2 O TRABALHO E O EXERCÍCIO DO MÉTIER ARTÍSTICO: ELEMENTOS PARA SE PENSAR A MÚSICA COMO PROFISSÃO
3 O TRABALHADOR DA MÚSICA: APORTES TEÓRICOS INERENTES AO EXERCÍCIO DA PROFISSÃO MUSICAL
3.2 DA NATUREZA SINGULAR DO TRABALHO MUSICAL NA SOCIEDADE CAPITALISTA
O termo genialidade é com freqüência associado ao exercício do trabalho artístico. A atividade artística dispõe de um caráter singular e inventivo. O profissional da arte, como pensa o senso comum, se evidencia dos demais por ser dotado dessa qualidade idiossincrática. Ainda que a palavra também possa ser usada para definir qualquer profissional que se destaca dentre as diversas áreas de conhecimentos. É corriqueiro ouvir termos como gênio da física, gênio da química, dentre outros. Mas, ao aduzir raciocínios que constituem uma argumentação em torno da ideia de genialidade no processo de criação artística, outros conceitos como talento, inspiração, dom, originalidade vem à superfície e conseqüentemente terão de ser abordados, ou pelo menos mencionados. A genialidade é apontada como o principal ingrediente que faz com que em um dado período histórico alguns músicos se destaquem (mediante a criação ou realização de algo novo) de outros, ganhem notoriedade e sobreviva à posteridade mediante o seletivo olhar de quem conta e escreve a história. Todavia, consideramos que qualquer argüição sobre esse tema é algo bastante delicado de se abordar e
aqui nos mantemos cautelosos por colocar um assunto por demais complexo, uma vez que, a pretensão de mensurar o grau de genialidade impresso numa composição musical, poderá revestir-se de critérios totalmente abstratos e relativos. Porém, não se pode negar que no âmbito do exercício da profissão musical conceitos como genialidade e inspiração, se contrapõem a natureza das atividades repetitivas e rotineiras do trabalho (em seu sentido moderno – fordista / taylorista). Nessa visão fordista do trabalho, o operário é expropriado do seu trabalho, já o músico se enxerga detentor de sua ouvre (obra) e até compartilha com a platéia sua realização. Contudo, enquanto alguns autores reservam à criação artística uma dimensão quase sobrenatural (denominada por muitos de inspiração), outros a vêem fora dessa visão romantizada e mística, assessorada (mas não dependente) pelo uso das ferramentas técnicas25. Para Stravinsky (1996, p. 53) a inspiração “não é de forma alguma condição prévia do ato criativo”. Embora não negue sua importância. Toda criação artística, defende o compositor russo, tem na sua origem uma espécie de antevisão. Mas o antecipadamente imaginado só toma forma “pela ação de uma técnica constantemente vigilante” (STRAVINSKY, 1996, p. 54). Stravinsky (1996) ainda esclarece que prefere ser chamado de inventor, ao invés de compositor. A ideia de invenção pressupõe uma descoberta subsidiada pela técnica. Igualmente para o filósofo alemão Theodor W. Adorno (1903-1969), no processo de concepção musical, o trabalho e a fantasia devem estar intimamente ligados. Adorno (1970) define métier não como um conjunto de procedimentos técnicos, mas como conjunto das faculdades que o artista se vale para conceber sua obra, o que engloba os procedimentos técnicos por ele mobilizados. Diante da concepção na qual o processo criativo é tido como fruto exclusivo da inspiração, o métier, a racionalização do processo de produção artística, apresenta-se como destruidor da aura (aspecto único) da obra de arte, uma vez que os procedimentos técnicos são agora reconhecidos, passíveis de serem aprendidos, num sentido amplo; desmistificados. Essa racionalização da produção artística, na concepção e no uso das técnicas, oferece outra visão sobre a obra de arte enquanto fruto do sopro inspirador da criação genial. Nesse contexto é importante destacar que o texto do crítico literário e ensaísta alemão, Benjamin (1975), a obra de arte na época da reprodutibilidade técnica, já apontara que as modificações ocorridas nas condições de produção da arte eliminaram em grande medida e conseqüentemente alguns conceitos
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Até mesmo Mozart, talvez o ícone artístico máximo da atividade artística nata, pensava como estes: “Erram as pessoas que pensam que minha arte me vem com facilidade. Eu lhe garanto, querido amigo, que ninguém devotou tanto tempo e pensamento à composição quanto eu. Não há um único mestre famoso cuja música eu não tenha estudado, diligentemente, muitas vezes” (MOZART, [17--] apud SOLMAN, 1991, p. 25).
