• Nenhum resultado encontrado

6. Educação pela Tradição Oral de Matriz Africana: transmissão de saberes para a constituição humana

6.2 Da Matriz Africana e dos Processos de Resistência

Durante o percurso de pesquisa foi possível perceber a relação com a questão da matriz africana nos contextos investigados. Esta relação se desenvolve de maneiras diferentes na medida em que se constitui também em contextos diferentes. Entretanto, a essência da tradição oral está em reconhecer a sua ancestralidade africana e, a partir disso, (re)conhecer-se nela.

De acordo com o que foi apresentado na seção 2 deste trabalho, essas diferentes formas de se relacionar com a ancestralidade africana ocorrem, dentre outros aspectos, pelo fato de haverem lacunas históricas que foram preenchidas ao passar dos séculos pela memória coletiva, e reorganizadas de modo a identificar como “de matriz africana” fazeres, saberes, histórias e culturas de diversos povos africanos submetidos à escravidão, inclusive na criação de uma nova língua, como apresentado anteriormente.

Para nós, a criação de uma língua comum e a preservação das suas religiões através de nichos de resistência, usando muitas vezes uma tática ambivalente que era confundida como cristianização, foram os dois fatores culturais mais relevantes dentro do contexto de escravidão e que possibilitaram a resistência social do negro, até os nossos dias. O primeiro partiu de uma mudança no seu falar, evoluindo do fragmentado das diversas línguas para o

geral. O segundo foi um movimento conservador (de conservação da cultura), isto é, através de táticas de acomodação, procurou conservar a sua identidade étnica via mundo religioso. (MOURA, 2014, p. 241-242)

Essa reorganização foi uma reação necessária, um movimento pela sobrevivência a partir daquilo que se dispunha, não apenas para o manter-se vivo, mas uma reação contra o rompimento total com a própria história e ancestralidade – a colonização do ser, do saber e do poder. Segundo Clóvis Moura (2014):

Com o Negro, porém, a situação é diferente e as estratégias montadas foram mais sofisticadas e eficientes. O racismo tem outra tática para com ele. Em primeiro lugar, o negro é considerado cidadão com os mesmos direitos e deveres dos demais. No entanto, o que aconteceu historicamente desmente esse mito. Trazido como escravo, tiram-lhe de forma definitiva a territorialidade, frustraram completamente a sua personalidade, fizeram-no falar outra língua, esquecer as suas linhagens, sua família foi fragmentada e/ou dissolvida, os seus rituais religiosos iniciáticos tribais se desarticularam, o seu sistema de parentesco completamente impedido de ser exercido, e, com isto, fizeram-no perder, total ou parcialmente, mas de qualquer forma significativamente, a sua ancestralidade. (MOURA, 2014, p. 219)

Em função dos diferentes percursos históricos e das diferentes formas de viver a matriz africana (espiritualidade, trabalho, cultura), as maneiras de reconhecimento da própria ancestralidade também são diferentes. Entretanto, apesar das características externas (aparentes) serem diferentes, o movimento interno de busca por si, pela sua história, identidade e ancestralidade (essência) é o mesmo.

A Casa de Oxumarê funda a constituição do seu candomblé nas tradições ancestrais Jeje-Nagô, com influência do Ketu. Isto quer dizer que a língua matriz vem do Yorubá e que são estas as referências que organizam todo o Sagrado, toda a estrutura hierárquica, ritual e cotidiana do terreiro.

Kátia: A matriz é Jeje-Nagô mas, tem a ligação do Ketu. Babá sempre fala que não existe nação. A única nação que a gente pode dizer que tem algumas coisas diferentes do candomblé é Angola, né. Porque Angola, realmente se você for assistir o candomblé de Angola e vier assistir o candomblé do Ketu você vai ver a diferença no ato. O candomblé Angola é mais levado...Já o candomblé de nação Ketu, de nação Jeje, de nação Nagô ele vem com outro ritmo. E ainda tem o Ijexá! Hoje você não vê muito falar nessa nação Ijexá, mas a gente tem pessoas ligadas ao nosso Axé que tem terreiro Ijexá, lá em Plataforma, que é um bairro daqui de Salvador. Então o Ijexá é aquela coisa de Oxum, que é lindo... mas segue alguma tradição do Ketu também. Então, a matriz do candomblé é África. Nossos ancestrais vem de Benin, vem da Nigéria...

É importante dizer que o fato de ter uma matriz determinada não garante nem se refere a um aspecto de “pureza” étnica, epistêmica ou filosófica. Nas tradições de matriz africana, tal afirmação seria uma inverdade profunda, que não poderia jamais confirmar-se nos processos históricos de formação do candomblé no Brasil. Na verdade, a matriz no candomblé determina o caminho mais forte da ligação daquela casa com a mãe África, mas não no sentido de caminho único. Segundo Botelho & Nascimento (2011) em África, as diversas nações que compõem hoje a formação social brasileira são, na sua maioria, monoteístas. E a configuração dos candomblés no Brasil revela justamente as conformações que se deram a partir dos resgates coletivos de memória de cada um desses povos.

