2 DAS DIFERENTES ESPÉCIES DE CONTRATO DE OBRA PÚBLICA, DOS RISCOS E DA EVENTUAL NECESSIDADE DE SUA ALTERAÇÃO
2.1 DA MATRIZ DE RISCO NO SISTEMA DA LEI Nº 8.666/
Antes de seguirmos, é importante explicar o motivo pelo qual consideramos que no tradicional contrato de obra pública regido pela Lei nº 8.666/93 não há na prática a possibilidade da instituição de um regime híbrido como a contratação integrada, através da alocação do risco do projeto ao contratado por meio do pagamento de uma “taxa” (extra) de contingência. Ou o risco é assumido pelo contratado (nas hipóteses de empreitada integral e preço global) pelo valor do orçamento teto baseado no preço da obra, ou o risco é reservado à Administração (empreitada por preço unitário).
A doutrina clássica aponta a alteração dos contratos administrativos como decorrência do surgimento de fatos associados à existência de três tipos de riscos, denominados de álea ordinária, econômica e administrativa (DI PIETRO, 1999, p. 255-256). A primeira é alocada
ao particular, por surgir da própria execução de sua atividade. A segunda advém de eventos extracontratuais que não dependem das partes, como caso fortuito ou de força maior. A terceira, proveniente da Administração Pública, pode ser dividida em: unilateral, fato do príncipe - atos de autoridade não relacionados diretamente ao contrato - e fato da administração - atos que impeçam ou dificultem a execução do contrato pelo particular.
Passando para o contrato de obra pública regido pela Lei nº 8.666/93, tem-se que as alterações emanam de causas estranhas à vontade das partes ou por culpa da Administração Pública contratante. Os riscos ordinários decorrentes da atuação do particular, como acidentes ou outros imprevistos próprios do ramo da construção, relacionados ao fornecimento de insumos, equipamentos e mão-de-obra, entre outros, são remunerados ex-ante77 e, portanto, não ensejadores de aditivos.
Alexandre Aragão critica as dificuldades ocasionadas por esse modelo:
Essa divis o de riscos, se, em tese, parece clara, diante de exemplos concretos torna-se bastante nebulosa, com in meros casos em uma grande ona cin enta intermedi ria, e a uest o, no final das contas, acaba sendo definida pelo poder judici rio. Até que ponto, por exemplo, varia es cambiais mais bruscas devem ser consideradas como fatos imprevisíveis A partir de ue varia o? (ARAGÃO, 2013, p. 620).
Riscos devem ser considerados como eventos previsíveis, cujas consequências possam ser quantificadas, ou seja, está conectado à possibilidade de cálculo. Frank Knight, um dos primeiros a tratar do assunto neste nível, distingue o risco da incerteza:
A diferença prática entre as duas categorias, risco e incerteza, é que, na primeira, a distribuição do resultado num grupo de casos é conhecida (quer através do cálculo a priori, quer das estatísticas da experiência passada), enquanto no caso da incerteza isso não ocorre, em geral devido ao fato de que é impossível formar um grupo de casos, porque a situação que se enfrenta é, em alto grau, singular (KNIGHT, 1972, p. 249).
Normalmente, atribui-se ao art. 65, II, “d” da Lei nº 8.666/93 a necessidade de reequilíbrio econômico-financeiro pelo advento de riscos:
[...] na hipótese de sobrevirem fatos imprevisíveis, ou previsíveis porém de conseqüências incalculáveis, retardadores ou impeditivos da execução do ajustado, ou, ainda, em caso de força maior, caso fortuito ou fato do príncipe, configurando álea econômica extraordinária e extracontratual. (BRASIL, 1993).
É possível perceber que esse dispositivo cuida de eventos que não dependem da vontade das partes, pois estão na seara de episódios extracontratuais. São fatos da natureza -
77 Em relação às obras públicas contratadas com verba federal, o art. 9º, III do Decreto nº 7.983/13 trata dessa
espécie de risco como um custo indireto, ou seja, que não pode ser apropriado como um valor fixo, mas apenas por uma porcentagem do valor da obra, devendo ser incluído como uma rubrica do BDI (benefícios e despesas indiretas) a ser licitado, de modo que seu valor é quantificado anteriormente à contratação, e pago a cada medição.
como grandes tempestades - de terceiros - podendo ser mencionada a robusta mudança de preço de determinado insumo por alterações de mercado - ou mesmo da Administração, nesse caso não como parte do contrato, mas na função de Governo, como a desvalorização do Dólar frente ao Real. Na realidade, devem ser considerados como incertezas e não riscos, porque sobre eles não há previsibilidade por não seguirem qualquer padrão de ocorrência.