clássicos, entre eles as noções de mistério e de valor singular e perene dos produtos26. Para Benjamin (1975) as novas condições de produção possibilitam a reprodutibilidade do objeto artístico, porém, mesmo deixando intacto seu conteúdo, mas desvalorizam seu hit et nunc, sua originalidade. Benjamin (1975, p. 14) é enfático quando diz que “na época das técnicas de reprodução, o que é atingido na obra de arte é sua aura”. Ora, com a multiplicação de cópias, o evento, que é produzido apenas uma vez, torna-se um fenômeno de massa, possuindo agora permanente atualidade. Nesse contexto industrial de produção, são conferidas à arte funções inteiramente novas, uma vez que ela é agora emancipada de seu papel ritualístico, ao tempo em que se vê modificado a atitude da massa com relação à arte, precisamente o modo de perceber e senti-la. O antigo modo de perceber a arte exigia concentração, porém a massa procura agora diversão. Para Adorno (1985, p. 128) tal ideia faz sentido, nesse moderno contexto de produção, pois para ele a “diversão é o prolongamento do trabalho sobre o capitalismo tardio. Ela é procurada por quem quer escapar do processo de trabalho mecanizado, para se pôr de novo em condições de enfrentá-lo”. Diversão implica em esquecer a labuta. O novo consumidor da arte, cuja atitude é desatenciosa e desinteressada, é essencialmente um consumidor que se distrai. O culto a arte move-se para o segundo plano, enquanto que, nesse sistema de produção capitalista, é ressaltado o culto ao astro.
No que diz respeito à genialidade, faz-se referência aqui a dois autores: Karl Marx e Friedrich Engels. Eles não estão interessados em aprofundar e questionar a origem do talento artístico nas pessoas, mas enfaticamente, na crítica de que o indivíduo ao se denominar artista delimita seu campo de atuação na vida, encerrando no rótulo ocupacional artista seu vir-a-ser:
A concentração exclusiva do talento artístico em algumas individualidades, e correlativamente a sua asfixia na grande massa de pessoas, é uma conseqüência da divisão de trabalho. Supondo mesmo que em certas condições sociais cada indivíduo seja um excelente pintor, isto não excluiria de modo algum que cada um fosse um pintor original, de tal modo que, também nesse caso, a distinção entre trabalho ‘humano’ e trabalho ‘único’
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De forma metafórica, o conceito de aura relacionado à arte, faz referência a uma suposta aureola luminosa (de atribuição sobrenatural) sobre o objeto artístico conferindo-lhe um aspecto único e possuidor de vibrações singulares, constituindo assim a própria essência da arte, cuja experiência transcende a técnica. O que Benjamin (1975) põe em discussão é o fato de que em decorrência da reprodução dos objetos artísticos (multiplicação e massificação), especificamente, a partir da invenção da fotografia a arte perde sua aura. O que Aumont (1995) coloca, comentando esse texto de Benjamin é que a natureza da aura é simbolicamente mutável para os homens de diferentes tempos que lhe atribui de algum modo um sentido.
desse lugar a um puro contra-senso. Numa organização comunista da sociedade, o que será suprimido de qualquer modo são as barreiras locais e nacionais, produtos da divisão do trabalho, em que o artista está encerrado, enquanto o indivíduo deixará de estar fechado nos limites de uma arte determinada, limites esses que fazem com que existam pintores, escultores, etc., que são apenas isso, e o nome por si basta para exprimir suficientemente a limitação das possibilidades deste indivíduo e a sua dependência relativamente à divisão do trabalho (MARX; ENGELS, [198- ?], p. 235).
