Carter (1998), no intuito de formar conhecimento, intento compreender os processos envolvidos na relação entre a E/R e a dependência química. Assim, proponho na presente pesquisa articular como pergunta central: de que forma a espiritualidade está envolvida na experiência de abstinência do indivíduo com transtorno por uso de substância?
2.2 Objetivos