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2. LINEARES HISTÓRICOS

2.2 DA LICENÇA-MATERNIDADE

A presença de mulheres no mercado de trabalho é fato que remonta à Anti-güidade e que se tornou notório a partir da Revolução Industrial. O trabalho feminino passou a ser aproveitado em larga escala, muitas vezes, em detrimento à mão-de- obra masculina. À medida que as indústrias se desenvolviam, preferia-se empregar mulheres pelo fato de aceitarem salários menores do que os dos homens, c on-quanto executassem os mesmos serviços. 31

30 SEGUNDO, Rinaldo, op.cit.

31 MARTINS, Sérgio Pinto. Direito do Trabalho. 15.ed. São Paulo. Atlas. 2002.p.532.

Embora realizando um trabalho remunerado, a mulher continuou a ser res-ponsável pelos cuidados com os filhos e pela execução das tarefas domésticas, pois esses eram considerados trabalhos femininos, segundo a divisão de função que o senso comum imputou a homens e mulheres. À sua hipossuficiência econômica so-mou-se a histórica subalternidade de gênero.

Além de se sujeitarem às longas jornadas de trabalho em troca de baixos salários, as legislações não previam proteção às trabalhadoras, especialmente na fase de gestação e amamentação. Leciona Yone Frediani:

De forma geral, a mulher, perante o ordenamento jurídico pátrio, não era alvo de qualquer preocupação, na medida em que a Carta Imperial de 1824 ignorava sua existência, lembrando-se que à mesma não era dado o direito ao voto.

Ademais, a grande maioria do contingente feminino não possuía qualquer instrução, sendo à época, esmagador o índice de analfabetismo feminino.

[...]

Entretanto, os empregadores, regra geral, preferiam o trabalho de mulheres e crianças, eis que remunerado, em valores médios, cerca de 30% inferior ao trabalho masculino.

No início da industrialização pátria, os salários pagos eram aviltantes, as jornadas excessivas e nenhuma proteção era dada aos que trabalhavam.32

Na Europa, após inúmeras pressões e reivindicações de grupos organizados de trabalhadores, surgiram as primeiras normas destinadas a assegurar-lhes condi-ções humanitárias mínimas de trabalho, bem como a garantia de direitos mínimos.

Ao longo do século XX, o aprimoramento dessas normas originou legislações espe-cializadas que tinham por escopo regulamentar as relações de trabalho.33

O trabalho e as condições dignas de seu exercício passaram a ser conside-rados direitos humanos e a integrar a ordem jurídica internacional mediante tratados e convenções, especialmente da Organização Internacional do Trabalho – a OIT. 34

32 FREDIANI, Yone. Licença-maternidade à Mãe Adotante: Aspectos Constitucionais. São Paulo.

LTR. 2004.p.36.

33 MARTINS, Sérgio Pinto, op.cit., p.449.

34 PIROTTA, Kátia Cibelle Machado; PIROTTA, Wilson Ricardo Buquetti. O Impacto da

Flexibilização das Leis Trabalhistas Sobre as Condições de Trabalho da Mulher. Disponível em:

<http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/anais/pdf/2002/GT_Gen_ST22_Pirotta_texto.pdf.>. Acesso em: 20 out. 2007.3

A presença em massa de mulheres no mercado de trabalho, sobretudo a partir da Revolução Industrial, tornou explícita a realidade da discriminação de gê-nero. Por esse motivo, no começo do século passado, a OIT já realçava a necessidade de proteção ao trabalho da mulher, haja vista as especificidades e pe-culiaridades desta, sobretudo em razão da maternidade. Destarte, para que fosse possível a manutenção da mulher no mercado de trabalho e evitarem-se discrimina-ções em face de uma gravidez real ou potencial, era necessária a criação de medi-das legais que assegurassem a proteção à maternidade, sem ônus para o em-pregador. 35

A Convenção n.º 3 da OIT, de 1919, que prevê o pagamento das prestações para a manutenção da empregada e de seu filho pelo Estado ou pelo sistema de seguro, foi ratificada pelo Brasil em 26/04/1934. A referida convenção, entretanto, foi promulgada somente em 18/12/1962, por meio do Decreto n.º 51.627.

A Convenção n.º 103 da OIT, de 1952, que reviu a Convenção n.º 3, dispôs que, em hipótese alguma, o empregador deveria ficar pessoalmente responsável pelo custo das prestações devidas à mulher que emprega. A referida Convenção foi ratificada pelo Brasil e promulgada por meio do Decreto n.º 58.020, de 14/06/1966.

Assim, para impedir a discriminação da contratação de mulheres, as presta-ções devidas à empregada gestante deveriam ficar a cargo de um sistema de se-guro social ou fundo público. Porém, foi somente a partir da edição da Lei n.º 6.136, de 07/11/1974, que o salário-maternidade passou a ser uma prestação previdenciá-ria. Até então, o empregador era quem pagava o período em que as trabalhadoras ficavam afastadas para dar à luz. O período no qual a segurada ficava afastada em gozo do salário-maternidade perfazia o total de 84 (oitenta e quatro) dias, tendo iní-cio 28 (vinte e oito) dias antes e 56 (cinqüenta e seis) dias depois do parto.36

Com o advento da Constituição Federal de 1988, os principais direitos e ga-rantias dos trabalhadores foram elevados à condição de normas constitucionais,

35 MARTINS, Sérgio Pinto, op.cit., p.532-533.

36 MARTINS, Sérgio Pinto, op.cit., p.539.

dentre eles a proteção à maternidade, que é um dos direitos sociais previstos no caput do art. 6.º.