Numa sociedade comunista, argumenta Marx, não existiriam músicos, pintores, atores, etc., mas pessoas que, entre outras coisas, se dedicariam às artes. O trabalho é, para cada um, “o meio de desenvolver a totalidade das suas capacidades: falar de atividade criativa torna-se então um pleonasmo [...]” (MENGER, 2005, p. 49). Mas e o caráter único da obra de arte, fruto da singular inventividade artística, onde se situa? Todos se dedicariam à arte e seriam, mesmo assim, além de excelentes artistas, seriam também “originais”? Marx não diz exatamente isso, mas, responde firmemente a essas questões numa abordagem crítica à divisão do trabalho dizendo que “a concentração exclusiva do talento artístico em algumas individualidades, e correlativamente a sua asfixia da grande massa, é uma conseqüência da divisão de trabalho” (MARX; ENGELS, [198-?], p. 234). Para Marx o caráter original expresso em cada obra artística, não seria apenas privilégio de alguns, mas todos poderiam vir a ser, de igual modo, originais. Se isso seria possível, dificilmente o saberemos, pois se trata de uma hipótese formulada na perspectiva de outro modelo de organização social, um exemplo de funcionamento social imaginado por Marx. Se há alguma espécie de “individualismo” em Marx, ele é indiferente a necessidade de comparação entre as pessoas e objetos, o que salientaria evidentemente as diferenças (MENGER, 2005, p. 52).
Nessa concepção de sociedade, cujos partícipes são oniscientes e polivalentes, crítica clara a alienação do trabalho no mundo capitalista, reside um ponto que pode ser apontado como paradoxal. Ao fazer do trabalho expressivo a base da realização individual, Marx é induzido a ignorar um dos elementos constitutivos e essenciais das atividades artístico-criativas: a diferença essencial entre os indivíduos e os produtos do seu trabalho, ainda; “a identificação do indivíduo com a sua obra e a identificação pelo outro das singularidades daquilo que se oferece ao seu deleite” (MARX; ENGELS, [198-?], p. 51). Considerar, pois, a inventividade criativa um item comum numa sociedade supostamente igualitária, onde não haja divisão e especialização do trabalho, pode significar desconsiderar a própria diversidade de escolhas do indivíduo na construção do próprio devir. Sobre a noção de singularidade do trabalho artístico é fundamental também perceber o individualismo artístico
como o “produto do movimento histórico de diferenciação progressiva da esfera das actividades artísticas, e como motor da concorrência entre os artistas [sic]” (MENGER, 2005, p. 24-25).
Essa discussão é estendida a outro filósofo contemporâneo de Marx, com quem travará um acentuado debate. Trata-se de Max Stirner (Johann Caspar Schmidt –1806/1856) filósofo alemão, autor de O único e sua propriedade. Stirner começa por defender dois tipos de trabalho: a ideia de trabalho humano e trabalho único. Diz Stirner (1988, p. 308, tradução nossa):
A organização do trabalho só diz respeito aos trabalhos que os outros podem fazer para nós, por exemplo, o abate de animais, a lavoura, etc. Os outros trabalhos conservam um caráter egoísta, dado, por exemplo, que ninguém pode, em teu lugar, escrever as tuas composições musicais, executar as pinturas que tu imaginastes, etc. Nenhuma pessoa pode substituir as obras de Rafael. Estes últimos são os trabalhos de um indivíduo único, trabalhos que só este ser único pode realizar, enquanto os primeiros merecem o qualificativo de ‘humano’ [...]27.
Para Stirner há um caráter único em cada indivíduo que possibilita, em igual extensão, que o mesmo tenha uma atuação única. A ocupação de determinados postos de trabalho exige mais que uma formação geral para que todos possam vir a ter acesso, exigem- se virtudes singulares presentes de forma diferenciada em cada indivíduo. Não se trata apenas de ser único numa atividade, mas em reconhecer como singular cada maneira particular de existência. Nesse sentido, o trabalho artístico é de natureza única.
Díaz (2002, p. 74-78) salienta como característica do indivíduo uma maneira pessoal e singular de ser único. Para ele “cada um é pra si mesmo o próximo”. Ninguém pode ser meu semelhante, diz o filósofo, “a não ser que, identicamente a todos os demais seres, eu o considere minha propriedade”. Completa ainda: “tenho-me por único! Tenho, sim, alguma analogia com os demais, mas isso não tem importância mais que para a comparação e a reflexão; de fato, sou incomparável, Único”. A concepção de ser único em Stirner é uma filosofia egoísta extrema, ausente de quaisquer ideias altruístas. Um modo de assinalar que no seio da sociedade capitalista a única causa válida é a do indivíduo. Essa ideia de vida se pauta na ausência de um hedonismo comunitário que exclui a solidariedade e cooperação e amor ao
27“L’ organization du travail ne concerne que les travaux que d’ Autres peuvent faire pour Nous, par exemple abattre les animaux, cultiver les champs, etc. Lês autres restent des travaux égoïstes, parce que personne, par exemple, ne peut écrire tes compositions musicales, dessiner tes esquisses, etc...Persone ne peut remplacer lês oeuvres de Raphaël. Ce sont celles d’un être Unique, et Seul celui-ci peut lês exécuter, tandis que l’on pourrait à juste titre qualifier les autres d’ ‘humaines’ [...]” (STIRNER, 1988, p. 308).