Por isso, filiamo-nos ao entendimento de Mauricio Portugal Ribeiro e Lucas Prado Navarro (2008, p. 121) de que a Lei nº 8.666/93 não dispôs expressamente sobre a alocação dos riscos contratuais.
Desse modo, em tese, nada impediria a realização de uma matriz de risco, ainda que sem previsão na Lei, deixando que essa contingência ficasse a cargo do contratado, tal como ocorre na contratação integrada regulada na lei do Regime Diferenciado de Contratação. O equilíbrio econômico-financeiro seria o cumprimento dessa cláusula contratual, nos termos do art. 37, XXI da Constituição da República (manutenção das “condições efetivas da proposta”) c/c art. 58, I e 65, § 6º78 da Lei nº 8.666/93.
Contudo, aqui, novamente, é preciso separar as espécies de contrato de obra pública. Como explicado, o Decreto nº 7.983/13 determinou que, em relação às empreitadas por preço global e integral, o contratado se manifeste no que atine ao projeto antes da contratação, dando a entender que passou a ser ele o responsável por esses riscos. Mas, por óbvio, ele somente o fará caso o projeto esteja muito completo.
Mesmo que não seja esse o alcance da lei, e levando-se em conta que é a empreitada por preço unitário o modelo usualmente adotado no Brasil, a realidade é a dos contratos previstos na Lei nº 8.666/93 sem matriz de risco formalizada, de tal maneira que a Administração, responsável pelo projeto, acaba arcando com tal ônus79.
78“§ 6o Em havendo alteração unilateral do contrato que aumente os encargos do contratado, a Administração
deverá restabelecer, por aditamento, o equilíbrio econômico-financeiro inicial”.
79 A suposta vantagem desse modelo é defendida por Marçal Justen Filho: “A tutela ao equilíbrio econômico-
financeiro dos contratos administrativos destina-se a beneficiar a própria Administração. Se os particulares tivessem de arcar com as consequências de todos os eventos danosos possíveis, teriam de formular propostas mais onerosas. A Administração arcaria com os custos correspondentes a eventos meramente possíveis – mesmo quando inocorressem, o particular seria remunerado por seus efeitos meramente potenciais. É muito mais vantajoso convidar os interessados a formular a menor proposta possível: aquela que poderá ser executada se não se verificar qualquer evento prejudicial ou oneroso posterior. Concomitantemente, assegura-se ao particular que, se vier a ocorrer o infortúnio, o acréscimo de encargo será arcado pela Administração. Invés de arcar sempre com o custo de eventos meramente a Administração apenas responderá por eles se e quando efetivamente ocorrer. Trata-se, então, de reduzir os custos de transação atinentes à contratação com a Administração Pública” (JUSTEN FILHO, 2014, p. 1013). Maurício Portugal e Lucas Navarro Prado comentam esse entendimento. A crítica, feita no que toca à concessão, tem também pertinência à empreitada: “O equívoco do Mestre paranaense, data venia, provém da indistinção, no plano das suas elaborações sobre o assunto, do sistema de distribuição do riscos (na qual cada parte arcará com as consequências, boas ou ruins, esperadas ou não, de cada evento) e da garantia do equilíbrio econômico-financeiro, enquanto instrumento para adequada manutenção da partilha de
Entendemos que dois são os principais motivos para essa situação.
O primeiro diz respeito à impossibilidade de aplicação de taxa de risco às empreitadas regidas pela Lei nº 8.666/93. Nesse caso, seria preciso aumentar o limite de variação do orçamento de referência levado à licitação (é preciso lembrar que na Lei nº 8.666/93 o orçamento é público, elidindo a vantagem de se levar o risco à licitação, enquanto que no RDC os licitantes não sabem qual a margem de aceitação da Administração para essa rubrica), o que, a princípio, encontraria obstáculo no art. 4080, X da Lei nº 8.666/93 c/c art. 3º e 4º do Decreto nº 7.983/13, que estabelecem como custo unitário os constantes dos sistemas de referência como o Sicro e o Sinapi8182, inexistindo a previsão da inclusão de outro fator além dos custos diretos e indiretos, pois a margem de variação é exclusivamente sobre o preço83.