O período de duração da licença foi aumentado de 84 (oitenta e quatro) para 120 (cento e vinte) dias, sem prejuízo do emprego e do salário, conforme inciso XVIII do art. 7.º da Constituição Federal. O início do afastamento passou a ser determi-nado por atestado médico. Dispõe o art. 7.º, inciso XVIII, in verbis:

Art. 7.º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

[...]

XVIII – licença à gestante, sem prejuízo do emprego e do salário, com a duração de cento e vinte dias.

Em 15/04/2002, com a edição da Lei n.º 10.421, que alterou a redação do art. 392 e acrescentou o art. 392-A à Consolidação das Leis do Trabalho, foi estendido o direito à licença-maternidade à empregada que adotar ou obtiver guarda judicial para fins de adoção, porém o tempo de duração da licença dependerá da idade do adotando. 37

Em virtude de o trabalho ora desenvolvido tratar da adoção de crianças por servidoras públicas, tendo como fulcro os estatutos a que estão submetidas, indis -pensável faz-se conhecer os direitos sociais que lhes são conferidos pela Carta Magna. Dessa forma, de acordo com o que preceitua o § 3.º do art. 39, da Constitui-ção Federal, aplicam-se aos servidores ocupantes de cargo público os direitos pre-vistos no art. 7.º, IV, VII, VIII, IX, XIII, XV, XVII, XVIII (que trata da licença à gestante), XIX, XX, XXII e XXX.

Ademais, os estatutos jurídicos de servidores públicos civis de alguns entes da federação estenderam às mães adotantes o direito à licença, cujo período de d u-ração também será determinado conforme a idade do adotando.

Em 10/08/2005, foi apresentado pela senadora Patrícia Saboya Gomes (PDT-CE), perante a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa

37 FREDIANI, Yone, op.cit., p.63.

(CDH), o Projeto de Lei do Senado n.º 281/2005, que prevê a prorrogação da li-cença-maternidade por mais 60 (sessenta) dias.

Segundo a proposta original da senadora, a prorrogação da licença às em-pregadas da iniciativa privada seria feita mediante adesão voluntária da pessoa jurí-dica ao Programa Empresa Cidadã. Esta, por sua vez, receberia como benefício a concessão de incentivo fiscal, mediante ―a dedução integral, no cálculo do imposto de renda da pessoa jurídica, do valor correspondente à remuneração integral da empregada nos sessenta dias de prorrogação de sua licença-maternidade‖.38

O projeto, depois de receber emendas que estenderam o benefício também às mães adotantes servidoras públicas, foi aprovado, por unanimidade e decisão terminativa na CDH, em 18/10/2007, devendo ser encaminhado então para a Câmara dos Deputados. 39

Diante do exposto, conclui-se que a conquista do direito à licença-materni-dade, inicialmente, foi fruto do reconhecimento da necessidade de proteção ao tra-balho da mulher, haja vista as particularidades desta, especialmente em razão da maternidade. Dessa forma, o referido direito constituiu-se, inicialmente, em medida destinada a evitar, na contratação de mulheres, a discriminação motivada por uma gravidez real ou potencial. Para que a medida surtisse seus efeitos, seria necessário que, durante o período em que a trabalhadora estivesse afastada, não houvesse ônus para o empregador.

Por outro lado, a concessão da licença-maternidade também tinha por obje-tivo a tutela da saúde da trabalhadora, haja vista a necessidade, por moobje-tivos biol ógi-cos, de um período de descanso para que a mulher se recuperasse dos desgastes físicos e mentais provocados pela gravidez e parto.

38 GOMES, Patrícia Saboya. Projeto de Lei do Senado nº. 281/2005. Disponível em:

<http://www.senado.gov.br/web/senador/PatriciaSaboyaGomes/projeto%20licen%C3%A7a-maternidade%20vers%C3%A3o%20final.doc.>. Acesso em 17 out. 2007.

39 JORNAL DO SENADO. Disponível em:

<http://www.senado.gov.br/jornal/noticia.asp?codNoticia=63878&dataEdicaoVer=20071022&dataEdic aoAtual=20071022&codEditoria=809&nomeEditoria=Decis%F5es>. Acesso em: 21 out. 2007.

Por fim, mediante o reconhecimento, pela Constituição Federal de 1988, de direitos e garantias fundamentais a todas as crianças e adolescentes, bem como de direitos especiais, em razão da condição peculiar em que se encontram, ou seja, de pessoas em desenvolvimento, a assistência à criança em seus primeiros meses de vida passou a constituir uma das finalidades prioritárias da concessão da licença-maternidade. Entendimento do Supremo Tribunal, conforme se demonstra a seguir:

À duração por prazo certo do contrato sobrevém gravidez que a Constituição protege com licença por 120 dias — CF, art. 7.º, XVIII — que não protege a mulher-trabalhadora, mas ao nascituro e ao infante. Por isso, a temporariedade do contrato não prejudica a percepção da licença à gestante, se os últimos 120 dias da gestação têm início ainda na vigência do contrato.40 (Sem grifo no original).

Com o propósito de facilitar a adaptação da criança adotada à sua nova fa-mília, o referido direito foi estendido à mãe adotante.

Assim, ao propor a prorrogação da licença-maternidade, o Projeto de Lei n.º 281/2005, por intermédio de sua exposição de motivos, corrobora o entendimento de que a referida licença tem como principal destinatário a criança, uma vez que os cui -dados dispensados a ela, especialmente nos primeiros seis meses de vida, são essenciais para que se desenvolva de forma saudável em todos os aspectos (bio-psico-social), bem como para que se torne uma pessoa emocionalmente equilibr ada.

40 A CONSTITUIÇÃO E O SUPREMO on-line. Disponível em:

<http://www.stf.gov.br/portal/constituicao/>. Acesso em: 20 out. 2007.