próximo, a não ser que este o beneficie. O fato é que para Stirner a base do desenvolvimento criador é de natureza individualista. Contudo, essas diferenças únicas e individuais proclamadas por ele sugerem uma des-socialização do artista na visão de Marx28
, que concebe o trabalho artístico como um modelo do “trabalho não alienado, através do qual o sujeito se realiza na plenitude de sua liberdade exprimindo as forças que fazem a essência de sua humanidade” (MENGER, 2005, p. 49). O indivíduo não é, nesse sentido, um demiurgo à margem (nem acima) da sociedade, ele dela faz parte. Marx, ao confrontar Stirner, se empenha em mostrar que a originalidade e a criatividade não seriam características “únicas” de alguns trabalhadores especializados na arte, mas supostamente poderiam vir a serem atributos do indivíduo numa sociedade pós-capitalista, considerando que nela seria cultivado a polivalência e a onissapiência. Embora, como já reportado antes, nessa antropologia filosófica marxiana – tentativa de contorno das distorções da divisão e exploração do trabalho no modelo de produção capitalista – alguns autores, como já sublinhado anteriormente, identifiquem uma fragilidade: “a negação da necessidade de identificação de si próprio e de negação ao outro, condição de possibilidade da organização de uma sociedade” (COHEN, 2000 apud MENGER, 2005, p. 53). A expressividade e a criatividade são características encontradas no exercício da profissão musical. No entanto, cabe destacar que são cada vez mais freqüentes a busca por um perfil de trabalhador criativo, flexível, com iniciativa, capaz de resolver problemas e mobilizar saberes no mundo do trabalho. Ou seja, o que era dantes em muitos aspectos, apontada como exclusividade do métier artístico, são características, hoje, requisitadas no mundo do trabalho em outras áreas profissionais. O sociólogo alemão Weber (2001) ressalta essa característica, ao tempo em que também infere que a orientação imaginativa do artista, quanto ao seu sentido e resultado, é distinta do modo como se dá co m profissionais de outras áreas. Diz Weber (2001, p. 27):
A imaginação matemática de um Weierstrass é, quanto a seu sentido e resultado, orientada de uma maneira inteiramente diversa da maneira como se orienta a imaginação de um artista, da qual se distingue também, e radicalmente, do ponto de vista da qualidade; mas o processo psicológico é idêntico em ambos os casos. Ambos equivalem a embriaguez (‘mania’, no sentido de Platão) e ‘inspiração’.
Esclarecedora é ainda sua postura ao colocar que:
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Marx faz críticas severas ao livro O Único e sua propriedade de Max Stirner. Na Ideologia Alemã das 530 páginas do texto, mais da metade foram dedicadas a rebater, ponto por ponto, as colocações de Stirner. Na
Ideologia Alemã, Stirner recebe satiricamente o apelido de São Max, ou Sancho, referência irônica ao
Um comerciante ou um grande industrial que não tenham ‘imaginação comercial’, isto é, que não tenham inspiração, que não tenham intuições geniais, não passarão nunca de homens que teriam feito melhor se houvessem permanecido na condição de funcionários ou técnicos: jamais criarão formas novas de organização (WEBER, 2001, p. 26).
Dentro dessa visão weberiana sobre a orientação imaginativa no exercício das profissões, pode se afirmar que o matemático, por exemplo, tem a preocupação de desenvolver uma lógica e apresentá-la e fazê-la compreensível e possivelmente até replicável a todos que se interessarem pelo seu conceito, pela sua técnica. Essa jamais é a preocupação do artista. É nesse sentido, que se pode falar de um momento em que o brilho aurático da obra muitas vezes ultrapassa a previsibilidade do métier. Se assim não fosse todos que igualmente se apossam das ferramentas composicionais produziriam verdadeiras obras primas, mas não é o que ocorre. Nem sempre é possível explicar os meios pelos quais a inventividade criativa se manifesta e dá origem a engenhosas expressões artísticas.
3.3 ASPECTOS CONCEITUAIS DA PRODUÇÃO E DIVISÃO DO TRABALHO