riscos originalmente pactuada. Esse equívoco é comum nos meios jurídicos, sobretudo nos influenciados pela mais clássica doutrina do direito administrativo francês, cuja interpretação corrente entre nós leva a dois erros, que produzem consequências gravosas para a eficiência da contratação e execução do contrato administrativo. O primeiro é a interpretação da garantia do equilíbrio econômico-financeiro como um postulado ético-jurídico, desvinculada da sua justificativa econômico-jurídica. O segundo é a visão de que o equilíbrio econômico- financeiro se dá de maneira estática, pelo conjunto de prerrogativas e encargos do concessionário, sem se dar conta, muitas vezes, de que prerrogativas e encargos são, amiúde, atribuições de riscos. Essa visão estática da avença muitas vezes tem por efeito ressalvar os concessionários, ao longo da execução do contrato, de determinados riscos que eles assumiram claramente no contrato, precificaram na origem, cobraram nas suas propostas, e, por consequência de uma visão algo tradicional sobre a ideia de reequilíbrio econômico-financeiro, a conta (da ocorrência do sinistro relativo ao risco) retorna para o Poder Público e/ou para o usuário.” (RIBEIRO; PRADO, 2010, p.106).
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X - o critério de aceitabilidade dos preços unitário e global, conforme o caso, permitida a fixação de preços máximos e vedados a fixação de preços mínimos, critérios estatísticos ou faixas de variação em relação a preços de referência, ressalvado o disposto nos parágrafos 1º e 2º do art. 48.
81 Art. 3o O custo global de referência de obras e serviços de engenharia, exceto os serviços e obras de
infraestrutura de transporte, será obtido a partir das composições dos custos unitários previstas no projeto que integra o edital de licitação, menores ou iguais à mediana de seus correspondentes nos custos unitários de referência do Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil - Sinapi, excetuados os itens caracterizados como montagem industrial ou que não possam ser considerados como de construção civil. Parágrafo único. O Sinapi deverá ser mantido pela Caixa Econômica Federal - CEF, segundo definições técnicas de engenharia da CEF e de pesquisa de preço realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.
Art. 4o O custo global de referência dos serviços e obras de infraestrutura de transportes será obtido a partir das composições dos custos unitários previstas no projeto que integra o edital de licitação, menores ou iguais aos seus correspondentes nos custos unitários de referência do Sistema de Custos Referenciais de Obras - Sicro, cuja manutenção e divulgação caberá ao Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes - DNIT, excetuados os itens caracterizados como montagem industrial ou que não possam ser considerados como de infraestrutura de transportes.
82 A possibilidade de elaboração de matriz de risco para a Lei nº 8.666/93 ficou facilitada com a edição do
Decreto 7.983/13, pois, tratando-se de regulamento, pode ser alterado com maior maleabilidade. Até o ano de 2013, a necessidade de que os custos unitários tivessem como limite o valor constante dos sistemas referenciais constava das leis de diretrizes orçamentárias. A última que tratou do assunto foi a Lei nº 12.709/12 (art. 102).
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Segundo Cláudio Altounian (2014, p. 73), preço “ a importância paga por um bem ou serviço na sua comercialização. Corresponde à soma dos custos diretos e indiretos, e do lucro da empresa fornecedora dos servi os”. O preço, por essa ótica, tal como previsto no sistema do RDC, não embutiria o risco expressamente de forma quantificada.
O segundo relaciona-se com a atratividade do mercado privado. Como exposto, em sede de contrato de obra pública regido pela Lei nº 8.666/93, o projeto básico é elaborado por contratado distinto (ou pela Administração Pública) do que executará a obra. Nesse cenário, a matriz de risco não é atraente, pois o contratado para a obra terá que se aventurar a assumir um projeto que não elaborou.
Outrossim, a Administração, mesmo que hoje quisesse, não conseguiria elaborar matriz de riscos. Os gestores públicos não foram treinados para um sistema tão sofisticado e não conhecem métodos para tanto84. Seria necessário um longo período de aprendizado e verdadeira mudança de geração para que fosse implantada a cultura do risco e da contratação por resultado.
Em suma, apesar de possível, entendemos que o sistema de 1993 não está preparado para a elaboração da matriz de risco e que essa medida foi, na prática, inaugurada, quanto ao contrato de obra pública, com a contratação integrada. Por isso, é normalmente mantida a teoria das áleas, que atrai os riscos para a Administração, sem espaço para a alocação eficiente, ou seja, a distribuição para a parte que pode melhor lidar com tais eventos.
Desse modo, cabe estudarmos o que se entende por risco e projeto, na medida em que ambos são de responsabilidade da Administração Pública no modelo do tradicional contrato de obra pública previsto na Lei nº 8.666/93 e, destarte, fundamentais para se entender a função das alterações qualitativas e o porquê do seu limite de valor.