Ainda, segundo Machado (2013):

No terreiro, vive-se a memória de uma África ancestrálica na sua complexidade atualizada. A memória ancestral reorganizou a identidade coletiva de negros e negras escravizados no Brasil. A preocupação pela legitimidade da tradição é, de fato, uma preocupação notória com a preservação da identidade sem a qual não haveria identidade. É a tradição do pensamento africano, da ancestralidade negra na íntegra. [...] Trata-se, portanto, de uma forma de atualização que podemos considerar legítima na essência que advém de uma experiência coletiva e que tem a sua própria lógica. Lógica que se faz pela reexistência, como fenômeno de transformação cognitiva pela interrelação de seres e saberes compartilhados. Seres que, expatriados pela diáspora, ressignificaram seus papéis, organizando-se em torno de uma identidade ancestral. Neste sentido, a matriz cultural africana vivenciada nos terreiros carrega, na sua gênese, um conteúdo nem sempre simbólico, com princípios e valores que vão se reorganizando e nos organizam, dialogando com entidades de todos os tempos para os quais viver é um ato sagrado, e nós recebemos este legado. (MACHADO, 2013, p. 52-53)

Nas manifestações tradicionais das culturas populares e nos ofícios tradicionais de matriz africana, geralmente não se conhece de maneira mais definida, como nos terreiros, qual a origem étnica, de grupo ou nação. Entretanto, o entendimento da ancestralidade de matriz africana constitui com força igual a identidade e a humanidade daqueles que detém essa consciência ancestral. Como continuidade dos processos de resistência contra todo esvaziamento histórico-identitário proporcionado pela colonização, na medida em que exercem sua consciência ancestral, como consciência intencionada para o estar no e com o mundo, os detentores das tradições descendentes de África, buscam reconstituir sua história, como é o caso do que acontece em Saubara.

Em Saubara, a geração mais nova promove entre si e para a comunidade, uma busca de referências de suas origens em África, para entenderem mais profundamente os processos que os constituem, que constituíram seus antepassados e que reverberam até hoje nas suas

tradições.

Bel: Essa preocupação de quem acordou do sono dogmático, a preocupação é de fato não deixar morrer a memória. Estava lendo na internet as nossas origens, de onde viemos, de África, o porquê que a gente tem tanta coisa. Aí eu estava olhando os Sudaneses, os Bantos, de onde a gente pode ser referenciado. E eu estava olhando mais para o lado dos Bantos, pesquisando Angolanos, então a gente tem essa ligação. Eu gosto de fazer manifestação cultural a todo momento, para não perder a memória e a história. Aí então a gente consegue se ver nos antepassados, nos ancestrais que vieram pra cá escravizados, a gente também vai se encontrando. Pessoas que eram felizes, pessoas que eram reis, pessoas que eram rainhas, que vieram escravizados, é dar continuidade e não perder as heranças ancestrais. Talvez essa seja uma das minhas preocupações, na verdade, a gente perder a memória de quem somos.

Arnaldo: [Sobre o encontro com o grupo moçambicano, em Lisboa] Encontrar identidade em um povo de um outro país, que não era Portugal....acho que foi pela história, né... Na minha visão essa identidade foi nas suas tradições né [de Moçambique]. No que eles levaram para aquele momento de tradição. O grupo eram três músicos. As músicas soavam bem no nosso ouvido, a gente ali naquele momento via também o Samba de Roda naquelas músicas deles. Alguma coisa estava ligada entre nós. É claro que os portugueses nos receberam bem. Mas...pra ligar mesmo a história, foi bacana o momento em que a gente cantou com esse rapaz de Moçambique. Foi bacana quando a gente conheceu o maior músico da música popular de Angola, Valdenor Bastos, que a gente encontrou lá. E ele contou sobre a música dele. Sobre a dificuldade que ele teve com a música dele, porque ele tinha a música de protesto também. Ele falava dos problemas de Angola, ele foi expulso de lá. E a gente faz essa relação, né...”poxa, nós temos as mesmas dificuldades, os políticos não apoiam as nossas manifestações, não conhecem a nossa história”. E então a gente começa a estabelecer essa relação. [...] Teve um momento que ele cantou pra gente uma música chamada Tereza Ana, que fala da vida de um menino, que vende tangerina, e fala da vida de Tereza Ana. E aí a gente começa a se identificar que é a nossa história também. Que é a nossa dificuldade também. Que é como as nossas crianças, como nós crianças, que vendíamos peixe na rua, que vendíamos tangerina na rua, laranja na rua... [...] E teve também um momento durante uma visita a esses lugares históricos em que um menino que servia de guia. Porque a escola enviou esses meninos que estudavam a história de Portugal pra servir de guia pra gente. Então esse menino era nascido em Portugal mas os pais dele eram de Togo. E ele começou a conversar sobre a história dos pais dele. E a gente se via naquelas histórias.[...] E também nas músicas, nas roupas, algumas batas. No artesanato que a gente via alguns [pessoas de países africanos] vendendo artesanato, a gente via identidade, fazia uma comparação com o nosso, no modo de se vestir, as batas coloridas. Os cabelos, naquela época eu estava com trança e encontrei outros também com trança. E também chegou um momento lá que eu sentia que eu já tinha ido aos lugares, já tinha conhecido aquelas pessoas antes, não só pela língua, mas pelo jeito das pessoas, de conversar, de falar das nossas histórias.

A fala de Arnaldo remete a uma viagem realizada para Portugal da Chegança Fragata Brasileira, através de edital público de intercâmbio cultural para grupos de cultura popular e manifestações artísticas. Pelas palavras de Bel e Arnaldo, pode-se perceber que a consciência de África como matriz ancestral opera como ponto de partida para a reorganização da sua